8 Lições de liderança do Papa Francisco, o jesuíta argentino

8 Lições de liderança do Papa Francisco, o jesuíta argentino

Jorge Mário Bergoglio, o Papa Francisco, líder da Igreja Católica há mais de um ano, jesuíta argentino, tem-se destacado pela sua humildade, disponibilidade e capacidade para gerir a mudança numa organização milenar, onde qualquer alteração é capaz de gerar uma onda de reações a nível mundial, interna e externamente. 

Papa-FranciscoBergoglio mostra-se frontal, atento à gestão e à economia. Vê as pessoas na sua vida familiar, mas também profissional e neste mundo global. Como disse em junho passado, "Aquilo que domina são as dinâmicas de uma economia e de finanças carentes de ética: assim, homens e mulheres são sacrificados aos ídolos do lucro e do consumo, é a cultura do descartável."

A um líder carismático como o polaco Karol Wojtyla, o Papa João Paulo II, amado pelos católicos e sempre disposto a dar a cara pela missão, sucedeu o erudito Professor alemão Joseph Ratzinger,  o Papa Bento XVI, que se foi mantendo na sombra, sem que o vissem tomar o pulso à comunidade e aos desafios que se colocavam.

Com a sua resignação, é nomeado o argentino Jorge Mario Bergoglio que, apesar de contar com alguma idade e problemas de saúde, veio trazer uma nova liderança carismática e assumir crenças e convicções por vezes já consideradas quase esquecidas, mas muito necessárias e basilares na comunidade que lidera.

Refiro-me, por exemplo, ao voto de pobreza, comum em quase todas as ordens religiosas e um dos princípios veiculados por Cristo, que todos apregoavam, mas poucos praticavam declaradamente e davam o exemplo. Como referiu em julho passado, "Os padres e as freiras têm de ser coerentes com a pobreza. Quando vemos que o primeiro interesse de uma instituição paroquial ou educativa é o dinheiro, isto é uma grande incoerência." Muitos são os casos em que Bergoglio fez das ações muito mais do que palavras para os seus seguidores, tendo começado logo no momento do anúncio da sua liderança.

Ray Hennesey, diretor editorial do Entrepreneur, refere-se ao período em que Bergoglio assumiu a liderança da Igreja Católica, como marcado pela “humildade, tomada de riscos e um profundo questionar do papel da Igreja Católica no mundo” e muito “popular entre os católicos, assim como entre os membros das outras igrejas”.

Muitas são as atitudes e lições de liderança que poderemos retirar do pontificado do Papa Francisco e que devem estar presentem nas boas práticas de qualquer líder empresarial ou político, na verdadeira aceção da palavra.

8 Lições de liderança de Jorge Mario Bergoglio:

1. Dá o exemplo.

"Se uma pessoa é homossexual e procura Deus, quem sou eu para julgá-la?" (29-07-2013)

Papa-Francisco-renaultBergoglio, sendo jesuíta, ordem cujo voto de pobreza tem um valor acrescido, tem uma visão da Igreja Católica muito focada na austeridade e na sensatez dos gastos, procurando centrar o corpo religioso na ajuda e provisão aos pobres. Várias são as situações que o demonstram e em que deu o exemplo. Começou o seu pontificado a não querer que os seus compatriotas viessem às cerimónias da sua investidura no Vaticano, mas dessem o dinheiro que iriam gastar aos pobres, a recusar mudar-se para o apartamento papal e a conduzir ele mesmo um Renault 4 de 1984.

Quando o líder máximo age de acordo com o que pede aos seus colaboradores, torna-se muito difícil que estes não lhe correspondam e sigam as suas orientações, levando a um maior sentimento de equipa e a alcançar mais rapidamente os objetivos traçados para o negócio que sentem também como deles.

2. Conhece o valor de implementar a mudança.

"A Cúria tem um defeito: está centrada no Vaticano. Vê e ocupa-se dos interesses do Vaticano e esquece o mundo que o rodeia. Não partilho desta visão e farei tudo para a mudar." (01-10-2013)

Pelo Vaticano têm passado vários casos de corrupção, abuso de menores e membros da cúria que detinham mais poder que o Papa. Quem não conhece nomes como o do Cardeal Angelo Sodano, que foi durante dezasseis anos o Cardeal Secretário de Estado, abarcando dois pontificados, o do Papa João Paulo II e o do Papa Bento XVI.

