6 Lições de liderança de Auschwitz Birkenau: Lições a aprender com o maior erro do passado

6 Lições de liderança de Auschwitz Birkenau: Lições a aprender com o maior erro do passado

Celebrou-se a 27 de janeiro, o 70º aniversário da libertação do campo de concentração alemão nazi Auschwitz Birkenau. Foi em 1945 que, finalmente, se pôs cobro à maior atrocidade cometida contra a humanidade nos tempos modernos.

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Muitas vezes se apregoa que devemos esquecer o passado e viver o presente. Muitas vezes, tentamos esquecer momentos terríveis que vivemos. Mas deveremos mesmo fazê-lo? Há factos da história que não podemos esquecer, quer pelas lições que nos deixaram, quer sob pena de, se não passarem às gerações futuras, estarmos a contribuir para que voltem a acontecer.

Quando fiz o segundo nível de formação em gestão de equipas interculturais e inter-religiosas, através do Conselho da Europa, então sediado em Varsóvia, tive a oportunidade de ir aos campos de Auschwitz e de Birkenau.

Com a minha formação de base em geografia, pensava eu que sabia quase tudo sobre o assunto. Mas tão enganada que estava. Muito do que sabemos pelos livros e pelos muitos filmes que anualmente vão saindo, é um pontinho pequenino no todo.

É como nas empresas. Informamo-nos até à exaustão, consultamos amigos e conhecidos, eventualmente mesmo atuais colaboradores, decidimos aceitar o cargo e entramos confiantes de que sabemos tudo sobre a mesma, o bom e o mau e que levamos a estratégia ideal para que, quando for executada, esta faça toda a diferença.

Entramos e apercebemo-nos de que, afinal, sabemos tão pouco. E qual é o ponto fraco, comum em quase todas elas? O capital humano. As pessoas. Aquele input que tendemos a desvalorizar, mas que faz toda a diferença entre o sucesso ou o fracasso da gestão. E lá se vai a visão, a estratégia que tínhamos tão clara na nossa mente. O desafio seguinte é o que fazermos com as pessoas. Testar até que ponto vai a nossa determinação e inteligência emocional e se conseguiremos virar o barco a nosso favor.
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Voltando a Auschwitz e Birkenau, entrámos entusiasmadíssimos pelo portão central que todos conhecem, porque aparece em todos, mesmo todos os filmes, mas a crueldade então vivida fez-se logo sentir. O que dizia por cima do dito portão? "Arbeit Macht Frei”, ou seja “O trabalho liberta-o”.

Éramos acompanhados por uma guia polaca do Conselho da Europa que tinha perdido os pais e grande parte da família nesse campo e que levava luz verde para nos mostrar tudo e contar os factos como realmente se passaram.

Como diz um colega meu, passei da sensação de bola cheia à de bola murcha. A realidade é de uma crueldade atroz, inumana e, posso afirmar com toda a certeza, que foi a experiência mais marcante que tive até hoje, do ponto de vista humano. Recomendo a todos que a façam, pois, se bem vivida, é capaz de mudá-lo.

 Auschwitz e Birkenau são hoje um memorial que me recorda sempre algumas lições que trouxe de lá, como:

  1. Os erros do passado só não se repetirão se não forem esquecidos e passados às gerações futuras.
    Integre-os sempre em cada passagem de pasta que faça e no legado que deixa. Se achar por bem, faça como na Zappos e celebre o maior "erro" (chamada) do ano com a equipa. Estará a passar duas importantes mensagens: é permitido errar, pois, se não tivermos essa liberdade, ninguém ousará inovar e arriscar; e aprendemos com os nossos erros e usamo-los como trampolim para fazer muito melhor.
  2. Todos somos humanos.
    Religiões à parte, incluamos no nosso sistema de valores o de não fazer ao próximo o que não gostaríamos que nos fizessem a nós. Se o fizermos, ganharemos a credibilidade e a confiança dos que connosco trabalham, dos acionistas e dos que, no final do ano, nos permitem ter resultados, os nossos clientes. Não caia na tentação de explorar o seu capital humano, a pensar em resultados rápidos. Hoje na sua empresa, amanhã nas dos seus adversários.
  3. Hoje faz aos outros, amanhã fá-lo-ão a si.
    O que fizer hoje ditará a forma como os que consigo interagem lhe farão a si. Como seres humanos que somos, aprendemos significativamente pelo exemplo e temo-lo como standard de atuação. A forma como tratar os seus colaboradores será o padrão para a forma como estes tratarão os seus clientes. E não se esqueça, hoje adversários, amanhã, quem sabe, parceiros. Paute-se pela cortesia e pela justiça.
  4. A maior riqueza vem do coletivo.
    Não se oiça só a si ou poderá cair na tentação do mais fácil e menos recompensador: liderar pelo medo e pela imposição. Esteja aberto aos que concordam e aos que discordam das suas opiniões. Quem não conhece Abraham Lincoln e a sua liderança? Lincoln vivia este princípio em plenitude, tendo liderado um Conselho de Ministros que incluía três dos seus grandes rivais por si escolhidos, e com eles conseguiu ganhar a Guerra Civil norte-americana.
  5. Prometa apenas aquilo que pode cumprir e procure corresponder e gerir as expetativas dos seus colaboradores, clientes e acionistas.
    Não tenha um "Arbeit Macht Frei” (O trabalho liberta-o) à porta e depois um verdadeiro inferno no interior da organização. Acredite que, mais cedo ou mais tarde, terá o mesmo fim de Auschwitz, o fecho definitivo das portas.
  6. Seja o maior defensor e impulsionador da paz na sua organização.
    Invista seriamente na criação e manutenção de um ambiente de trabalho positivo e gratificante. Faça uma eficaz gestão dos problemas. Não procrastine no inevitável. Se o tempo resolve muitos problemas, também os agrava. Durma sobre os assuntos, mas só uma noite! No dia seguinte, atue, pelo bem da sua organização.


Simon Wiesenthal, que esteve preso em campos de concentração durante quatro anos e meio, tendo sido libertado pelas tropas americanas em maio de 1945, dedicou a sua vida a localizar, identificar e levar criminosos nazistas à justiça.

Como afirmou: "Para que a maldade floresça, só é preciso que os bons homens não façam nada.”

Que sejamos sempre bons seres humanos, bons líderes, capazes de fazer a diferença pela positiva, de pensar no coletivo e que, um dia, deixemos às gerações vindouras um legado de valor, digno de nos orgulharmos e de que se orgulhem de nós.

 


fatinha-portal-artigo1Fátima Rodrigues é gestora do Portal da Liderança e editora de conteúdos da Leadership Business Consulting, tendo sido coordenadora editorial da área de business do grupo Almedina e lecionado na Congrégation Saint-Joseph de Cluny. Esteve ligada vários anos ao Conselho da Europa, onde exerceu funções de formadora do GERFEC em relações interculturais e interreligiosas em contexto corporativo e social. É fundadora e administradora geral do projeto online de fomento à leitura Segredo dos Livros.