Carlos Oliveira: Um encontro marcante com Nelson Mandela

Carlos Oliveira: Um encontro marcante com Nelson Mandela

Em final de 1993 tive a oportunidade de dialogar com Nelson Mandela sobre a inclusão de portugueses residentes na África do Sul nas listas do ANC, antes das primeiras eleições livres de Abril de 1994.

Durante a conversa senti que Nelson Mandela tinha uma grande força interior, uma grande serenidade, valores morais muitos bem hierarquizados, uma postura sábia e de longo prazo, respeito pelos seus pares e companheiros mas com abertura e espírito de diálogo perante os outros.

A história, agora contada pela primeira vez, diz-se em poucas linhas.

Uma Ingenuidade Contrária à História e aos Interesses de Portugal

Na altura, estava como deputado no parlamento português, eleito pelo círculo Fora da Europa, que incluía os portugueses residentes na África do Sul, quando ouvi falar da criação de um partido político de índole portuguesa para concorrer às primeiras eleições livres na África do Sul, o LUSAP. A criação deste partido era um verdadeiro disparate, uma vez que a África do Sul estava a evoluir de um modelo de sociedade baseado nas diferenças raciais, étnicas e culturais para um novo modelo de sociedade, integrada, onde todas as pessoas eram tratadas de forma igual, perante a lei, mas também socialmente. Este partido era também um grande perigo para a comunidade portuguesa, porque a poderia projetar como racista e contrária às mudanças em curso e, por extensão, um perigo também para os interesses de Portugal junto da nova África do Sul.

Adicionalmente, numa primeira fase, este partido foi associado a mim por algumas pessoas em Portugal, porque eu era originário da África do Sul e o presidente deste partido tinha sido recentemente presidente (ou ainda era, não me recordo bem) de uma organização que eu tinha iniciado 5 anos antes, a AJEPP – Associação de Jovens Empresários e Profissionais Portugueses na África do Sul. Esta associação tinha sido criada precisamente para obter o efeito contrário ao deste partido, ou seja, para fazer pontes com nova África do Sul, isto é, com os futuros líderes de uma África do Sul livre do apartheid. Nesse sentido, através da AJEPP, tinha ainda no tempo do apartheid feito contactos esporádicos com o ANC, o DP e o PAC. Inclusivamente, organizei uma visita de deputados portugueses ao Soweto “libertado”, i.e. não controlado pelo exército sul-africano, mas sim pelos jovens radicais do PAC – Pan African Congress.

Tinha pois de fazer todos os esforços para tentar que os promotores (aparentes) deste partido recuassem nos seus propósitos. Aliás, tinha sido chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros Portugueses para esclarecer o meu papel e dar a minha leitura da situação. Falando com o presidente do partido, senti que havia forças empresariais e ocultas (porque nunca desvendadas) por trás da ideia, ou pelo menos a financiarem fortemente o partido. O presidente estava convencido, ingenuamente, creio, que iria conseguir um lugar no novo parlamento sul-africano e que isso iria mostrar uma comunidade portuguesa proactiva e envolvida positivamente na nova África do Sul. Eu achava que nem sequer os portugueses iriam votar nesse partido e que, se alguma vez fosse eleito, as suas intervenções iriam sempre ter uma leitura negativa e ser mal recebidas. Consegui demover algumas pessoas que conhecia de se associarem ao partido, mas não consegui demover o presidente.

Um lugar português nas listas do ANC
Em último esforço, pensei em negociar um lugar para o presidente deste partido, ou para a comunidade portuguesa, num outro partido, que na minha perspetiva só poderiam ser o ANC, partido nacionalista que iria vencer as eleições ou o DP - Democratic Party, partido contrário ao apartheid, mas mais moderado que o ANC. 