Com a perda de rigor e a excessiva burocracia da Igreja enquanto organização, era fundamental proceder a uma reforma. Como refere Ray Hennesey, “o papa Francisco reuniu um grupo de conselheiros de todo o mundo para proceder à reforma da Cúria. Para tal, retirou poderes ao Secretariado de Estado e dividiu as responsabilidades entre os cardeais. Também recrutou diversos gestores sem qualquer relação com Roma.”

Todos os líderes empresariais sabem quão difícil é implementar a mudança da organização quando estão a começar a desempenhar o cargo. Trata-se de um processo sempre difícil mas não impossível, que exige visão, talento e persuasão. Como diz Hennesey, “Se uma organização com mais de 2000 anos o consegue, qualquer outra também o pode fazer”.

3. É claro e direto na sua comunicação.

"A fé não serve para decorar a vida como se fosse um bolo com nata." (18-08-2013)

"O [sem-abrigo] que morre não é notícia, mas se as bolsas caem 10 pontos é uma tragédia. Assim, as pessoas são descartadas. Nós, as pessoas, somos descartadas, como se fôssemos desperdício." (05-06-2013)

A comunicação, para ser eficaz e servir os seus princípios, tem de ser clara e direta, para que não restem dúvidas de que aquele a quem se dirige, percebe a mensagem.

Com o Papa Francisco, não encontramos uma linguagem formal ou corporativa. Ele diz o que pensa sem rodeios ou contenção. Não quer dizer que seja sempre assim, dependendo das situações, mas quando o assunto remete diretamente às pessoas fragilizadas, como quando fala sobre a homossexualidade, as mulheres ou o papel da Igreja no mundo, Bergoglio diz o que pensa e todos compreendem a sua mensagem, dos mais letrados aos iletrados.

Numa organização, há também que adaptar o discurso aos envolvidos. Se está a comunicar para toda a organização, do mais pequeno ao maior, convém que todos o compreendam e sintam a mensagem como deles.

4. Toma rapidamente decisões difíceis.

"Mas tivemos vergonha? Tantos escândalos [na Igreja] que não quero mencionar individualmente, mas que todos sabemos quais são... Escândalos que alguns tiveram de pagar caro. E isso está bem! Deve ser assim... a vergonha da Igreja." (16-01-2014)

Como refere Hennesey, “o Banco do Vaticano tem sido conhecido como corrupto. No Verão passado, o Monsenhor Nunzio Scarano foi preso por ter ajudado amigos a lavarem dinheiro através do banco”. O Papa Francisco, ao tomar conhecimento, agiu como é esperado de qualquer grande líder: de imediato, tendo mudado o gestor do banco, dispensado alguns colaboradores-chave e criado uma comissão para analisar a organização.

Na sua reforma da Cúrio, o Papa Francisco criou um novo departamento a que chamou Secretariado para a Economia, com o fim de tornar transparentes as finanças da Igreja.

O mesmo é esperado dos líderes empresariais que, ao terem conhecimento dos problemas, não os ignorem ou finjam deles não ter conhecimento, mas que os enfrentem e solucionem rapidamente, transmitindo seriedade, segurança, ética e firmeza a toda a organização.

5. Ouve e aceita diferentes pontos de vista.

"Amemos os que nos são hostis, abençoemos os que dizem mal de nós, saudemos com um sorriso os que provavelmente não o merecem, não aspiremos a fazer-nos valer, mas oponhamos a doçura à tirania, esqueçamos as humilhações sofridas." (23-02-2014)

Papa-Francisco-lava-pesO Papa Francisco não afasta as pessoas, pelo contrário, todos acolhe e a todos deseja ouvir, mesmo que não partilhem da sua visão ou fé. Por exemplo, na cerimónia do lava pés (tradição de Páscoa) do ano passado, em vez de seminaristas selecionados, como era habitual, vimo-lo na prisão a lavar os pés a reclusos,incluindo mulheres e muçulmanos. É habitual responder pessoalmente a quem lhe escreve e telefonar a quem tem alguma coisa a comunicar, do mais pequeno ao maior, mesmo que não sejam católicos.

