António Mateus: Mandela cometeu erros mas soube redirecionar ações

António Mateus: Mandela cometeu erros mas soube redirecionar ações

O Portal da Liderança esteve com António Mateus, autor do livro Mandela: A construção de um homem, que o acompanhou durante uma década enquanto chefe de delegação da Lusa destacado na África do Sul. Este diz-nos que Mandela, enquanto líder político, "cometeu erros e, quando confrontado com esse facto, soube dar o braço a torcer e redirecionar ações e estratégias".

Portal da Liderança (PL): Enquanto jornalista, teve oportunidade de privar com Nelson Mandela. Como carateriza a experiência?

António Mateus (AM): Acompanhei Nelson Mandela durante uma década, enquanto chefe de delegação da Lusa, destacado na África do Sul. Desde a libertação de Madiba até à sua retirada da vida pública ativa. Foi uma experiência humana e profissional de tal forma intensa, multifacetada e enriquecedora, que talvez só a análise feliz de Peter Gabriel a possa sintetizar: "Se a humanidade tivesse de escolher um só pai essa pessoa seria, certamente, Nelson Mandela".

PL: Que lições de liderança de Nelson Mandela destaca?

AM: A capacidade de ir buscar o melhor a todos e cada um à sua volta. A prática, pelo exemplo, de que a diferença de opinião e de olhar é uma oportunidade de nos acrescentarmos e não uma ameaça. E que é nossa a escolha primeira e final sobre a forma como agarramos a vida e os outros. Se acreditamos, insistimos ou desistimos. E que começamos por nós a mudança que sonhamos para o mundo.


[Nelson Mandela, enquanto líder, tem] a capacidade de ir buscar o melhor a todos e cada um à sua volta.



PL: Como profundo conhecedor da vida dele, quais as situações que pensa terem sido mais marcantes e com as quais terá aprendido mais e definido o seu caráter e forma de estar?

Antonio Mateus5AM: Nelson Mandela, nas suas próprias palavras, está longe de ser um santo, a menos que vejamos um santo como um pecador que continua a tentar.

É um homem que aproveitou o espartilho da prisão e a solidão para se construir no ser humano que todos admiramos hoje em dia, de forma profunda. Em vez de acumular azedume contra os seus carcereiros tentou conhecê-los, estendeu-lhes pontes, tornou-os cúmplices de um mesmo sonho comum.

Percebeu que - mais uma vez nas suas próprias palavras - "ninguém é livre se não libertar o seu carcereiro". E ao fazê-lo damos oportunidade aos outros e a nós próprios de sermos felizes, em vez de perpetuarmos um ciclo de negativismo.

PL: Nos seus anos como destacado da Lusa na África do Sul, como viu a atuação de Nelson Mandela enquanto líder do país?

AM: Exemplar. No visionarismo e na capacidade de aprender com os erros cometidos por líderes que o antecederam, não só no continente africano mas em outros cantos do mundo.


Mandela exerceu o poder político com amor pelos seus concidadãos, preocupado com a herança que deixaria a médio e longo prazos e não com o imediatismo e, muito menos, o mediatismo.



Cometeu erros e quando confrontado com esse facto soube dar o braço a torcer e redirecionar ações e estratégias. Percebeu que as soluções fáceis e imediatas podem saciar temporariamente expetativas populistas mas arrastam quase sempre, a prazo, uma fatura destruidora.

Exerceu a presidência sul-africana com um sentido extraordinário de honorabilidade e um redobrar de responsabilidade na prestação de contas e do exercício do poder com transparência perante os seus concidadãos.

Antonio Mateus2PL: O que o levou a escrever o livro “Mandela – A construção de um homem”? 

AM: A noção de que era muito importante legar a gerações vindouras o testemunho direto daquilo a que assisti de um ser humano deslumbrante. E de que nenhum dos livros existentes a nível mundial mostra como Mandela se transformou profundamente como ser humano. Se reconstruiu como ser humano.

Tentei fazer com que os leitores sentissem como foi estar ao pé dele e assistir, presencialmente, à forma como ele ia contagiando os destinatários da sua atenção ou quem o interpelava.


PL: De entre as várias vezes que privou com Mandela, amigos próximos e familiares, qual a situação ou pormenor que mais o marcou e que não esquece?

Antonio Mateus4AM: Os testemunhos pessoais que recebi do melhor amigo de Nelson Mandela ainda vivo, Ahmed Kathrada, e do negociador-chefe do último governo branco, Roelof Meyer.

Kathrada contou-me muitas histórias de Mandela na Ilha-prisão de Robben, mas a que mais retenho foi o cuidado diário de Madiba de visitar as celas dos companheiros de cárcere, para se assegurar que elas estavam impecavelmente limpas (quando eles saíam) e eles não serem (caso contrário) sujeitos a castigos adicionais.

Segundo o seu testemunho, Madiba lavou muitas vezes os baldes-latrina dos companheiros quando estes não tinham força para o fazer, por doença.

