Aung San Suu Kyi, a sexagenária heroína birmanesa e Nobel da Paz: A missão e o missionário

Aung San Suu Kyi, a sexagenária heroína birmanesa e Nobel da Paz: A missão e o missionário

De aparência frágil, pequena estatura, sexagenária com aparência jovem – assim se nos afigura The Lady, a forma de tratamento carinhosa, respeitosa e deferente que lhe concedem os concidadãos.

Aung-San-Suu-Kyi-BurmaAung San Suu Kyi, heroína birmanesa, opositora corajosa da ditadura militar e lutadora pela democratização do seu país, galardoada com o Nobel da Paz (1991), é atual deputada num quadro de desanuviamento político interno que se espera gere ainda melhores frutos e a catapulte para a presidência do país. No passado dia 22 de Outubro, recebeu, pelas próprias mãos, no Parlamento Europeu, o prémio Sakharov – com 23 anos de atraso, devido à prisão domiciliária a que a junta militar a submeteu durante década e meia. 

O fechamento a que a Birmânia (Myanmar, na terminologia do regime) foi submetida com ferocidade, e a prisão domiciliária a que Suu Kyi foi sujeita, explicam porque a Lady é um ícone relativamente ausente da espuma mediática em Portugal. Mas a sua ação, repleta de sofrimento para si própria e a sua família, é um hino à coragem e ombreia com as virtudes de figuras como Mandela. A grande diferença perante Mandela é que Suu Kyi não saiu (ainda?!) vitoriosa na conquista do seu ideal. Mas o seu “efeito borboleta” tem gerado cascatas de bons resultados, no plano político-moral, em várias latitudes. Acresce que este insucesso relativo, mais do que revelar fraqueza, significa porventura o caráter extremamente agreste do contexto em que tem exercido a sua missão. 

Não é possível vaticinar se Suu Kyi acabará por conquistar a presidência da Birmânia, algo que parece apenas depender da vontade do regime em criar condições para eleições verdadeiramente livres. Mas é possível extrair, da sua ação corajosa, uma importante lição: por vezes, a “missão” é mais forte do que o “missionário”. Toda a vida de Suu Kyi parecer ser atravessada por um sentido de missão, em prol do seu povo. O desígnio transcendeu-a e tornou-se em algo mais forte do que ela própria. As expetativas que sobre ela foram depositadas pelos birmaneses, em 1988, para que tomasse posição pública em prol das liberdades e da democracia, foram inicialmente recebidas com algum ceticismo. As dúvidas assaltaram-na, porventura por intuir que, uma vez iniciada, a caminhada não poderia ser interrompida, com todos os custos familiares associados. Mas, na “hora da verdade”, perante as malfeitorias do regime, tomou posição firme. 

Muitos líderes, mesmo que materialmente bem-sucedidos, sentem-se emocional e espiritualmente “extraviados”, paradoxalmente repletos de um grande vazio interior. O que fazem não confere significado nem sentido às suas vidas. Diferentemente, outros líderes são vitalizados por um sentido de missão que os transcende, que não se baseia predominantemente no sucesso pessoal, mas está antes focalizado no benefício da comunidade, da sociedade, ou mesmo da família.  

Suu Kyi é um ser humano como todos nós. Tem defeitos e cometeu diversos erros. Mas a sua vida é um testemunho revelador de que, mesmo os líderes maiores que a vida são seres humanos que também precisam de gerir as suas vidas “normais”. Agora que Mandala partiu, que o seu exemplo e o de Suu Kyi nos ofereçam a inspiração para persistirmos perante as adversidades, em prol de impactos positivos. Com amor, humor, coragem, resiliência, humildade e sentido de missão.

 


Armenio RegoArménio Rego é doutorado e agregado em Gestão, lecionando na Universidade de Aveiro. É autor e coautor de mais de três dezenas de livros e tem desenvolvido projetos de consultadoria em liderança e gestão de pessoas e realizado dezenas de conferências, seminários, wokshops e eventos de formação de executivos. Foi agraciado com diversos prémios, em Portugal e no estrangeiro.