2016: Elevados riscos requerem lideranças exigentes

2016: Elevados riscos requerem lideranças exigentes

Os líderes do bloco económico lusófono devem estar otimistas ou pessimistas quanto a 2016? Os líderes fazem o seu próprio futuro, mas como a capacidade de adaptação às circunstâncias é um dos principais fatores de sucesso, interessa analisar as perspetivas para este ano.

Carlos Oliveira  

Uma primeira análise mostra que o nível de imprevisibilidade é maior que o habitual. Por isso, os líderes e a sociedade dos países que falam português devem preparar-se com exigência para uma montanha russa de eventos positivos e negativos, a emergirem mais rapidamente do que é habitual.


1. Os fatores de risco de 2016
Este ano será a continuidade da imprevisibilidade que dominou 2015, mas com fatores adicionais. Seguem-se alguns dos fatores de risco que terão um grande impacto na sociedade e na economia lusófona em 2016, começando pelos mundiais e terminando nos fatores de cada país.

- O baixo preço do petróleo tem impactos tremendos, globalmente negativos para toda a economia lusófona. Ninguém consegue prever como evoluirá o preço do petróleo em 2016, sendo consensual que, na ausência de eventos imponderáveis, os preços do petróleo se mantenham entre os 30 dólares (nos cenários mais pessimistas) e os 55 dólares (nos cenários mais otimistas) ou seja, a níveis baixos, tendo em conta os últimos dez anos. Considerando o arrefecimento da economia chinesa, os objetivos geopolíticos, o comportamento da OPEP - Organização dos Países Exportadores de Petróleo, o foco mundial na redução nas emissões de carbono e a evolução da tecnologia de extração de gás de xisto (onde o investimento inicial com vista à produção é mais baixo e os ganhos de eficiência mais rápidos) o preço do petróleo tem a tendência para se manter baixo e nunca irá subir tanto como no passado.
O impacto na economia angolana, principalmente, e também na brasileira e na moçambicana será enorme, forçando a políticas fiscais mais rigorosas para evitar grandes défices do Estado, a redução do investimento público e, por arrasto, do privado e consequente pressão sobre o valor da moeda.
O impacto na economia portuguesa e europeia (e por extensão na de Cabo Verde), não será positivo, como muitos observadores dizem, pois a redução do preço do petróleo leva a uma baixa de preços e, consequentemente, a um aumento do consumo (neste momento, potencialmente negativo para a balança de transações) e a baixa inflação, que se pode tornar estrutural e assim reduzir o incentivo ao investimento tão necessário ao crescimento económico e à geração de emprego.

- Os ajustes macroeconómicos mundiais iniciados em 2015 irão também tornar o ano económico mais complicado, nomeadamente: o fim do período de juros zero (a Reserva americana já deu o primeiro passo em 2015); o ajustamento da China a um crescimento mais lento e sustentável, baseado no consumo interno; o ciclo de baixos preços dos bens primários na economia global, com grande impacto nas economias emergentes e, por contágio, na economia mundial.

- A evolução geopolítica no Médio Oriente, no Pacífico e na Ucrânia poderá criar instabilidade económica global. O impasse na Ucrânia permanece, assim como as sanções económicas que causam prejuízo à Rússia, à Europa e à economia mundial. A competição geopolítica e religiosa entre sauditas e iranianos, e a maior ambição geoestratégica da Turquia, podem ter novos desenvolvimentos negativos em 2016, não só na guerra civil síria, mas em toda a região. A vontade recente da China de dominar a região do Pacífico, presentemente dominada pelos EUA, pode criar instabilidade na economia mundial, por arrasto dos efeitos nas economias do Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura, Austrália, China e EUA.

- A evolução do projeto europeu vai afetar grandemente a economia portuguesa: a forma como a Europa irá reagir à crescente ameaça terrorista e ao continuado fluxo de refugiados e ao eventual crescimento de forças políticas xenófobas e populistas; a evolução da moeda única, nomeadamente a concretização da necessária união bancária e o comportamento do BCE - Banco Central Europeu (ambos condicionados pela Alemanha); o resultado do referendo no Reino Unido sobre a sua permanência na União Europeia. O desenrolar destes três eventos pode afetar negativamente o já precário equilíbrio entre solidariedade e responsabilidade que é o cimento da partilha de soberania europeia, que foi fortemente enfraquecido com a crise do euro.

- A evolução da coligação política das esquerdas em Portugal irá condicionar bastante a evolução da economia do país. Vai ser possível conciliar o apoio ao Governo da base parlamentar de esquerda com as exigências europeias e do tratado orçamental? Vai ser possível conciliar “mais Estado” com o equilíbrio das contas públicas e mais consumo com o equilíbrio das contas externas? Esta equação parece estável até perto do final de 2016.


2. Implicações para os líderes empresariais e os líderes políticos 
Em termos gerais, neste cenário complexo e de alto risco, ficar parado não é uma opção. Perante este cenário, os líderes empresariais, os líderes políticos e as sociedades dos diversos países lusófonos poderão adotar o caminho do facilitismo (que traz um falso sentido de sucesso no curto prazo) ou o caminho das inovações sociais e económicas necessárias ao seu bem-estar no médio e longo prazo.
Líderes empresariais. É pois recomendável que os líderes empresariais lusófonos façam uma gestão exigente de risco, procurem a eficiência operacional, apostem em modelos “lean”, giram conservadoramente o cash flow, mantenham uma grande capacidade de resposta a imponderáveis, desenvolvam capacidade de resposta a crises, promovam dinâmicas de confiança e de resiliência nas suas organizações, apostem na inovação e em redes colaborativas para encontrar novas soluções empresariais e sociais.
Líderes políticos. Focando em Portugal, as mazelas da crise financeira que deflagrou em 2011 ainda não estão ultrapassadas e novas ameaças emergem no horizonte. Num cenário de tantos riscos e de ausência de capital interno para investir no crescimento económico e na criação de emprego (devido ao alto endividamento público e privado e à situação da banca) os líderes políticos devem compreender que a promoção das empresas exportadoras e a promoção da confiança e da atratividade relativamente aos investidores externos é crítica para o desenvolvimento do país. 

A globalização, a União Europeia e o euro são realidades incontornáveis para um pequeno país como Portugal. Neste cenário altamente complexo, as lideranças políticas devem pois evitar o discurso simplista que mais facilmente capta votos junto daqueles que se sentem injustiçados ou ameaçados pelas mudanças em curso, mas que dificulta e adia as inovações sociais e económicas necessárias ao desenvolvimento económico competitivo num mundo global e à criação de emprego sustentável. 

No geral, é necessário ser exigente em termos de desempenho individual e coletivo e combater o queixume e promover a confiança, a responsabilização e a mobilização de todos em prol de um futuro descomplexado e ambicioso.

04-01-2016


CMO-PLCarlos Valleré Oliveira é CEO da Leadership Business Consulting, empresa internacional de consultoria de gestão presente em oito países: África do Sul, Angola, Brasil, Cabo Verde, EUA, Espanha, Moçambique e Portugal. Assina quinzenalmente a rubrica "Ponto de Vista" no Portal da Liderança sobre os temas da liderança-gestão, economia-sociedade e inovação-empreendedorismo. Mais informações aqui.