Há corajosos e bons líderes em Portugal? E vale a pena reconhecê-los? Há quem acredite que sim.

Há corajosos e bons líderes em Portugal? E vale a pena reconhecê-los? Há quem acredite que sim.

Muitas vezes se ouve nos média que há falta de líderes e um défice de liderança em Portugal. Mas haverá realmente ou será mais uma “tirada” de negativismo e não querer ver o que de bom por cá se faz e por todo o mundo, através da visão dos líderes portugueses?

BLA-Vencedores-PT 2014Decorreu ontem a sexta edição dos conhecidos Best Leader Awards, que distinguem anualmente seis personalidades que se destacaram enquanto líderes em diferentes áreas, tendo como fim reconhecer líderes que inspiram a sociedade. Trata-se de uma iniciativa levada a cabo pela Leadership Business Consulting nos últimos seis anos e que é hoje “um dos pontos altos do ano em termos de gestão e de liderança em Portugal”, referiu ao Portal da Liderança João Figueiredo Cotrim, Presidente do Turismo de Portugal, durante o evento.

“Em 2009, quando começámos o Best Leader Awards em Portugal, (…) acreditávamos que premiar Lideranças inspiradoras e positivas podia ser uma fonte de influência para todos aqueles que defendem que o sucesso das organizações e das sociedades maduras se faz com lideranças fortes, capazes de mobilizar um grupo de pessoas que se transcendem a cada momento, aceitando as suas fragilidades, mas acima de tudo atrevendo-se a acreditar que tudo é possível quando definimos objetivos claros e caminhamos no mesmo sentido, tendo em conta que cada um é um ser singular e peça de um puzzle que se quer completo”, referiu Sandra Correia, da Comissão Organizadora do evento.

BLA-2014-Sala copyJá vão na sexta edição e continuam a ter líderes para reconhecer e encher anualmente o salão Pedro Leitão do Hotel Ritz, com gestores e empresários dos mais diversos setores de atividade e localização geográfica. É estranho, se acreditarmos que há falta de bons líderes portugueses e que a organização não dá “brindes” a quem vai! Sim, poderia o leitor pensar que esta fosse a motivação para a presença e deslocação ao evento, por vezes de vários milhares de quilómetros.

E, se pensa que o processo é conduzido de ânimo leve, desengane-se. É aí que reside o valor que os líderes atribuem a este prémio, pois não é fácil ser um dos nomeados, que nunca chegam a ser conhecidos, e muito mais difícil ainda ser um dos vencedores. Porquê? Porque os nomeados e galardoados são selecionados e avaliados de acordo com um processo que conta não com uma, mas com duas comissões! Uma comissão de nomeação, dirigida por José Lamego, na qual participam todos os vencedores da edição anterior, e outra de avaliação, presidida por Eduardo Catroga.

Deixo-lhe algumas das ideias e partilhas que retive dos intervenientes na cerimónia.

“Crise atrás de crise, Portugal está cada vez mais forte e com evoluções muito positivas.”
“Concentremo-nos nas oportunidades e nos exemplos de líderes corajosos, como os do Best Leader Awards.”

  • Moderador do debate: Camilo Lourenço, jornalista e comentador económico português

“Nos últimos dez anos, olhámos demasiado para o nosso umbigo e de menos para o dos outros.”

  • Melo-Pires-Mira-AmaralLíder na Gestão de Empresa Privada: António Melo Pires, CEO da Volkswagen Autoeuropa - Prémio entregue por Luís Mira Amaral, CEO do Banco BIC, patrocinador do evento

“Nos inícios da Autoeuropa, o esforço de formação foi enorme, porque absorvemos muitas pessoas de outras indústrias com outros paradigmas.”
“O nosso foco e sucesso é a capacidade de mudar constantemente os paradigmas em função da sociedade.”
“Vendemos sobretudo um produto emocional. A imagem, as emoções, mas por detrás há uma complexidade de liderança com foco no produto, mas sem esquecer o fator humano.”
“Quando nos confrontámos com a decisão de ou mudamos ou fechamos, foi a capacidade de mudar de paradigmas, de inovar e de ser flexível que nos salvou.”
Antonio-Ramalho-Jose-Lamego

  • Líder na Gestão de Empresa Pública: António Ramalho, Presidente das Estradas de Portugal - Prémio entregue por José Lamego, Presidente da Comissão de Nomeação do Best Leader Awards Portugal

“O Estado não me limita. É um acionista e faz a sua pressão como outros acionistas.”
“Tenho um acionista que reconhece a sua função como acionista e não como gestor.”
“Sou o gestor mais privado dos gestores do setor público.”
“A Estradas de Portugal é um bom exemplo do sonho que hoje assegura um dos parques com mais qualidade de estradas e infraestruturas do mundo.”
Zagalo-Lima-Joao-Portugal

