O bichinho da liderança - Pequeno e tímido ou grande e feroz?

O bichinho da liderança - Pequeno e tímido ou grande e feroz?

Todas as pessoas têm dentro de si o bichinho da liderança. Nalgumas pessoas nasce pequenino e tímido. Noutras pessoas é grande e feroz.

Muita gente tem com o seu bichinho da liderança a mesma relação que a minha avó tinha com os gatos dela. A minha avó não ligava muito aos gatos. Os gatos faziam parte do movimento de fundo lá de casa, como convém numa casa do campo.

Há gente que adora o seu bichinho da liderança e acha o seu bichinho da liderança o melhor bichinho da liderança do mundo inteiro e por isso não acham que seja preciso tratar muito dele. Deixam-no ser como é.

Há ainda outras pessoas que acham que o seu bichinho da liderança é muito importante, mas não acham que é o melhor do mundo. Por isso, tratam dele. Ajudam a que ele cresça de forma a tornar-se o mais forte possível.

O bichinho da liderança é a imagem que cada um de nós tem daquilo que é um bom líder. Muita gente não sabe bem como descrever essa imagem. Mas é fácil descobri-la. Só é preciso olhar para o que é que uma pessoa faz quando tenta que as outras pessoas façam o que ela quer.

Há pessoas que têm a sorte de ter nascido com uma excelente imagem do que é um bom líder. Essas pessoas são os líderes carismáticos de que todos ouvimos falar e que todos gostávamos de ter como chefe. Mas também há pessoas que têm o azar de ter nascido com uma imagem errada daquilo que deve ser um bom líder. Algumas são líderes ineficazes, que não sabem bem o que é que devem fazer para motivar os seus colaboradores. As outras são líderes tóxicos, que tornam o ambiente da empresa onde trabalham numa neblina ácida que corrói todo o empenho que as pessoas têm.

Quer dizer, azar, azar, têm os colaboradores que estas pessoas lideram porque sofrem todos os dias nas mãos de tiranetes que acham que o medo e a opressão são a melhor forma de fazer com que os outros atinjam os seus objetivos.

Mas não tem que ser assim. É que apesar do bichinho da liderança nascer connosco e crescer connosco, ele pode ser amestrado. Pode ficar mais forte, mais ágil e, acima de tudo, mais eficaz. É para isso que servem as universidades, para ajudar a que cada um de nós desenvolva um bichinho da liderança que, apesar de ser diferente, pode ser melhor do que o que era antes.

Nas universidades podemos ouvir histórias de líderes diferentes de nós. Histórias positivas que nos ajudam a saber como é que podemos ajudar o nosso bichinho da liderança a ficar melhor, e histórias negativas que nos ajudam a saber que partes do nosso bichinho da liderança é que precisamos de melhorar.

Nas universidades também podemos descobrir novos modelos de liderança que nos ajudem não só a sermos melhores líderes, mas também a sermos melhores pessoas.

Eu gosto de acreditar em todas as histórias de redenção que a minha avó me contava quando era pequenino. Gosto de acreditar que os líderes maus são prisioneiros de um bichinho da liderança que é ao mesmo tempo suficientemente feroz e suficientemente convincente para manter o seu dono, ou a sua dona, preso a dinâmicas de liderança ineficazes e até abusivas porque acredita que essa é a melhor maneira de fazer as coisas.

Às vezes basta uma nova história, um novo modelo para que essas pessoas vejam o seu bichinho da liderança tal como ele é: torpe e trapalhão, mas capaz de mudar e de aprender a ser elegante e eficaz.

Alguns dos meus alunos do doutoramento da Europeia estão lá para desenvolver as suas capacidades como líderes porque são mais exigentes. Porque não se contentam com adotar um modelo feito por outras pessoas. Querem ser eles a fazerem o seu modelo. Querem ser eles a definir como querem o seu bichinho da liderança.

Esta é a melhor maneira de crescer como líder. Melhorar sempre, ouvindo-nos a nós próprios, porque já sabemos o que queremos ser.


João Vieira da Cunha João Vieira da Cunha é professor na Universidade Europeia de Lisboa e professor visitante na Universidade de Ashrus, na Dinamarca. É doutorado em Gestão pela Sloan School of Management do MIT e Mestre em Comportamento Organizacional pelo ISPA. A sua investigação procura descobrir como é que as empresas podem tirar partido da desobediência dos gestores e dos colaboradores. Tem publicado nas principais revistas científicas internacionais na área da gestão e colabora regularmente na imprensa. A sua investigação tem ganho vários prémios internacionais de organizações como a Academy of Management e a System Dynamics Society. Os seus clientes de consultadoria e formação de executivos incluem o Banco de Portugal, o Ministério da Saúde, a Novabase e o Barclays Bank.