Liderar no improvável e no risco – 7 lições sobre desemprego, emprego, mudança e sucesso

Liderar no improvável e no risco – 7 lições sobre desemprego, emprego, mudança e sucesso


“Tu lideras uma empresa que trabalha no improvável, mas capaz de mudar o mundo. Num país de doutorices, dar formação às pessoas para assumirem, sem os canudos na área, cargos de IT nas empresas e garantir-lhes colocação é quase surreal. É liderar no improvável, no risco mas, se tendo sucesso, sendo capaz de mudar o mundo daquelas pessoas para melhor e dar recursos humanos determinados, motivados e capazes de fazer face às necessidades das empresas.”

Depois de ler estas palavras da Fátima Rodrigues, Editora do Portal de Liderança, ganhei coragem para, pela primeira vez, escrever sobre a experiência dos últimos 12 meses, em matéria de liderar uma empresa que tem como objetivo reduzir o desemprego em Portugal e, de forma acelerada, criar novos profissionais de tecnologias de informação – a ALPHAPPL (lê-se Alpha People).

Para contextualizar os leitores, partilho alguns números sobre o problema/oportunidade:
  1. Há 15 000 vagas por preencher em Tecnologias de Informação (TI) em Portugal e 900 000 na Europa;
  2. Existem cerca de 100 000 jovens desempregados em Portugal e cerca de 3.6M em toda a Europa, segundo dados do Eurostat.

A ALPHAPPL converte, em aproximadamente 13 semanas, desempregados qualificados em áreas com pouca procura (ex.: Engº Civil / Arquitetura) em programadores de software. Ao contrário da maior parte das entidades de formação, na ALPHAPPL as pessoas pagam uma parte pela formação e um “prémio”, se no final tiverem emprego. É um modelo praticamente único de risco partilhado no setor da formação/educação. Até ao momento, a ALPHAPPL já retirou do desemprego 100 pessoas, empregando-as em mais de 50 empresas de IT em Portugal, Reino Unido e França. A ALPHAPPL tem 13 meses de existência.

A premissa base na abertura da startup baseava-se no facto de as pessoas quererem ter emprego o mais depressa possível. Tal premissa não se tem verificado em vários casos que já nos passaram pelas mãos. Encontramos um público muito desmotivado, descrente, sem energia e sem vontade de mudar a sua situação. Dificilmente aceita recomendações, mesmo quando vindas de pessoas de sucesso comprovado. Em alguns casos, também encontramos pessoas que não precisam de trabalhar, porque ou recebem subsídio de desemprego ou têm alguém que lhes patrocina a vida. Em Portugal, é possível ter uma vida minimalista, mas suficiente para sobreviver. Somos um País onde ficar sem dinheiro não significa propriamente “morrer”.

Colocam-se várias questões ao nível da responsabilidade social:
  1. Como é que se motiva alguém desmotivado / descrente?
  2. Como é que se motiva alguém que, de uma forma ou de outra, não precisa de trabalhar ou acha que não precisa de trabalhar?
  3. Como é que conseguimos “partir o status quo” de um adulto que já teve responsabilidades na vida e que agora tem que recomeçar quase do zero? “Partir” não por gozo pessoal, mas porque para (re)aprender é preciso ter humildade e muita capacidade de trabalho e de escuta ativa. 

Por outro lado:
  1. Como é que convencemos as empresas a contratarem quem teve a coragem de ir pelo caminho da requalificação?
  2. Como é que convencemos as empresas de que alguém com mais de 30 anos ainda é muito válido?
  3. Como é que, paradoxalmente, convencemos as empresas que, apesar da escassez de profissionais nas TI, é preciso melhorarem os seus processos de acolhimento para que um júnior requalificado consiga ingressar rapidamente nos quadros?


Estas, e outras tantas perguntas, constituem o desafio diário de liderança da ALPHAPPL. Por um lado, mudar a mentalidade das pessoas que requalificamos e, por outro, mudar a mentalidade de quem contrata em Portugal que, apesar de ter escassez de talento, ainda coloca várias barreiras à entrada de pessoas que se requalificaram, quando, em países como Inglaterra, onde também atuamos, existe uma muito maior facilidade na contratação de juniores.

