Como se cozinha um ecossistema tecnológico: o Hub Criativo de Lisboa

Como se cozinha um ecossistema tecnológico: o Hub Criativo de Lisboa

O Hub Criativo do Beato visa capitalizar uma tendência que muitas empresas internacionais já estão a descobrir: Portugal está a tornar-se num dos principais destinos para “testar, falhar rápido e tentar novamente”.

Susanna Camp e Jonathan Littman 

A montante do rio a partir da deslumbrante frente ribeirinha de Lisboa um centro tecnológico está a ganhar forma. Tudo aquilo de que precisa um ecossistema moderno de empreendedorismo será encontrado aqui em breve, num antigo complexo militar recuperado: incubadoras, fab labs, co-working e co-living, centros estilizados de investigação e desenvolvimento de inovação aberta, representações das Fortune 500, e criativos. Trata-se do Hub Criativo do Beato – um modelo ousado e promissor de colaboração público-privada.

O Criativo ainda nem bem arrancou – e as empresas de tecnologia, companhias e start-ups têm visitado e contactado os responsáveis para entrar cedo neste novo bairro de 35 mil metros quadrados na muito em voga Lisboa. Há que dar crédito ao presidente da Câmara, Fernando Medina, que há dois anos teve a visão de reavivar o antigo centro industrial do Beato, convidando a Startup Lisboa a apresentar uma proposta que atrairia investimento empresarial internacional, impulsionaria o empreendedorismo, e, em última análise, geraria 3 mil postos de trabalho. E a cidade assinou um contrato de arrendamento de 50 anos para um antigo complexo fabril do Exército Português por 7 milhões de euros após a Startup Lisboa ter elaborado um plano vencedor para uma zona de empreendedorismo livre de carros, com acesso público, com arte urbana, integrada na comunidade, e com respeito pela herança arquitetónica e industrial.

“Somos Lisboa”, diz-nos José Mota Leal, project manager. “Não somos a nova Berlim. Não é o novo Silicon Valley. Tentamos aprender com a experiência de todos, mas não copiar”. Lisboa tem ambições próprias. A cidade ganhou o prémio de Região Empreendedora Europeia em 2015 e continua a ter um crescimento exponencial. A ideia no Beato é inundar a área com inspiração criativa para estimular colaborações entre setores, bem como os investimentos humano e financeiro. “Não queremos criar edifícios de escritórios”, explica José Mota Leal. “Queremos ter uma comunidade de geeks e de artistas no mesmo lugar. Acreditamos que, se se sentarem à mesma mesa e beberem um bom café português, a inovação surgirá.”

Tal como um terço das start-ups que a Startup Lisboa tem incubadas na cidade é do exterior, o objetivo é criar um hub global. “Queremos atrair pessoas de todo o mundo para iniciarem os seus negócios aqui”, declara José Mota Leal, que prevê que muitas das atividades se baseiem em projetos. “Queremos criar uma visão, um espaço que permita que as pessoas venham e testem Lisboa como um possível local de trabalho.” O Criativo visa capitalizar uma tendência que muitas empresas internacionais já estão a descobrir. Apoiado por um ecossistema de empreendedorismo suportado pelo Governo que facilita empréstimos de baixo custo a jovens empreendedores, tem impostos mais baixos e outros incentivos, Portugal está a tornar-se num dos principais destinos para “testar, falhar rápido e tentar novamente”. O baixo custo de vida torna este país de modesto tamanho – abençoado por um clima ameno tipo-Califórnia e regiões distintas entre Norte e Sul – ideal para pilotar protótipos e experimentar novos modelos de negócio para empresas que querem entrar nos mercados europeus de maior dimensão e estrangeiros. 

Fazer pão do pão
Fizemos uma visita ao recinto com José Mota Leal e a sua colega de equipa Sandra Oliveira, a começar pela fábrica de massas com a sua colossal maquinaria que outrora fazia 18 toneladas de esparguete por dia para os militares portugueses. É impressionante ver este espaço de 930 metros quadrados agora intacto (com alguns fios secos com 50 anos pendurados no interior), e imaginar a sua transformação quando a reconhecida Factory Berlin o renovar para o Digital Delivery Hub da Daimler.

Parte do charme de Lisboa é a sua dedicação ao “palimpsesto”. As diretrizes do património cultural são importantes. Os edifícios novos devem conter os traços das sucessivas transformações que se adaptam a novas dinâmicas, promovendo a reintegração de valores passados e criando uma narrativa histórica. À medida que caminhamos com José Mota Leal e Sandra Oliveira podemos ver a oportunidade de os parceiros arquitetónicos do Criativo surpreenderem e encantarem. Passamos por um pátio que dá para a antiga central elétrica, que agora funciona como espaço de eventos do projeto, e de momento acolhe a exposição World Press Photo 2018. Daqui vamos para os antigos dormitórios – lar de freiras no séc. XVIII, e depois de soldados, e agora destinados a ser transformados num espaço de co-living. Descemos por celeiros que vão abrigar estúdios criativos, antes de depararmos com os imensos silos de cereais (que podem vir a transformar-se num boutique hotel), para acabarmos na grande padaria com uma longa fila de fornos e belos azulejos com cenas pastorais e aroma a farinha. 

O tamanho e a variedade dos edifícios são impressionantes, quase tão grandes como um pequeno campus universitário. E há algo que não encontrará em São Francisco ou em Nova Iorque, ou em muitas outras cidades. À medida que a Startup Lisboa recupera o bairro, o plano é envolver os grossistas e empresários da zona através de um projeto de consultoria concebido para ajudar o comércio local a adaptar-se aos novos vizinhos e clientes: o afluxo de empresários e a chegada do próprio hub. 

Antenas empresariais e start-ups
Mantenham-se atentos. A Daimler foi uma das primeiras multinacionais a entrar, e várias outras grandes empresas da lista Fortune 500 e tecnológicas (incluindo algumas das FAANG – Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google/Alphabet) fazem fila. As companhias inovadoras e com visão de futuro terão “antenas” aqui, afirma José Mota Leal, em parte porque, onde há uma abundância de start-ups diferentes, “elas querem sempre estar por perto”. As primeiras fases do projeto serão implementadas nos próximos meses, e o desenvolvimento está previsto demorar dois anos.

O objetivo é que o Hub Criativo evolua para uma colmeia de atividade inovadora, celebrando a nova posição de Lisboa enquanto meca de start-ups. As universidades portuguesas estão a desenvolver jovens técnicos e executivos qualificados o mais rápido que podem no sentido de atender às necessidades do crescente ecossistema empreendedor local. José Mota Leal e a sua equipa na Startup Lisboa estão a criar um novo tipo de destino internacional para atrair e dar acesso a oportunidades internacionais. “Fui visitado no Hub Criativo por um grande número de potenciais investidores que estão de olho em Lisboa para os seus centros de desenvolvimento”, diz José Mota Leal. “E eu pergunto-lhes: por quê Lisboa?. Um deles disse-me: Nos próximos anos, a Europa terá uma grande escassez de pessoal de TI”. 

“Lisboa está na moda agora”, observa José Mota Leal. “Temos o que sempre tivemos: clima bom, boa comida, gente boa, estabilidade, segurança, todas essas características. Mas agora temos mais. Temos talento”.

E, em breve, terão um hub único e criativo onde esse talento se pode juntar e criar. 

  

16-05-2018


Portal da Liderança


Nota: Tradução do artigo de Susanna Camp e Jonathan Littman, originalmente publicado no hub de inovação SmartUp.life, que reúne textos sobre empreendedorismo e inovação, incluindo este sobre Lisboa.