China 2020: O que vai mudar? Que líderes irão surgir nesta economia e nos mercados onde esta?

China 2020: O que vai mudar? Que líderes irão surgir nesta economia e nos mercados onde esta?

China nos próximos anos. O que vai mudar? Que líderes e que desafios irão surgir nesta economia e nos mercados onde investe e opera?

Jean-Pierre Lehmann, professor no IMD e na Hong Kong Business and Economics University, analisou a realidade e os desafios que se colocam à China. Este refere que “As escolhas que a China fizer terão grande impacto no resto do mundo”.

“A China é o amanhecer de uma nova era. Politicamente, há a nova liderança de Xi Jinping, que irá esforçar-se, tal como os presidentes anteriores, para alimentar o crescimento económico, ao mesmo tempo que mantém a estabilidade política. Mas esta tarefa torna-se cada vez mais difícil no meio das crescentes preocupações na China com a economia mais lenta, a corrupção e os problemas sociais.” 

“As mudanças iminentes da China não se limitam apenas à sua nova liderança. Várias mudanças fundamentais estão a acontecer, o que cria desafios no panorama demográfico, social, ambiental, económico, político e geopolítico. A forma como a China lidar com esses desafios terá um tremendo impacto no resto do mundo.”

“Na tentativa de descobrir para onde a China está a ir, é necessário saber de onde esta vem. Como Winston Churchill referiu, "Quanto mais do passado conseguir ver, maior será o futuro que poderá ver." Esta afirmação pode ser especialmente aplicada à China.”  

Uma breve história: Do isolamento à globalização  
“No século XV, a China era a grande potência marítima mundial. Isto é, até que o tribunal Ming proibiu qualquer viagem marítima estrangeira e obrigou as populações costeiras a mudarem-se para o interior (uma mudança que levou a China ao isolamento, à medida que a Europa de Oeste começava os seus descobrimentos). Tendo virado as costas ao mar, a China focou-se no desenvolvimento e na consolidação do Império Chinês para o sucesso até à Revolução Industrial.

Com a Revolução Industrial surgiram empresários e comerciantes do Oeste, que viam na China uma terra cheia de possibilidades durante aquela era. O que se seguiu trouxe uma mudança fundamental para o país e para o mundo. Nenhum país alguma vez experimentou um declínio tão rápido como a China nos 110 anos, desde a Guerra do Ópio, em 1839, até à Libertação em 1949. A China foi humilhada.

Após a Libertação em 1949, a soberania foi recuperada e a China voltou a ser um membro respeitado (mesmo que por vezes temido) da comunidade internacional, embora estivesse ainda economicamente estagnada. Em 1976, os 23 % de população mundial chinesa era responsável por menos de 4% do PIB global. O aumento da globalização estava a forçar as nações a tomar a decisão de se juntarem ou de se retirarem. Desta vez, a China não se isolou, como tinha feito no passado. Como disse Zheng Bijian, intelectual e reformador chinês, “aceitar a globalização foi a escolha estratégica mais importante que a China alguma vez fez”. 

Embora não sem desafios, incluindo uma inflação galopante e o medo de "poluição espiritual estrangeira", a decisão de se juntar à economia do mercado global, trouxe resultados surpreendentes para a China. Entre 1978 e 1990, a economia chinesa expandiu-se 26 vezes e em 2010 ultrapassou o Japão ao tornar-se na segunda maior economia do mundo. Era cada vez mais claro que a China era realmente global, ao estar presente em todo o lado, desde África, onde um surto de investimentos em infra-estruturas, minas e terras estavam e estão a acontecer, até aos EUA, onde comprou mais de 1 trilhão de dólares em títulos do Tesouro dos EUA.”

Seis desafios  
“Devido ao incrível progresso da China, é cada vez mais claro que uma nova mudança está a ocorrer. De maneira nenhuma estou a insinuar que a China vai conseguir ultrapassar os EUA enquanto hegemonia económica mundial, ou que as outras economias irão enfraquecer em comparação com a China. Estou apenas a constatar que as escolhas que a China fizer, terão um efeito no resto do mundo. Em 2002, um antigo director geral da World Trade Organisation, Supachai Panitchpakdi, explicou como a China afeta o resto do mundo e, 10 anos depois, as suas palavras ainda se fazem sentir:    

"A forma como o país mais populoso do mundo enfrentar os vários desafios de desenvolvimento, irá determinar o tipo de mundo em que vivemos... Se a China tomar as decisões erradas, o resultado será desastroso. De forma recíproca, uma China que se consegue transformar numa sociedade aberta e relativamente afluente, será tanto uma inspiração para outros países como uma locomotiva que levará consigo outras economias mundiais.” 

“A China tem que enfrentar 6 desafios independentes, de modo a conseguir assegurar uma transição suave para o próximo nível de desenvolvimento. Enfrentá-los com sucesso, ajudá-la-á a evitar cair na armadilha do médio-prazo, a prevenir uma enorme agitação social e a evitar conflitos com o estrangeiro.”

Os 6 desafios são:  

1. Demográfico
“A abundante força laboral chinesa, composta por trabalhadores jovens e baratos, já não existe da mesma forma de outros tempos, uma vez que a população está a envelhecer rapidamente.”  

2. Social
“Centenas de milhões de pessoas ainda vivem em zona rurais e na pobreza, com uma classe média urbana emergente cada vez mais desiludida com uma governação fraca, uma grande corrupção e uma desigualdade desenfreada, o que faz aumentar a pressão para a liderança chinesa se tornar mais responsável.”

3. Ambiental
“A China está a emitir mais CO2 do que os EUA, e está a atingir os mesmos níveis deste em termos per capita, o que representa uma grande ameaça e um potencial desastre.”  

4. Económico
“O antigo modelo tem-se mostrado insustentável à luz destas preocupações emergentes, tendo levado a China a desenvolver um novo modelo mais baseado no consumo, nos serviços sociais, e a uma maior produção de valor acrescentado e com base na inovação.”

5. Político
“O sistema atual não pode funcionar eficazmente face a estes desafios sofisticados, cada vez mais reconhecidos como constituindo um impulso para uma reforma política.”

6. Geopolítico
"A ascensão pacífica da China" parece cada vez mais duvidosa à medida que o país se envolve numa série de preocupantes discussões com os seus vizinhos e revela relações muito tensas com os EUA.

Ainda assim, a ascensão da China continua. Mesmo que a taxa de crescimento económico pareça estar a diminuir, o seu crescimento é contrastante com as economias em declínio da União Europeia, do Japão e dos EUA, não só em relação às trocas globais e aos investimentos, mas também em relação às finanças globais.

Trata-se do amanhecer de uma nova era para a China, não só a nível político mas também a nível demográfico, social, ambiental, económico e geopolítico. Ninguém sabe o que os anos seguintes a uma nova liderança irão trazer. No entanto, podemos ter a certeza de que a China e o mundo em 2020, estarão, provavelmente, muito diferentes do que eram em 2010 e de como eram em 2000. 

Fonte: IMD


Jean-Pierre-LehmannJean-Pierre Lehmann é professor emeritus de economia política internacional no IMD e Senior Fellow do Fung Global Institute, Hong Kong, sendo professor do Executive MBA (EMBA) e nos programas Orchestrating Winning Performance (OWP).