Após um ano de atividade, podemos registar algumas lições que talvez expliquem outras tantas variáveis a nível nacional, nomeadamente ao nível dos números do desemprego.

Destaco as seguintes 7 lições:

1. As soft-skills são as hard-skills do século XXI

A excelência não é uma competência, é uma atitude. Está cada vez mais difícil encontrar pessoas com o drive certo para enfrentar as batalhas do mundo do trabalho. É necessário apostar, desde cedo, na formação das soft-skills, ou corremos o risco de ter pessoas com conhecimento mas com muita complacência. Na ALPHAPPL, tentamos trabalhar esta temática com parcerias com ex-militares e com muitos projetos com prazos desafiantes, durante as 13 semanas de preparação intensiva.
 
2.  O conforto é a doença do século XXI

O excesso de segurança e de conforto habituou as pessoas a resistirem a tudo o que é desconfortável, esquecendo que, na maior parte dos casos, não há crescimento sem dor. Torna-se muito difícil alguém aprender algo novo, se não tiver os níveis adequados de resiliência para enfrentar os desafios de sair da zona de conforto. Num mundo onde tudo muda a cada instante, a única certeza é que o desconforto é uma verdade permanente e que aqueles que melhor o enfrentam serão os vencedores. Temos de conseguir mostrar às pessoas que o desconforto é bom e que o oposto nem sempre é melhor. Uma boa analogia é o tempo que passamos sentados: é confortável, mas no médio prazo traz danos para a saúde. É preciso enfrentar o desconforto de praticar desporto.

3. A excelência começa com o aceitar dos nossos erros

Criámos uma sociedade onde todos são premiados e condecorados por tudo e por nada, mas, no entanto, a nossa Economia não é a melhor da Europa. Paradoxal? Trabalhar os níveis de humildade, partindo do princípio que, para aprender, é preciso aceitar que o erro faz parte do processo e que errar é bom, é essencial para a evolução. Na ALPHAPPL, temos enfrentado muitas dificuldades em conseguir transformar o mindset das pessoas. A maior parte considera que tem plena razão em tudo, mas, no entanto, procuraram a nossa ajuda para efetuarem um upgrade na sua vida profissional. Devemos confiar em quem quer o nosso sucesso. Devemos aceitar que errar faz parte de quem quer evoluir e que quem tem a coragem de nos dizer que algo não está bem feito, propondo alternativas, é, no limite, nosso amigo.

4. O marketing pessoal é fundamental para o sucesso

Liderar no improvável é conseguir colocar alguém que não se sabe vender a conseguir impressionar pela positiva numa entrevista de emprego. Todos temos competências, mas poucos sabemos como as promover junto de terceiros. É curioso ver como algumas pessoas não são contratadas apenas por um fator: falta de entusiasmo! Já nos aconteceu por diversas vezes esta situação, não obstante a pessoa possuir competências técnicas acima da média. É, assim, importante que desde cedo as pessoas comecem a compreender que o marketing pessoal é um instrumento fundamental para atingir o sucesso, tanto a nível pessoal como profissional. É preciso quebrar o dogma de que marketing e vendas são coisas “más”, porque visam enganar terceiros. Há muito conhecimento nos Portugueses e pouca capacidade de o mostrar num “pitch” de poucos minutos.

5. O trabalho vem antes do prazer

Quando queremos entrar numa nova área profissional ou num novo emprego, é preciso trabalhar melhor e mais do que o habitual. É preciso aprender coisas novas, correr para apanhar quem vai à frente e mostrar que chegámos para vencer. Como dizia John F. Kennedy, “Those who dare to fail miserably can achieve greatly”, é preciso dar tudo por tudo para conseguirmos agarrar numa nova oportunidade. O que verificamos é que este comportamento só ocorre quando existe uma liderança forte que puxa pelas pessoas. Uma pessoa numa situação de desemprego ou tem alguém que sistematicamente a motiva, a incentiva, lhe coloca pressão para que os resultados apareçam, ou será extremamente difícil que a situação melhore num curto espaço de tempo. É preciso que toda a sociedade trabalhe com espírito de equipa, para que ninguém se acomode a uma situação aparentemente confortável no curto prazo, mas desconfortável no médio prazo. Durante certos períodos da vida, é necessário dar prioridade total e possivelmente exclusiva ao trabalho. Os frutos colhem-se mais tarde e com o especial prazer de terem sido mais do que merecidos.

