Liderança no Feminino – O fim da masculinização do mundo da gestão

Liderança no Feminino – O fim da masculinização do mundo da gestão
As mulheres ocupam 33% dos cargos de gestão nas empresas*, ou seja, em cada 3 cargos, um deles já é ocupado por mulheres.

Esta dimensão de protagonismo, a crescer fortemente ao longo dos últimos 20 anos, vai colocar as mulheres em “pé de igualdade” dentro de 20 anos. Digo eu e sinto muita segurança nesta previsão. Creio que me reformarei vendo as mulheres a tratar a gestão e a liderança com a mesma segurança com que os homens o fazem.

De facto, entendo que o sucesso na gestão se alimenta tanto da segurança como da inteligência dos seus protagonistas e, se bem que a inteligência não é um “handicap” para as mulheres, a segurança é. E é-o porque esta ganha-se com a prática e, em cargos de gestão, essa prática está a acontecer agora.

Isto leva tempo, mas o seu potencial de progressão é enorme, uma vez que resulta da ambição que está latente nas “novas” expectativas de carreira. As mulheres estão a tomar a decisão de enveredar por carreiras profissionais de gestão e decididas a lutar com os homens pelo protagonismo dos cargos. Trata-se de “arma” tremenda, porque os homens não sabem lidar com essa ambição, dado que o histórico não existe. Esta luta pelo protagonismo da carreira é um espaço desconhecido e os homens lidam mal com o desconhecido. Estes terão de sair da sua área de conforto e aí tudo se complica. Ao longo dos anos, têm sido “homens com homens” na gestão das empresas e agora, como em cada 3 gestores um é mulher, tudo muda. Muda o comportamento, muda a linguagem, muda o raciocínio e até mesmo a sensibilidade para com os assuntos. Acaba a masculinização das reuniões.

Há alguns anos atrás, na indústria, sensivelmente no início da minha carreira e já em funções de chefia, uma colega interpelou-me referindo que eu não gostava de trabalhar com mulheres. A colega explicou-se e fundamentou a afirmação no facto de eu ser mais exigente com ela do que com outros colegas. Lembro-me perfeitamente do que senti. Porque nestas alturas temos tendência a ripostar e a ficar incomodado. Eu não reagi. Lembro-me de ter dito algo mas em boa verdade, esta constatação não me alterou nenhuma sensibilidade em especial.

No entanto, fiquei a pensar nisso. Ao longo dos anos fui tornando clara a razão de tal afirmação, e de certa maneira ela tinha razão pois eu era realmente exigente com ela. Com ela mas com todos os outros. Era exigente com todos como ainda sou, sejam homens ou mulheres. Não sou bruto nem agressivo, mas também não sou um “protecionista machista patético”. Ao longo dos anos, o trabalho com as mulheres tem-me estimulado a desenvolver um comportamento de liderança unissexo.

Sobre o episódio passado e que partilhei, há duas reflexões oportunas:
  • Há 20 anos atrás não era muito normal ter mulheres nas equipas operacionais industriais e isso tornava-as excecionais. As mulheres já são um ser excecional mas, envolvidas em equipas fortemente constituídas por homens, pode haver tendência para um acolhimento cuidadoso e diferenciado. Eu não tive isso em conta e considerei-a uma entre iguais.
  • Por outro lado, creio que ela, sendo mulher, se via centrando atenções e cuidados, sentia-se diferente e estaria sensível aos acontecimentos. O ambiente industrial não é fácil e há 20 anos era povoado por homens. Pela sua própria perspetiva, sentiria necessidade de ter algumas considerações especiais. Eu não tive isso em conta e considerei-a uma entre iguais.

Poderia ter feito de forma diferente? Poderia porque não há uma versão apenas para fazer as coisas bem mas, uma coisa é certa, tratei uma mulher como a tantos homens e não mudei ao longo dos anos.

Uns anos mais tarde, noutro ramo de atividade, operações em serviços, liderei equipas 100% femininas e a exigência foi a mesma. Não senti necessidade de baixar os níveis de rigor, trabalho e ambição, pois as mulheres reagiam sempre aos desafios.

Aliás, fui sentindo sempre uma onda fantástica de motivação e de vontade de ir mais longe, ao ponto de sugerir algumas mulheres para cargos de topo. Vi mulheres a tratar os assuntos e a tomar decisões como qualquer outro homem.

Posto isto, e porque é evidente que não faço diferenciações, há alguns pontos que podem dar o mote a reflexões mais profundas:
  • Numa perspetiva cultural, o ambiente profissional tem vindo a ter mais mulheres e isso, apesar de ser bom, leva décadas a equilibrar. As organizações continuam a crescer com mais homens pela simples razão de que há mais homens a concorrer.
  • Em termos sociais, a mulher é sempre o “elo da casa”. O homem arranja sempre mais coisas para fazer fora de casa e da família, forçando a mulher a cuidar das compras, dos filhos, das limpezas, entre outros afazeres domésticos. Também este fenómeno está a mudar mas, enquanto muda e não muda, é normal que a mulher ande mais cansada, e portanto, menos disponível para os desafios profissionais.
  • O fenómeno do networking como forma de aprendizagem, está mais enraizado nos homens. Há mais homens gestores e por isso uma mais dinâmica de diálogo e de troca de experiências. Em termos de prática de decisão, é normal que os homens tenham mais conhecimento e informação.
  • A genética poderá explicar a razão pela qual as mulheres e homens são diferentes a tratar os temas. Quer na sua análise, quer na sua decisão. São mais fortes, mais decididas. É a minha opinião, porém, atrevo-me a dizer que enquanto os homens procuram facilmente justificações para algo que não conseguem fazer (failure), as mulheres raramente falham.


Atrevo-me a dizer que numa organização equilibrada entre homens e mulheres, 50/50, as mulheres terão mais sucesso em termos carreira hierárquica porque procuram o sucesso. O homem tende a investir mais tempo na gestão dos meios.

*Dado de um estudo da Informa D&N em 2013 intitulado “Presença Feminina nas empresas em Portugal”.


Jose-Miguel-Marques-MendesJosé Miguel Marques Mendes nascido em Fafe em 1967, estudou em Braga, Guimarães e Aveiro, onde se licenciou em Engenharia Cerâmica e do Vidro e, no Porto, onde tirou o MBA em Gestão na Porto Business School. No âmbito profissional, exerceu em V.N. de Gaia, Badajoz (Espanha) e León (Espanha), Coimbra e o Porto. Com cerca de 20 anos de vida profissional, iniciou-se em 1995 no grupo vidreiro BA com uma carreira o levou de jovem estagiário a diretor executivo, em 9 anos. Em 2004 decide tornar-se um empreendedor e inicia uma nova fase da carreira com uma simbiose muito séria entre a gestão, o empreendedorismo e a liderança. É fundador de um grupo na área da saúde onde esteve até 2010. Em nova iniciativa, aceita liderar o grupo editorial e livreiro de Coimbra, Almedina. Em 2012, a veia empreendedora assume nova visibilidade e funda a Mistura Singular com mais 5 sócios com um propósito de através da gestão, ajudar os empresários a mudar o rumo das suas empresas. Em paralelo ao percurso profissional, vai alimentando a “dimensão liderança” das pessoas, incutindo-lhes a capacidade de ver para além do óbvio. Acontece, por um lado em processos formais de mentoring, mas também conversando sempre que é desafiado para tal. Quem com ele se relaciona, diz-se, não fica indiferente. O seu blog “Liderança sem diploma” é um sinal de que acredita que todos podem liderar, quanto mais não seja a si mesmos.