Nelson Mandela: No perigo, um bom líder toma a linha da frente

Nelson Mandela: No perigo, um bom líder toma a linha da frente


Oprah Winfrey, empresária e apresentadora televisiva Americana, entrevistou Nelson Mandela por várias vezes ao longo da sua carreira. Ao longo destas conversas, Mandela foi-se-lhe revelando e partilhando lições aprendidas.


Eis algumas destas “confissões” do Prémio Nobel da Paz Sul-Africano.

Mandela-Oprah-EntrevistaOprah: Da última vez que falámos, disse que se não tivesse estado na prisão, não teria vencido na mais difícil missão da vida – mudar-se a si mesmo. Como é que 27 anos de reflexão o tornaram num homem diferente?

Nelson Mandela: Antes de ter ido para a prisão, era ativo em termos políticos enquanto membro de uma empresa líder sul-africana – e estava normalmente ocupado das 7 até à meia-noite. Nunca tive tempo para me sentar e pensar. Enquanto trabalhava, ficava muito cansado física e mentalmente e não era capaz de levar ao máximo a minha capacidade intelectual. Mas na solitária de uma prisão tive tempo para pensar. Tive uma visão clara do meu passado e presente e descobri que o meu passado tinha deixado muito a desejar, quer relativamente às minhas relações com outros seres humanos quer no desenvolvimento do valor pessoal.

Oprah: Tornou-se ainda mais disciplinado na prisão do que já era, estudando regularmente e encorajando os seus colegas a estudar. Porquê?

Nelson Mandela: Nenhum país pode realmente desenvolver-se a menos que os seus cidadãos sejam educados. Qualquer nação que demonstra progresso é liderada por pessoas que tiveram o privilégio de terem estudado. Sabia que poderíamos melhorar as nossas vidas mesmo estando presos. Poderíamos sair homens diferentes, e mesmo com duas graduações. Educarmo-nos a nós mesmos era o caminho para nos darmos a nós mesmos a arma mais poderosa para a liberdade.

Oprah: Saiu sendo um homem sábio?

Nelson Mandela: Tudo o que posso dizer é que era menos tolo do que quando para lá entrei. Eu formei-me a mim mesmo através da leitura de livros, especialmente clássicos como “As vinhas da ira”.

Oprah: Esse é um dos meus livros preferidos. 

Nelson Mandela: Quando fechei esse livro era um homem diferente. Este enriqueceu a minha capacidade de pensar e me disciplinar, bem como os meus relacionamentos. Eu saí da prisão mais informado do que quando entrei. E quanto mais informado você estiver, menos arrogante e agressivo será.

Mandela-OprahOprah: Desdenha da arrogância?

Nelson Mandela: Claro. Quando era jovem eu era arrogante – a prisão ajudou-me a livrar-me disso. Não me trouxe nada que não fossem inimigos. 

Oprah: Que outras caraterísticas abomina?

Nelson Mandela: A ignorância – e a incapacidade de uma pessoa em ver o que nos une em vez de apenas aquelas coisas que nos dividem. Um bom líder consegue envolver-se numa discussão franca e profunda, sabendo que no fim ele e a outra parte estarão mais próximos, e daí emerge a força. Você não pensa assim quando é arrogante, superficial e desinformado. 

Oprah: Apenas quer que o seu ponto de vista prevaleça. Mas um bom líder tem sempre a intenção de criar a paz.

Nelson Mandela: Isso é verdade. Quando há perigo, um bom líder toma a linha da frente; mas quando há celebração, um bom líder fica na parte de trás da sala.

Oprah: Que caraterísticas mais admira naqueles que respeita?

Nelson Mandela: Às vezes um líder tem de criticar aqueles com quem trabalha – isso não pode ser evitado. Gosto de um líder que consiga, enquanto aponta uma falha, trazer ao de cima as coisas boas que essa pessoa tem feito. Caso o faça, a pessoa em causa verá que tem uma imagem completa dele. Não há ninguém mais perigoso do que aquele que foi humilhado, mesmo quando o humilha com razão.

Oprah: Enquanto estou aqui sentada a conversar consigo, acho difícil de imaginar que é o homem que é depois de ter passado todo aquele tempo numa cela tão pequena. Quando voltou anos depois àquela cela, conseguiu acreditar que era tão pequenina?

Nelson Mandela: Na altura estava habituado e conseguia lá fazer todo o tipo de coisas, como exercício todas as manhãs e noites. Mas agora, que estou de fora, não sei como é que ali sobrevivi – o espaço era tão pequeno.

Oprah: Durante o dia, quando era obrigado a fazer trabalho pesado nas pedreiras de calcário, também tinha a oportunidade para falar com os seus colegas. Mas quando visitei a prisão disseram-me que às 16h de cada dia eram fechadas as portas e não estava autorizado a falar.

Nelson Mandela: Isso é verdade, mas nós desafiávamos essa regra. Os policias que estavam acima dos guardas tratavam-nos como vermes, mas como nós os tratávamos com respeito estes ajudavam-nos. Uma vez fechadas as celas e os polícias tinham saído, os guardas deixavam-nos fazer o que quiséssemos exceto abrir as portas, uma vez que eles não tinham as chaves. Eles deixavam-nos falar com as celas do outro lado. Isto era o resultado da forma como tratávamos os guardas, estes tendiam a tornar-se boas pessoas.