O Papa Francisco está disponível para a sua comunidade e para todos os que queiram falar com ele. Não é elitista nem egocêntrico, mas inclusivo e focado nos outros.

6. Reconhece as suas fragilidades.

"Eu não queria ser papa." (07-06-2013)

 “O meu modo autoritário e rápido de tomar decisões levou-me a ter sérios problemas e a ser acusado de ser ultraconservador. Vivi um tempo de grande crise interior quando estava em Córdoba. Foi o meu modo autoritário de tomar decisões que criou problemas.” (19-08-2013)

Quem é Jorge Mario Bergoglio? “Não sei qual possa ser a resposta mais correta... Sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não se trata de um modo de falar ou de um género literário. Sou um pecador. (…) Sou um indisciplinado nato”. (19-08-2013)

Segundo a religião católica, todos são pecadores e o Papa, sendo homem, não é exceção. Mas admiti-lo desta forma é inédito na boca de um Sumo Pontífice e, no mínimo, uma prova de grande humildade, tendo em conta o cargo que ocupa. Este está consciente da sua humanidade e das tentações e fraquezas que sente.

Os religiosos não são seres divinos, mas humanos como todos os outros. Também os líderes são humanos e não seres perfeitos que nunca erram, nunca têm um dia mau e nunca se esquecem de nada. Assumir as falhas e responsabilidades não os torna inferiores, mas dignos do reconhecimento e da admiração dos seus seguidores.

7. Sabe que não vai conseguir atingir os objetivos sozinho.

"A Igreja não pode ser uma baby-sitter para os cristãos, deve ser uma mãe e é por esta razão que os laicos devem assumir as suas responsabilidades de batizados." (17-04-2013)

 “Como arcebispo de Buenos Aires, convocava uma reunião com os seis bispos auxiliares cada 15 dias e várias vezes ao ano com o Conselho de Presbíteros. Formulavam-se perguntas e abria-se espaço para a discussão. Isto ajudou-me muito a optar pelas melhores decisões. Acredito que a consulta é muito importante.” (19-08-2013)

O Papa Francisco aprendeu com os seus erros enquanto jovem líder e tem hoje plena consciência de que as conquistas são alcançadas não a solo mas em grupo, com e através das pessoas.

Na liderança das organizações, deve passar-se de igual forma. Cabe ao líder desenvolver os seus colaboradores e integrá-los na sua visão e objetivos. Com eles nada o impedirá de lá chegar, sem eles poderá ser uma tarefa demasiado pesada e ingrata, sem hipóteses de algum dia saborear o sucesso.

8. Cultiva o humor.

"Não existe o marido perfeito, a mulher perfeita... não falemos da sogra perfeita." (14-02-2014)

"Não cedamos ao pessimismo. (15-03-2013)

Papa-Francisco-humorÉ sabido que o humor é fomentador da boa comunicação, ao permitir prender a atenção do interlocutor, ao fomentar as relações, promover o bom ambiente de trabalho e proporcionar uma maior felicidade a quem a ele recorre.

O Papa Francisco cultiva o humor em quase todas as suas intervenções, aligeirando assuntos e mensagens mais pesadas, quebrando o gelo inicial em diversas reuniões, encontros e entrevistas, entre outros.

“É preciso viver as pequenas coisas do dia-a-dia com alegria. (…) Não se prive de ter um bom dia.”

 


fatinha-portal-artigo1Fátima Rodrigues é gestora do Portal da Liderança e editora de conteúdos da Leadership Business Consulting, tendo sido coordenadora editorial da área de business do grupo Almedina e lecionado na Congrégation Saint-Joseph de Cluny. Esteve ligada vários anos ao Conselho da Europa, onde exerceu funções de formadora do GERFEC em relações interculturais e interreligiosas em contexto corporativo e social. É fundadora e administradora geral projeto online de fomento à leitura Segredo dos Livros.