6. O locus de controlo deve ser interno

Locus de controlo é a expectativa do indivíduo sobre a medida em que os seus estímulos se encontram sob controlo interno (esforço pessoal, competência, etc.), ou externo (as outras pessoas, sorte, oportunidade, azar, etc.). É fundamental compreender que os meus resultados são fruto do que penso e do que faço e não da sorte ou azar ou de qualquer outro fator externo. Como alguém dizia, a sorte dá muito trabalho. É, no entanto, frequente encontrar pessoas que consideram que o seu insucesso está sempre relacionado com fatores externos e nunca com o próprio desempenho perante a adversidade. Esta segunda mentalidade conduz para uma espiral em que, com o passar do tempo, se torna cada vez mais difícil reverter o processo. Assim, é recomendável que as pessoas que procuram uma nova oportunidade, compreendam que o sucesso depende delas próprias e, nesse sentido, devem começar por mudar a forma de pensar. Podemos até criar uma “fórmula”: P > A = R (Pensamentos conduzem a Ações que geram Resultados).

7. A vida é um trabalho de equipa

É preciso escolher a equipa certa, é preciso dar para receber. É preciso trabalhar o Networking como um projeto. Verdades “de la Palice” que tão pouca gente aceita ou pratica e que tanto efeito têm no desenvolvimento pessoal e profissional da nossa vida. Há tantos artigos na Internet sobre esta matéria, acessíveis de forma gratuita e, no entanto, é tão difícil encontrar pessoas que levem a sério esta temática. Mais caricato é ainda encontrar as pessoas que mais ajuda precisam (ex.: desempregados) e que se negam a aceitar estas boas práticas. É preciso ir a eventos para conhecer pessoas e não para ouvir o conteúdo (hoje está tudo na Internet), é fundamental ter um cartão de visita sempre pronto (apesar de estarmos na era do LinkedIn), é necessário que tenhamos temas interessantes para partilhar (devemos ser pessoas interessantes – ninguém gosta de pessoas pouco interessantes!) e, acima de tudo, é preciso ter a coragem para aceitar e praticar todas as competências sociais que tão bem sabemos que são importantes para o nosso sucesso. Sozinhos nada somos!

As empresas [e a sociedade em geral] precisam de pessoas determinadas, que se motivam a elas próprias e capazes de fazer face às necessidades do momento, quer tenham ou não o conhecimento necessário quando são solicitadas. O acesso ao conhecimento é gratuito. Nós somos uma empresa em nós próprios. Estamos na era do “Startup of You”.

Liderar no improvável é aceitar que é preciso ajudar as pessoas a melhorarem todos os aspetos que aqui foram mencionados. É não criticar, mas passar de forma determinada à ação de ajudar as pessoas a evoluir no sentido que as organizações necessitam, para que, no fim, todos ganhemos com isso.




Hugo-Sousa-ALPHAPPLHugo de Sousa  é fundador e diretor-geral da ALPHAPPL. Faz parte do Advisory Board da JAdemy, Code School, em Bucareste, Roménia. A ALPHAPPL é a primeira “Code School” em Portugal. Anteriormente fez parte da equipa de gestão da Gfi em Portugal, tendo como responsabilidade as vendas, gestão de unidade de negócio e a parceria com a Microsoft. Foi também Diretor de Sistemas de Informação do Turismo de Portugal, I.P. e responsável pela fusão de SI/TI do Instituto de Turismo de Portugal, Direção Geral de Turismo, INFTUR e Direção Geral de Jogos. Foi premiado com um Agility Award e nomeado para o prémio CIO Award do portal CIO.com. É licenciado em Informática de Gestão, Pós-Graduado em Sistemas e Tecnologias de Informação e Mestre em Gestão de Sistemas de Informação pelo ISEG. É certificado em Gestão de Projetos pelo PMI, certificado em IT e Microsoft Certified Systems Engineer.