  • Líder Internacional: Armando Zagalo de Lima, Diretor Executivo da Xerox Corporation e Vice-Presidente da Xerox Technology Business - Prémio entregue por Jorge Portugal, Consultor para a Inovação do Presidente da República Portuguesa

“Quem marca o ritmo é o líder. Se queremos que sejam mais rápidos, temos de correr mais depressa.”
“Só se segue que tem credibilidade.”
“Em Portugal, o problema não é a liderança,  mas as infraestruturas, a mentalidade e a eficiência.”
“Os líderes em Portugal são tão bons como em qualquer outro lugar. É o Estado que condiciona as empresas.”
“Ninguém investe num país onde a lei laboral é pouco flexível.”
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“Muitos se queixam na academia da falta de recursos. Se eu tiver um [professor] prémio Nobel que faça 70 anos, mesmo que queira lecionar gratuitamente, não posso fazer um contrato com ele.”
“Pelo menos a academia no setor público rege-se por paradigmas diferentes dos que depois ensina na gestão.”
“Se ousarmos trabalhar nos limites do sistema e se não usarmos as circunstâncias como desculpa, é possível.”
“Também na educação estamos num mercado global.”
“O ensino superior é a segunda indústria exportadora da Austrália e faz-se atraindo estudantes.”
“Portugal tem condições para criar um grande cluster na educação. (…) A minha escola contribui com 8 milhões de euros anuais.”
Paulo-Rosado-Daniel-BessaLíder nas Novas Tecnologias: Paulo Rosado, CEO e Fundador Outsystems - Prémio entregue por Daniel Bessa, Diretor da COTEC Portugal

“Conseguimos estabilidade nas receitas mesmo durante a mudança de uma empresa de venda para uma empresa de aluguer de bens.”
“Nunca tivemos de recorrer à banca.”
“Os nossos primeiros clientes foram de Portugal, Holanda e Espanha.”
“Decidimos que todos os emails internos seriam em inglês, quando ainda só estávamos em Portugal.”
“Quando aparecemos, ninguém sabia de onde vínhamos e tivemos tempo de mostrar a qualidade do produto até descobrirem que éramos de Portugal.”
“Neste setor, quem não tenha algo americano já está em desvantagem.”
“O mercado americano é altamente ruidoso, mas, se as empresas neste setor não tiverem uma empresa forte no país, não ganham.”
“Os americanos andam sempre três anos à frente do mercado com as suas startups e é preciso estar lá para conseguir acompanhar.”

Líder na Internacionalização: Rui Lemos Monteiro, CEO da SODECIA - Prémio entregue por Miguel Frasquilho, Presidente da AICEP Portugal Global

“O envolvimento em vários tipos de plataformas e o reconhecimento do serviço e da sua qualidade permitiu que os nossos clientes nos abrissem portas noutros países e nos trouxessem outras oportunidades.”
“Estamos num setor relativamente fácil com 12 ou 13 clientes mundiais que sabemos onde estão.”
“Tem havido alterações substanciais ao nível das tecnologias usadas.”
“O bloco asiático é hoje 50% da produção de carros e só temos 10% do mercado. É uma oportunidade a agarrar.”
“Fui para o Brasil de 1998 a 2005 e, com uma equipa maravilhosa, crescemos bastante. A partir de 2001, quase construímos uma fábrica por ano.”

  • Encerramento: João Duque, Professor Catedrático do ISEG – Lisboa School of Economics and Management

“Temos a tendência para ver no topo da empresa o líder da organização, mas às vezes não o é.”
“O líder tem de ter alguma sorte em alguns atos de gestão que pratica, associados a poder arriscar no momento certo.”
“Um líder tem de entregar resultados. Se se demonstrar defensivo, não arrisca e, se não arrisca, não ganha.”
“Um dos momentos mais difíceis, quando assumi a presidência do ISEG, foi todos me pedirem resposta para tudo, mesmo colegas que viviam dedicados a esses temas.”
“Um líder tem de ter respostas, mas ter alguma posição de humildade e coragem para dizer “não sei” quando é o caso.”
“Um líder não deve saber onde almoça a cada dia, mas sim onde o vai fazer de hoje a um ano.”
“Um líder tem de ser justo e de ser reconhecido como um homem justo.”


Acha que há corajosos e bons líderes em Portugal? E valerá a pena reconhecê-los? Eu acho que sim.

 


fatinha-portal-artigo1
Fátima Rodrigues é gestora do Portal da Liderança e editora de conteúdos da Leadership Business Consulting, tendo sido coordenadora editorial da área de business do grupo Almedina e lecionado na Congrégation Saint-Joseph de Cluny. Esteve ligada vários anos ao Conselho da Europa, onde exerceu funções de formadora do GERFEC em relações interculturais e interreligiosas em contexto corporativo e social. É fundadora e administradora geral projeto online de fomento à leitura Segredo dos Livros.