Roelof Meyer contou-me um episódio que me arrepiou; um dia, quando o ANC e o último governo branco "romperam" negociações, ele tinha acabado de chegar a casa quando lhe telefonaram a dizer-lhe que a filha tinha acabado de morrer num desastre de viação. Meyer recorda que o mundo se desmoronou, para ele, naquele instante. E que estava a chorar desesperado quando o telefone tocou. Foi atender.... era Nelson Mandela, soubera do sucedido. 

Madiba pediu-lhe para o ir ver. E recusou uma primeira negativa de Meyer. Explicou-lhe que os dois tinham bem mais em comum do que as divergências políticas e raciais poderiam alimentar; a começar pelo facto de também o filho mais velho dele, Tembekhile, ter morrido quando Mandela se encontrava detido na Ilha-prisão de Robben.

Meyer aceitou recebê-lo.... os dois tornaram-se amigos para a vida. Hoje, o negociador-chefe do último governo branco sul-africano diz guardar Nelson Mandela no coração como... um pai. Com todas as caraterísticas que gostaria de encontrar num pai.


Segundo o testemunho [de Ahmed Kathrada], Madiba lavou muitas vezes os baldes-latrina dos companheiros quando estes não tinham força para o fazer, por doença.




PL: Quais os desafios políticos que se colocam hoje à África Austral?

AM: Além de uma nova ordem económica que cada vez é mais exigível à escala planetária, a África Austral tem o desafio adicional e a oportunidade de finalmente reverter para si o processamento e o aproveitamento dos seus recursos naturais, de uma forma equitativa, ética e ao serviço dos povos da região.

O maior desafio será fazê-lo a nível político de forma despojada, íntegra e ao serviço prioritário dos mais frágeis, à semelhança do que procurou fazer Nelson Mandela, enquanto presidente da África do Sul.


PL: Nelson Mandela é encarado hoje em dia como um exemplo de liderança à escala mundial cujos ensinamentos devem ser perpetuados. Como pensa vir a partilhar a experiência que retirou desse precioso contato prolongado com o líder histórico antiapartheid?

AM: Penso vir a partilhar numa base regular, como orador convidado de grandes eventos. Certamente que gostaria de evoluir para esse tipo de proposta. O mundo carece cada vez mais de líderes capacitados para fazer a diferença através de um conjunto de valores universais e, especialmente, de saberem despertar o melhor em todos à sua volta.

É por isso, aliás, que projeto vir a sistematizar em tese de doutoramento, não só a experiência que acumulei próximo de Mandela, como toda a pesquisa que fiz sobre ele na última década. Nomeadamente através da leitura de todos os livros que sobre ele foram produzidos à escala mundial e de mais de uma dezena de entrevistas de fundo que fiz com amigos próximos dele e antigos responsáveis do último governo branco, que com ele participaram na transformação da África do Sul.


PL: Nesse caso está a referir-se a vir a integrar um núcleo de motivational speakers ou leadership speakers especializados em assuntos africanos ou grandes lideres?

AM: Durante a entrevista que fiz para a RTP com François Piennar - antigo capitão da seleção de rugby sul-africana, campeã mundial em 1995 (cuja história ficou perpetuada no filme "Invictus") - ocorreu-me essa ideia. Ao fim de mais de 30 anos de uma carreira de jornalista, a maioria dos quais dedicados (e no terreno) a África, creio ter acumulado um conjunto de conhecimentos, experiências e contatos preciosos, particularmente quando os empresários e investidores portugueses procuram naquele continente uma janela de futuro. François Piennar dedica hoje grande parte do seu tempo profissional a intervenções em seminários, workshops e congressos de liderança, baseados também na experiência única que teve junto de Mandela e, com ele, de motivação de uma equipa que se tornaria campeã mundial. Creio que esse poderia ser portanto, também para mim, um passo natural, se a oportunidade se proporcionar.



Fotos (por ordem de visualização): António Mateus junto à cela de Nelson Mandela na Ilha-prisão de Robben; entrevista com François Piennar (antigo capitão dos Springboks que protagonizou com Mandela a história perpetuada no filme "Invictus"); entrevista com Desmond Tutu, prémio Nobel da paz 1984; entrevista com Ahmed Kathrada, o melhor amigo de Nelson Mandela ainda vivo. Todas as fotos foram cedidas por António Mateus.



Antonio Mateus3António Mateus é licenciado pela UTL e jornalista profissional desde 1983, contando com três livros publicados. Chefiou delegações da agência Lusa em Maputo (de 1986 a 1990) e Joanesburgo e acompanhou no terreno, durante 16 anos, os esforços de paz para Angola e Moçambique, a transformação política de toda a África Austral e a refundação da OUA em União Africana. Após a libertação de Nelson Mandela, em 1990, foi destacado para a África do Sul, onde permaneceu doze anos. Entrevistou inúmeras personalidades mundiais, como Nelson Mandela, Desmond Tutu, Chester Croker, Joaquim Chissano ou Frederik de Klerk. Foi o diretor-fundador da revista Focus, editor de Política Internacional da RTP, sendo atualmente coordenador de informação diária da RTP. Foi o primeiro conselheiro de informação da CPLP. É autor dos livros Homens Vestidos de Peles Diferentes, Selva Urbana e Mandela - A Construção de um Homem, e coautor de três outros livros coletivos.