Terror ao pequeno-almoço: Como gerir o seu chefe, lidar com os problemas e ainda o impressionar

Terror ao pequeno-almoço: Como gerir o seu chefe, lidar com os problemas e ainda o impressionar
Já sentiu terror ao pequeno-almoço? E aquela sensação de domingo à noite que, às vezes, se prolonga ao longo da semana, em que todos os dias parecem ser segunda-feira? Sabe do que estou a falar?

Para os que não conhecem a história que João Vieira da Cunha conta e que apelidou de Terror ao Pequeno-Almoço e, porque há sempre espaço para uma excelente história (ou estória como por aí se escreve, uma vez que realmente aconteceu), cá ficam nas suas próprias palavras.

“O diretor da unidade de vendas onde fiz a minha investigação de doutoramento, tomava o pequeno-almoço com os chefes das suas oito equipas de vendas todas as quartas-feiras de manhã. O terror que cada um deles transpirava quando se sentava à frente de dois croissants, um pacotinho de manteiga e uma chávena de café, era contagiante. Na primeira vez que fui a uma destas reuniões, vi que as mãos de vários deles tremiam – parecia que a delicada faca de cortar croissants era um martelo pneumático ligado à corrente. A energia que a alimentava vinha de dentro, do medo do interrogatório que estava para vir.

Na hora seguinte, cada um deles era alvo de uma série de perguntas que tinham como objetivo analisar o desempenho da sua equipa na semana anterior. No fim ficava demonstrado que a profunda incompetência de cada um dos chefes de vendas era responsável pela falta de motivação dos vendedores, pela relutância dos clientes, pelos preços pouco competitivos praticados pela empresa, pelas flutuações do mercado e, já agora, pela teimosia do anticiclone dos Açores em manter-se mais próximo do Equador do que habitualmente, causando instabilidade no clima nacional.

No fim destas reuniões, cada um dos chefes de venda sentava-se sozinho a pensar o que é que poderia fazer para melhorar os seus números e, «en passant», dar um jeitinho no comportamento do sistema atmosférico.”

Reconheceu-se? Reconheceu o seu chefe? Arrepiou-se ao reviver o sentimento?

Então vamos falar de como poderá tentar gerir o seu chefe. Digo “poderá tentar”, uma vez que não se trata de uma fórmula mágica em que diz umas palavras e esta terrível liderança pelo medo, que já devia ter sido reformada, miraculosamente desaparece.

Primeiro que tudo vai precisar de saber como fazer algumas coisas, nomeadamente:
  1. Conseguir que o seu chefe concorde com o que pretende fazer;
  2. Lidar com ele quando há problemas e isso depende sempre do feitio de cada um;
  3. Causar boa impressão, para que aceite mais facilmente as suas sugestões/propostas e deposite confiança em si.

Não desespere, continue a ler e falamos no fim!

Michael Armstromg, e o seu “Como ser ainda melhor gestor”, sugere-nos o que fazer para tentar alcançar cada uma destas três coisas que precisa conseguir que se tornem uma realidade.

1. Conseguir que o seu chefe concorde com o que pretende fazer.
Michael Armstromg diz-nos que “conseguir o acordo dos chefes é como conseguir o acordo de outra pessoa qualquer.” E agora está a pensar: como é fácil falar! E continua dizendo que “terá de ser persuasivo e de defender bem os seus argumentos”.  Vejamos o que realmente interessa e como fazê-lo:
  • Descubra as suas expetativas.
  • Descubra do que ele gosta e não gosta, os seus caprichos e preconceitos.
  • Descubra como aprecia que lhe apresentem as coisas. Gosta de relatórios escritos extensos e bem-feitos? Ou prefere uma proposta sucinta que caiba numa página? Será mais fácil persuadi-lo se lhe for gradualmente apresentando a proposta?
  • Aprenda como gosta que lhe façam as coisas, observando e perguntando a outras pessoas. Se algo correr mal, escolha o momento indicado para lhe pedir conselho sobre como pode fazer melhor na próxima ocasião (a maior parte das pessoas adoram que lhes peçam conselhos).
  •  Descubra o momento certo para se aproximar. Algumas pessoas estão sempre bem-dispostas, mas outras demoram tempo a aquecer. Não é nada aconselhável fazer surpresas às pessoas no fim de um dia de árduo trabalho. Tente prever-lhe os humores. As secretárias e os assistentes podem ajudar e é sempre útil ter estas pessoas do seu lado. Os assistentes podem ser bons amigos, mas inimigos são terríveis.
  • Descubra as melhores circunstâncias para o sondar: sozinhos no escritório, durante a hora de almoço, ou outra situação mais pertinente. Sair do escritório pode ser uma vantagem, porque não haverá interrupções e o seu chefe não poderá chamar o seu número dois, pelo que não terá de convencer duas pessoas ao mesmo tempo. Cuidado com os «abomináveis homens do não». A maioria das organizações tem pelo menos um e, muitas vezes, é o diretor financeiro. Estes desempenham um papel útil, mas mantenha uma certa distância.
  •  Decida se precisa de apoio. Talvez consiga defender melhor os seus argumentos numa relação de um para um. Mas suster-se nas suas próprias pernas nem sempre é fácil.
  • Não opte por um confronto aberto, sempre que não conseguir levar a sua ideia avante à primeira tentativa. Consiga um consenso nos pontos em que o seu chefe está disposto a concordar e passe, depois, para as áreas problemáticas. Dê-lhe a entender que pretende que ambos cubram todos os ângulos possíveis. Sublinhe a responsabilidade comum.
  • Deixe uma porta aberta para que possam chegar ao consenso sem terem de retroceder. Não vá até às últimas consequências. Poderá vencer desta vez, mas, e na próxima?
  • Não o esmague com as suas ideias. Não espere conseguir tudo ao mesmo tempo. Trate uma coisa importante de cada vez e não complique. Deve evitar parecer muito teimoso.
  • Tenha propostas alternativas de reserva, ou modificações à ideia original, para usar quando estiver numa encruzilhada.
  • Se o seu chefe tiver uma ideia melhor do que a sua, reconheça-a e aceite-a. Todos gostam de reconhecimento e estará apenas a reagir com ele como gostaria que ele reagisse consigo.
  • Se não puder convencer o seu chefe à primeira tentativa, não amue e lembre-se de que é ele quem manda e quem decide em última instância. No entanto, pode sempre procurar sinais indicadores de que o seu chefe poderá mudar de ideias com o tempo, após uma reavaliação dos seus argumentos ou propostas, e tentar de novo. Lembre-se que, se o pressionar muito, este poderá tornar-se teimoso e começar a pensar que está a desafiar a sua autoridade e posição. Retire-se de imediato e retome a batalha apenas no momento certo.