Oprah: Acredita que as pessoas no fundo são boas?

Nelson Mandela: Não há qualquer dúvida, assim seja capaz de despertar a bondade inerente a todo o ser humano. Aqueles de nós que lutaram contra o apartheid mudaram muitas pessoas que nos odiavam apenas porque descobriram que as respeitávamos. 

Oprah: Como é que pode respeitar pessoas que o oprimem?

Nelson Mandela: Tem de perceber que as pessoas individualmente viam-se apanhadas pela polícia dos seus países. Na prisão, por exemplo, um guarda ou policia não é promovido caso não siga a politica governamental – mesmo que ele em si mesmo não acredite nessa mesma politica.

Oprah: Então mudou alguém que apenas seguia certa política, uma vez que essa pessoa em si mesma não era a dita politica.

Nelson Mandela: Absolutamente. Quando fui para a prisão era um advogado experiente. Quando os guardas recebiam cartas de demanda ou de intimação, estes não tinham recursos para contratarem um advogado que os ajudasse. Eu ajudá-lo-ia a resolver os seus casos, e assim estes ficavam ligados a mim e aos outros prisioneiros.

Oprah: Na sua autobiografia diz que percebeu que poderia vencer o seu oponente sem o desonrar. Como é que aprendeu isso?

Nelson Mandela: Os meus colegas e eu não queríamos falar de modo algum com os governantes do apartheid, mas alguns de nós faziam o tipo de trabalho que nos levava ao contato com os nossos opressores. Por exemplo, quando os negros foram forçados a deixar Joanesburgo e a voltar para as suas terras-natal, um homem vinha ter comigo e dizia-me: “Ajude-me. Perdi o meu emprego. Tenho mulher e filhos na escola e estou intimado a deixar a minha casa.” Enquanto advogado, iria ter com os líderes da autoridade e dizer, “Olhe, estou a dirigir-me a si enquanto ser humano e este é o meu problema. Tenho de confiar a si.” Invariavelmente a pessoa permitia que o homem procurasse emprego. Assim descobri, mesmo antes de ir para a prisão, que o apartheid não era gerido por pessoas rígidas na sua abordagem. Alguns deles não acreditavam no apartheid.

Se se sentar e falar com uma pessoa, é fácil convencê-la de que o apartheid nunca poderá salvar um país e que irá levar à perda de pessoas inocentes – incluindo as suas próprias gentes. Conseguimos assim mudar os firmes líderes do apartheid em pessoas que conseguiriam trabalhar connosco ao explorarmos as suas boas qualidades.

Oprah: Escreveu que quando era miúdo todas as pessoas da terra traziam os seus problemas ao governador, que ouvia cada uma delas antes de dar a sua resposta. 

Nelson Mandela: Esse princípio influenciou-me durante toda a minha vida. Aprendia a ter a paciência para ouvir quando as pessoas expunham os seus pontos de vista, mesmo quando pensava que estavam erradas. Não poderá chegar a uma decisão justa numa disputa a menos que tenha ouvido os dois lados, feito perguntas e visto as provas colocadas diante de si. Se não permitir às pessoas que contribuam, que mostrem o seu ponto de vista ou que critiquem o que foi colocado diante delas, estas nunca poderão vir a gostar de si. E você nunca conseguirá criar instrumentos de liderança coletiva.

Mandela-Oprah2Oprah: O que é que sabe com toda a certeza?

Nelson Mandela: Sei que a minha esposa me apoiará sempre. E sei que, por esse mundo, existem homens bons e mulheres preocupadas com os grandes desafios que a sociedade de hoje enfrenta – a pobreza, a iliteracia e a doença.

Oprah: Tem medo da morte?

Nelson Mandela: Não. O Shakespeare colocou a questão muito bem: “Os cobardes morrem muitas vezes antes das suas mortes; os corajosos nunca provam a morte mais que uma vez. De tudo o que ouvi até hoje, parece-me a coisa mais estranha para um homem temer; a morte, um fim necessário, virá quando vier.” Quando acredita que desaparecerá sobre uma nuvem de glória, o seu nome vive para além da campa – e essa é a minha maneria de o ver.

 Fonte: Oprah.com

 


Mandela-Oprah1Oprah Gail Winfrey é apresentadora de televisão e empresária americana, vencedora de múltiplos prémios Emmy pelo seu programa The Oprah Winfrey Show, o talk-show com maior audiência da história da televisão americana. Influente crítica de livros e atriz indicada a um Óscar pelo filme A cor púrpura, é editora da revista The Oprah Magazine. De acordo com a revista Forbes, Oprah foi eleita a mulher mais rica do ramo de entretenimento no mundo durante o século XX, uma das maiores filantropas de todos os tempos e a primeira mulher negra a ser incluída na lista de bilionários, em 2003.Em 2010, era a única mulher a permanecer no topo da lista por quatro anos. Oprah dedica-se à sua própria rede, OWN (The Oprah Winfrey Network) e a outros projetos pessoais. Oprah é também Psicóloga e foi a apresentadora mais bem paga da história da televisão americana.