A reunião com o Presidente do DP, Tony Leon, aconteceu em primeiro lugar por facilidade de agenda. Correu bem, mas o lugar disponibilizado para uma pessoa portuguesa era muito no fim da lista, sem qualquer hipótese de ser eleito. Nesse cenário, o melhor para Portugal e para a comunidade portuguesa seria ter um português nas listas do ANC, futuro partido do poder. Daí a conversa com Nelson Mandela ser fundamental.

A conversa com Mandela
A oportunidade para conversar sobre este assunto com Nelson Mandela, surgiu num Jantar/Encontro de Nelson Mandela com a comunidade portuguesa que foi organizado por jovens portugueses na África do Sul com ligações ao ANC e que eu tinha associado ao PSD local, essencialmente, mas também com o envolvimento do Embaixador português na África do Sul e meu. O motivo para o convite a Nelson Mandela era a entrega de uma Medalha do Parlamento Português a Nelson Mandela em homenagem à sua luta de oposição ao Apartheid. Para este feito, apresentei a ideia e solicitei autorização ao Presidente da Assembleia da República, na altura o Dr. Barbosa de Melo, e ignorei o meu partido, cujas elementos das relações externas e negócios estrangeiros estavam mais inclinados a apoiar o partido Inkatha, de etnia Zulu, na altura com perigosos tiques de divisão da África do Sul.

Durante o jantar, após a homenagem e entrega da medalha, abordei Nelson Mandela sobre o interesse em ter uma pessoa da comunidade portuguesa num lugar elegível nas listas do ANC. Tanto mais que no referendo feito uns anos antes à população branca sobre a decisão de mudar ou não o regime, as zonas residenciais onde habitavam predominantemente os portugueses, tinham votado em cerca de 80% no sim, mudança.

Por direitos de privacidade não posso contar em “verbantim“ o teor da conversa, mas a proposta foi negada porque Nelson Mandela considerava que não poderia deixar para trás, por simples interesse eleitoral ou de realpolitik, os seus companheiros de luta. O lugar elegível de um português iria sempre impedir alguém que era mais merecedor em termos da luta anterior duramente empreendida. Aliás, havia já pessoas de origem portuguesas no ANC, mas a decisão de inclusão iria seguir outros critérios.

A forma como esta posição foi transmitida foi de uma grande elegância, sobriedade, respeito e consideração. Houve a preocupação por explicar a razão da decisão e de mostrar consideração, tanto mais que o “não” nem sequer foi sentido como tal, mas como um ensinamento. Aliás, Mandela estava a ser coerente com tudo o que defendeu e com o novo modelo de sociedade. Eu estava errado, pois estava com um objetivo instrumental e de curto prazo. Pressionado pela missão de evitar o surgimento do LUSAP e a sua ida às urnas, sem o saber, eu estava a seguir a mesma lógica que queria combater.



Nota: Com grande orgulho, fui Observador Oficial por parte da União Europeia das primeiras eleições livres na África do Sul que decorreram de 26 a 29 de Abril de 1994. O LUSAP foi o partido com a menor votação dos 19 partidos que concorreram, com 3.293 votos num total de 19,533, 498. Nenhum dos partidos de índole sectária conseguiu eleger um deputado sequer, à exceção do Inkatha.

 

Carlos OliveiraCarlos Oliveira é presidente do conselho de administração e fundador da Leadership Business Consulting. Com mais de 15 anos de trabalho em consultoria de gestão e de alta direção, passou anteriormente pelasmultinacionais Andersen Consulting (hoje Accenture) e DHV Consultants. Coordenador da Sociedade da Informação e Governação Eletrónica na UMIC, Presidência de Conselho de Ministros, durante dois anos, onde montou a UMIC, definiu os planos de ação nacionais para a Sociedade da Informação e governação eletrónica e do Programa Nacional das Compras Eletrónicas. Exerceu em 1991 funções de deputado à Assembleia da República pelo círculo eleitoral Fora da Europa e Membro das Comissões Parlamentares de Economia, Finanças e Plano Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades Portuguesas. É vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Sul Africana (CCILSA).