Angola vai surpreender nos próximos 10 anos e tornar-se numa das referências mundiais de modernização

Angola vai surpreender nos próximos 10 anos e tornar-se numa das referências mundiais de modernização

Angola vai surpreender e tornar-se numa das referências mundiais de modernização socioeconómica realizada numa só geração. Para quem só vê o copo meio cheio em Angola, esta afirmação pode parecer arrojada. No entanto, uma análise objetiva mostra que este cenário é plausível e provável.

Para este efeito, Angola terá de superar cinco desafios determinantes e interdependentes: crescimento distribuído e social, diversificação económica, recursos humanos qualificados, instituições fortes e independentes, e estabilidade política e social.

1. Cinco Condições Favoráveis
Cinco fatores são bons indicadores do elevado potencial de modernização do país. O primeiro é sobejamente conhecido: Angola possui enormes riquezas que impulsionarão o seu crescimento, nomeadamente o petróleo e o potencial agrícola.

Segundo, o desempenho nos últimos 10 anos é extraordinário e um bom indicador da capacidade dos angolanos irem bem mais longe, especialmente se considerarmos que o país não tinha condições de base após uma guerra prolongada e de efeitos devastadores. As estatísticas e os indicies internacionais não ilustram o progresso já realizado por deficiência de reporte.

Terceiro, os dirigentes angolanos, após foco na construção de infraestruturas e de instituições de Estado, estão agora concentrados na erradicação da pobreza, na juventude e num desenvolvimento mais distribuído socialmente.

Quarto, a elevada concentração populacional em Luanda e noutras cidades facilita o processo de modernização.

Quinto, a dinâmica económica da SADC e a recuperação da economia mundial terão um impacto positivo na frente externa e no investimento em Angola.

2. Cinco Desafios Determinantes
Para realizar o potencial apontado, Angola terá de superar cinco desafios plenamente alcançáveis.

Crescimento Distribuído e Social
O desafio de Angola não é crescer, mas “crescer de forma distribuída” com benefício de toda a população. Só assim terá sustentabilidade e estabilidade.

O cenário é positivo pois a opinião pública e os dirigentes angolanos estão presentemente muito focados neste desafio. Existe uma grande preocupação com as questões sociais e o combate à pobreza, com os jovens e com o desenvolvimento rural e agrícola. O Plano Nacional de Desenvolvimento e os diversos planos estratégicos setoriais mostram que existe um esforço estruturado e sustentado para endereçar este desafio.

Diversificação Económica
A diversificação económica é importante, não só porque o petróleo é finito, mas por outros motivos que tornam premente: tornar a balança externa e as receitas do Estado menos dependentes das flutuações do preço mundial do petróleo; evoluir de uma economia tutelada centralmente pela distribuição das receitas do petróleo para uma economia que gera e distribui rendimentos e empregos numa relação mais direta com atividades relacionadas com o ciclo e o mérito produtivo das populações, como as pescas, a agricultura, o comércio e a pequena indústria, com efeitos social e territorialmente localizados.

O cenário é positivo, embora difícil, pois nem todas as atuais políticas de substituição de importações são fáceis de implementar ou boas para a economia. É preciso ser mais seletivo. No que se refere ao aumento de exportação não associada ao petróleo, o desafio é complexo e será de médio prazo porque não está somente associado à captação de investimento, mas também à entrada em circuitos mundiais, à captação e desenvolvimento de competências competitivas regionalmente ou a nível mundial, e à construção de cadeias de valor integradas.

Qualificação do Capital Humano
Angola tem um grande défice de capital humano qualificado, que não será facilmente suprido dado o hiato criado durante a guerra e a fragilidade do sistema de ensino e das universidades. No entanto, dois fatores indicam uma evolução positiva neste aspeto.

A crise económica em Portugal tem servido para desviar para Angola recursos humanos críticos que de outra forma não estariam tão disponíveis, o que está a acelerar, com efeitos imediatos, a modernização e o crescimento do país.

Estão planeadas, e algumas já em curso, políticas e ações de base, com recurso a novas tecnologias e à internet, que vão permitir que Angola dê um grande salto a nível escolar, universitário e profissional. No entanto, a baixa capacidade de implementação fará com que os efeitos não sejam sentidos nos próximos três anos, tendo porém um impacto significativo num horizonte de dez anos.

Instituições Fortes e Independentes
Poucos países conseguem atingir e manter um nível sustentado de desenvolvimento social e económico sem instituições fortes e independentes, nomeadamente administração pública eficaz, justiça independente, regulação económica  e comunicação social plural e livre, entre outros. Angola terá de superar este desafio, que não é fácil. Regista-se um progresso notável, pois partiu-se do quase zero. No entanto, o caminho a percorrer é ainda longo, dependendo não só da capacidade financeira e organizacional, mas também da alteração de mentalidades e da distribuição incremental do poder entre instituições.

Estabilidade Política e Social
Não há desenvolvimento, nem democracia, sem estabilidade política e social. O cenário é positivo, mas requer maturidade e empenho de todos os angolanos, gestão de consensos mínimos e um governo forte por forma a manter o necessário equilíbrio entre, por um lado, unidade do Estado, estabilidade social e política, crescimento económico e social e, por outro lado, crescente democracia e distribuição do poder.

Contrariamente a algumas visões simplistas, a democracia não depende da boa vontade, nem se decreta, e não acontece de um dia para o outro. É um processo, progressivo e frágil, que deve ser suportado pelo desenvolvimento económico e social (cidadãos capazes de fazer opções informadas e livres) e que requer estabilidade social e unidade do Estado.

3. Um Futuro Brilhante
Angola vai surpreender, pois tem condições para endereçar estes cinco desafios com sucesso. Os próximos anos irão revelar uma das maiores evoluções mundiais nos índices de desenvolvimento social e económico.

Fonte: Arregaçar as Mangas
 


CarlosOliveiraCarlos Oliveira é Presidente do Conselho de Administração e fundador da Leadership Business Consulting. Com mais de 15 anos de trabalho em consultoria de gestão e de Alta Direção, passou anteriormente pelas empresas multinacionais Andersen Consulting, hoje Accenture, e pela DHV Consultants. Coordenador da Sociedade da Informação e Governação Eletrónica na UMIC, Presidência de Conselho de Ministros, durante dois anos, onde montou a UMIC, definiu os planos de ação nacionais para a Sociedade da Informação e Governação eletrónica e do Programa Nacional das Compras Eletrónicas. Exerceu em 1991 funções de Deputado à Assembleia da República pelo círculo eleitoral Fora da Europa e Membro das Comissões Parlamentares de Economia, Finanças e Plano Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades Portuguesas. É vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Sul Africana (CCILSA).