2. Lidar com ele quando há problemas e isso depende sempre do feitio de cada um.
Parece que tudo está a correr mal? Cometeu um erro e precisa de ajuda do seu chefe para o reparar? Michael Armstromg sugere que lide com o problema da seguinte forma:
  • Mantenha-o informado. Nunca o deixe ser apanhado de surpresa. Prepare-o previamente para as más notícias. Não deixe que todos os problemas surjam ao mesmo tempo. Revele-os gradualmente e coloque sempre uma tónica de esperança.
  • Se algo correu mal, explique o que aconteceu, porque aconteceu (sem desculpas) e o que gostaria de fazer em relação a isso.
  •  Sublinhe que procura a perspetiva dele sobre a sua proposta e o seu acordo.
  •  Se pensa que a culpa é do seu chefe, nunca lhe diga um «eu bem avisei». Com isso, só conseguirá um inimigo para toda a vida.
  • Se admitir a sua responsabilidade, tente impedir o seu chefe de se concentrar apenas em si. Afaste-lhe as recriminações com uma atitude positiva sobre o que podem fazer para resolver o problema conjuntamente.

3. Causar boa impressão, para que aceite mais facilmente as suas sugestões/propostas e deposite confiança em si.
Como gestor, Michael Armstromg lembra que “não deve ter como objetivo apenas impressionar os chefes nem torná-los parecidos consigo.” Para quê fazer do chefe um inimigo se pode tê-lo como amigo?

Para que este confie em si e se apoie em si, para que acredite na sua capacidade para ter boas ideias e as concretizar, e para que não caia em exageros, Michael Armstromg recomenda que:
  • Seja franco e aberto. Admita os erros. Nunca minta ou oculte a verdade. Se existir a mínima suspeita de que não está a ser totalmente honesto, o seu chefe nunca mais confiará em si.
  • Procure ajudá-lo a ter razão. Não estou a dizer ser subserviente ou servil. Reconheça que está ali para o apoiar a seguir na direção certa.
  • Responda rapidamente aos pedidos, mas apenas com o que realmente pode fazer.
  • Dê-lhe proteção quando assim lho exigir. Deve lealdade ao seu chefe e, se não consegue fazê-lo, deve deixar o cargo que ocupa na organização quanto antes.
  • Forneça ao seu chefe o que este pedir, do princípio ao fim. Apareça com soluções e não com problemas. Teste as suas ideias primeiro num rascunho e depois parta para uma apresentação da sua proposta completa e com todos os argumentos e provas de que precisar para se apoiar. Na dúvida, questione-se se “no lugar do meu chefe, arriscaria eu a minha reputação neste projeto, colocando-lhe o meu nome?” Se for não, fique por aí.


O que lhe recomendo é que seja feliz. Como diz Marshall Goldsmith no seu Carisma, “Cada decisão no mundo é feita pela pessoa que tem a oportunidade de fazer essa decisão – não a pessoa “certa”, ou a pessoa mais “inteligente”, ou a pessoa “mais qualificada” – e , na maior parte dos casos, não é você. Se influenciar este decisor, causará uma diferença positiva. Se não influenciar este decisor (…) aprenda a viver com isso. Terá uma vida melhor! E fará uma diferença mais positiva na sua organização e será mais feliz!”


fatinha-portal-artigo1Fátima Rodrigues é gestora do Portal da Liderança e editora de conteúdos da Leadership Business Consulting, tendo sido coordenadora editorial da área de business do grupo Almedina e lecionado na Congrégation Saint-Joseph de Cluny. Esteve ligada vários anos ao Conselho da Europa, onde exerceu funções de formadora do GERFEC em relações interculturais e interreligiosas em contexto corporativo e social. É fundadora e administradora geral projeto online de fomento à leitura Segredo dos Livros.