Liderar no Futuro: Qual o Maior Desafio para os Líderes nos Próximos 20 Anos?

Liderar no Futuro: Qual o Maior Desafio para os Líderes nos Próximos 20 Anos?

  Por ocasião do segundo aniversário do Portal da Liderança (grande projeto e em evolução), foi-me solicitado um artigo sobre a liderança nos últimos 2 anos. Aceitando o desafio de bom grado, resolvi, no entanto, escrever sobre o futuro e adotar um estilo diferente do usado na rúbrica quinzenal “Ponto de Vista” deste mesmo Portal.

Olhando para o futuro, perguntei-me o que poderia ser o maior desafio da liderança nos próximos 20 anos. Qual será o fator que mais desafiará e mais contribuirá para mudar a forma de liderar no futuro? Há muitas respostas potenciais, dependendo da perspetiva que se queira adotar. Procurei olhar para fora, para o mundo onde os líderes têm de operar. 

Cibercidadania?

Na minha perspetiva, o maior desafio para os líderes nos próximos 20 anos é como se irão adaptar ao surgimento e consolidação da cibercidadania, ou seja, à massificação e democratização da conectividade digital e do acesso e da utilização da internet, em todo o mundo, do mais desenvolvido ao menos desenvolvido. Estar conectado, em permanência, para pessoas e coisas, passará a ser a norma para a maior parte da humanidade. Os poucos que não estarão conectados em permanência como usuários estarão pelo menos conectados pontualmente e integrarão sistemas que não são do seu domínio (em bases de dados ou sistemas de serviço ou vigilância).

Qual o Impacto na Liderança Empresarial?
A cibercidadania vai conduzir à construção de novas formas de organização sócioeconómica, empresarial e de governação, novas formas de produzir, de consumir e de viver.

Os líderes empresariais terão de identificar, antecipar, modelar, testar e vencer em novas formas de negócio. Vencerá quem mais rapidamente identificar novas oportunidades e novos riscos nestas mudanças. Como dizia Darwin, os sobreviventes não serão os mais fortes e inteligentes, mas os mais adaptáveis e ágeis.

Os líderes empresariais terão de gerir organizações predominantemente diferentes das de hoje. Com estruturas organizacionais em rede, com hiperinformação, com relações de poder e interdependências bem diferentes, elevada velocidade de serviço e de reação, literacia tecnológica, contextos multiculturais, capacidade de decisão em tempo real, criatividade e inovação, adaptabilidade e flexibilidade, confiança organizacional, entre outras características.

A gestão do talento também será bem diferente. Liderar millenniuns, os colaboradores que já nasceram na era digital, será um desafio diferente de liderar os colaboradores de hoje. No novo contexto organizacional, o talento torna-se no elemento central do novo modelo competitivo em substituição da hierarquia, do planeamento e das regras.

A gestão do conhecimento terá uma economia diferente da que os líderes estão habituados. O conhecimento pode ser partilhado a custos marginais baixos e o seu valor não é gasto/ extinto com a sua aplicação (consumo). Pelo contrário, o seu valor económico e social é aumentado quando é partilhado e utilizado por terceiros.

Qual o Impacto na Liderança Política?
A maior capacidade individual de aceder e manipular informação (consumidores e, simultaneamente produtores), obrigará as estruturas de poder e controlo tradicionais – supranacionais e nacionais – a partilhar poder com redes horizontais de comunidades sociais e económicas. A governação global, por um lado, e a vida em comunidades, por outro, irão reduzir o espaço das atuais estruturas políticas nacionais. Sistemas sociais rígidos serão desafiados por esta nova sociedade em rede, mais fluída e menos tutelada.

A chamada governação eletrónica será o modelo dominante de relacionamento com o Estado, colocando desafios de privacidade e confidencialidade e de liberdade individual, bem como de soberania e de segurança da informação.

Os Mais Carenciados serão Cibercidadãos?
A cibercidadania não será uma realidade limitada a algumas partes do globo? Em situações onde as pessoas vivem em pobreza extrema, o acesso à internet não será um luxo? Não será melhor ter infraestruturas básicas antes da internet? A cibercidadania será uma realidade nos países menos desenvolvidos?

Na minha perspetiva, o impacto da internet e do digital será muito mais revolucionário junto dos carenciados e das economias menos desenvolvidas do que nas economias desenvolvidas. Por esse motivo, vai mesmo acontecer. Os desafios de liderança serão superiores nestas circunstâncias. A internet liberta o carenciado de uma forma revolucionária e chegar-lhes-á  em modelos diferentes daqueles que estamos a pensar, pelo móvel e por sistemas coletivos familiares, sociais ou governamentais.

Durante um workshop sobre as Tecnologias de Informação na Educação que coordenei na Namíbia há 2 anos atrás, um Professor da Universidade do Cabo apresentou os resultados de um estudo feito junto de pais e de crianças na Namíbia que lhes perguntava o que mais valorizavam na escola: introdução de casas de banho de água canalizada ou acesso à internet? Cerca de 70% responderam que preferiam a internet porque isso ia mudar a sua vida, enquanto que casa de banho era algo que eles já não tinham em casa (têm tanques acéticos). Para eles, casa de banho de água canalizada era um luxo que dispensavam e a internet uma necessidade básica.

O Mundo do Avesso
Os líderes de hoje transplantados para daqui a 20 anos veriam um mundo do avesso, onde teriam muita dificuldade em liderar. O mundo de amanhã, a cibercidadania, não acontecerá num dia pré-anunciado. Nem será num só dia, nem será pré-anunciado. Terá lugar todos os dias, uma revolução silenciosa e invisível, deixando vencedores e perdedores pelo caminho. Tomar consciência da cibercidadania e dos seus enormes impactos e adaptar-se às novas oportunidades e riscos será a chave para o sucesso dos líderes nos próximos anos.



CMO-PLCarlos Miguel Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em 8 países, África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, Estados Unidos da América, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.