Quem quer investir em tecnologia “velha”?

Quem quer investir em tecnologia “velha”?

As novas tecnologias são tão envolventes que pode ser fácil esquecer que há tecnologia antiga que ainda pode ser valiosa, desde que trabalhada com uma estratégia inteligente. Mas quem quer apostar em tecnologia “velha”? – Os líderes com visão, como explica o professor Juan Pablo Vazquez Sampere.


Os líderes e empreendedores que procuram um novo negócio disruptivo para vencer no mercado não devem negligenciar as tecnologias antigas subutilizadas
que, por vezes, para continuarem a ser valiosas, apenas precisam de uma nova utilização, e de um novo modelo de negócio. Quem o diz é Juan Pablo Vazquez Sampere, professor de administração de empresas na IE Business School em Madrid.
O docente refere, num artigo na Harvard Business Review, que os consumidores costumam ficar entusiasmados com as novidades em tecnologia digital, como a câmara fotográfica que sai mais barato que desenvolver rolos e rolos de película, ou as aplicações de partilha de fotos que, por sua vez, tornam a câmara do smartphone mais simples de usar que a “velhinha” câmara digital. E como as novas tecnologias são tão cativantes que pode ser fácil esquecer que são os novos modelos de negócio que impulsionam as indústrias, e que a tecnologia antiga ainda pode ser valiosa, desde que trabalhada com uma estratégia inteligente.

Os inovadores sabem que as novas tecnologias nem sempre se traduzem em lucro. No livro “The Innovator’s Dilemma”, Clayton Christensen explica como os incumbentes pagam um preço elevado para melhorarem constantemente as suas ofertas tecnológicas e terem os consumidores sempre satisfeitos. A história está repleta de invenções tecnologicamente interessantes, mas que nunca fizeram dinheiro, geralmente devido a uma incompatibilidade com os modelos de negócio estabelecidos ou devido ao modelo de negócio levado a cabo. Mas quem quer apostar em tecnologia “velha”? 


Juan Pablo Vazquez Sampere dá o exemplo da tecnológica norueguesa Piql, que usa película fotossensível – tecnologia lançada na década de 1880 primeiro para a área de fotografia e mais tarde utilizada pela indústria do cinema – para converter arquivos digitais em cópias de segurança físicas que podem durar mais de 500 anos (e com instruções percetíveis para que quem queira aceder aos dados o faça com facilidade, independentemente dos métodos ou fornecedores envolvidos). Ou seja, a Piql está a responder à grande procura de armazenamento de dados. Como relembra o docente da IE Business School, estamos apenas no início da internet das coisas, e os dados estão a crescer 40% ao ano. Mas, ao mesmo tempo, a tecnologia para armazenar dados está a mudar de forma tão rápida que as instituições públicas e as grandes empresas estão em risco de perder a capacidade de ler os dados de que dispõem. As soluções de armazenamento tornam-se, de forma cíclica, instáveis, o que faz com que os dados tenham de ser migrados para outro meio de armazenamento. – Quem não se lembra das disquetes? As migrações estão longe de ser perfeitas, e, como resultado, alguns dados acabam corrompidos ou perdem-se para sempre em cada migração. Este problema faz parte do que Vint Cerf (conhecido como o “pai da internet”), apelida de “digital dark age”, ou “era das trevas digital”, em que, quando os historiadores olharem online para um ponto na História, muito do material não exista mais, ou seja, não haverá registo histórico. Além de que as migrações também são caras (representam qualquer coisa como 60% dos orçamentos de TI das grandes empresas).


Assim, em vez de ter avançado com mais uma nova tecnologia para tentar atenuar o problema, a Piql está a usar tecnologia antiga para um novo propósito – não se trata apenas de facilitar o acesso aos dados, mas de assegurar que estes vão estar preservados na totalidade por centenas de anos. Ao reutilizar uma tecnologia para lá de testada e que no passado ajudou a criar novas indústrias, a Piql alavanca-a para criar mais uma nova indústria: a preservação digital.


O professor Juan Pablo Vazquez Sampere denota como a base de competição da Piql é a funcionalidade e a fiabilidade, e não a conveniência ou preço. Os disruptores competem muitas vezes em termos de conveniência e custo – com o aço mais acessível produzido por pequenas mineradoras, ou o método mais conveniente da Netflix de visualizar filmes e séries. A conveniência e preço são elementos importantes para criar disrupção nos mercados existentes, em que alguns clientes procuram algo mais, ou em que o disruptor tenta alcançar potenciais consumidores. Contudo, para criar novos mercados, os empreendedores disruptivos podem estar a deixar passar ao lado a possibilidade de dar destaque a um critério diferente.


Como afirma o docente espanhol, “num mundo em que parece que é moda afirmar que qualquer empresa digital é disruptiva”, ou onde parece que a única opção viável é ser disruptivo dando prioridade a tecnologias que tornam as coisas mais em conta e simples, como a cloud, os telemóveis, etc., a Piql está a ser disruptiva na migração de dados em massa ao reavivar uma tecnologia quase descontinuada que deu provas de que é fiável e funcional. E, pelo caminho, a empresa norueguesa está a criar uma indústria, tal como as companhias históricas de hoje fizeram no passado.


Para Juan Pablo Vazquez Sampere o mundo está repleto de tecnologias antigas e fora de moda e também há muitas indústrias novas ainda por explorar. E frisa que a disrupção não se trata apenas de tornar as coisas mais simples e acessíveis – também pode criar um novo crescimento líquido, e se os líderes olharem bem, podem até mesmo deparar com algumas novas “velhas” indústrias para potenciar.

25-07-2017


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