Jorge Lopes: "Cabo Verde poderá ser uma referência mundial"

Jorge Lopes: "Cabo Verde poderá ser uma referência mundial"


Jorge Lopes5Jorge Lopes, Gestor do NOSi, em entrevista ao Portal da Liderança, falou sobre este projeto que está a revolucionar a África, sobre inovação e sobre os erros da liderança empresarial, referindo que África deve "resistir à tentação e pressão de adquirir silos de informação, e enveredar por modelos integrados de governação eletrónica".   



Portal da Liderança (PL): O NOSi é hoje uma referência a nível africano e mundial, especialmente na Governação Eletrónica? 

Eng.º Jorge Lopes (JL): A governação eletrónica é de facto uma realidade em Cabo Verde, sendo já uma referência neste domínio no continente Africano, podendo, num futuro próximo, sê-lo também a nível mundial. O NOSi – Núcleo Operacional da sociedade de Informação é a entidade do Estado responsável pela implementação dos projetos neste domínio. Com centenas de colaboradores altamente qualificados e inovadores, o NOSi cobre todas as etapas do ciclo de desenvolvimento de soluções integradas e concebe soluções altamente adaptadas ao contexto do cliente.


PL: 
Quais os principais desafios que enfrentam os países africanos?



PL: E no âmbito da governação eletrónica? Que recomendações lhes pode dar?

JL: Os desafios ainda são muitos, mas acredito que neste momento há uma forte vontade de os vencer. É preciso, por exemplo, aumentar a taxa de acesso à internet, reduzir custos de acessibilidade, aumentar presença na internet, desenvolver o e-commerce, entre outros conteúdos.
O modelo adotado por Cabo Verde diferencia-se dos utilizados na generalidade dos países. O nosso modelo - IGRP (Integrated Goverment Resources Planning)-, tem como pressuposto central a integração de sistemas sobre uma plataforma tecnológica comum. Posiciona-se como um produto inovador que disponibiliza um pacote integrado de soluções para a Governação, com o objetivo de prestar um serviço de qualidade aos cidadãos almejando, acima de tudo, ganhos de eficiência no sector público, melhorando a transparência e accountability nas funções governamentais que, por seu turno, deverão contribuir para redução de custos na administração pública. Graças a isso, conseguimos aumentar a penetração da internet de 1.6% em 2000 para 32% em 2012; fomos considerados no relatório Doing Business 2011, entre os 10 países do mundo que mais progressos fizeram na melhoria de ambiente de negócios, reduzimos o tempo para a criação de uma empresa, de 52 dias para 1 hora; as certidões são emitidas hoje online e em tempo real; conseguimos criar pontos de acesso gratuito à internet em todos os municípios do país; já é possível a marcação de consultas hospitalares online; criámos balcões únicos para a prestação de vários serviços integrados da Administração Publica aos cidadãos e empresas no país e na diáspora, só para realçar alguns ganhos.
África tem à frente uma igual oportunidade. Resistir à tentação e pressão de adquirir silos de informação, e enveredar por modelos integrados de governação eletrónica à semelhança do concebido e adotado por Cabo Verde, conseguindo assim tirar partido dos enormes ganhos de eficiência que daí advêm. Mas tudo isto só é possível se houver, sobretudo, uma forte vontade política.
 

Segundo o Eng.º Jorge Lopes, os países africanos têm pela frente muitos desafios no âmbito da governação eletrónica, devendo resistir à tentação e pressão de adquirir silos de informação e enveredar por modelos 


PL:
O NOSi é hoje reconhecido como um centro de competência em TIC e na inovação. Como cria e fomenta as dinâmicas de inovação e de desenvolvimento de competências?


JL:
Estas dinâmicas são criadas sobretudo pelo facto de sermos uma instituição aberta, jovem, criativa, ambiciosa e movida para os desafios. A forte liderança, o espírito de missão e de equipa constitui o grande capital da instituição. Esta cumplicidade permite-nos sonhar e ser utópicos. Lideramos iniciativas estruturantes para o país devido ao nosso pensamento positivo e por persistirmos incessantemente na quebra de paradigmas. A capacitação e certificação dos nossos colaboradores têm sido a nossa grande aposta. Temos vindo a estabelecer parcerias com universidades nacionais e grandes empresas internacionais do sector das TIC, no sentido de potenciar as competências locais. Com o projeto Parque Tecnológico, que neste momento está a emergir, pensamos reforçar ainda mais este aspeto, pois será um espaço onde os vários atores socais - sector público e privado, academias, entre outras -, poderão criar as sinergias necessárias voltadas para a criatividade e para a  inovação.

PL: Antes de assumir a liderança do NOSi, desempenhou funções políticas. Em que é que este percurso político contribuiu para ser o líder que é hoje?

JL:
 Na verdade tenho uma carreira profissional de largos anos. Desempenhei funções de Presidente do Conselho de Administração de uma das maiores empresas do país, a Aeroportos e Segurança Aérea - ASA. Tive tambémJorge Lopes1 funções a nível do governo, fui Ministro das Infraestruturas e Transportes, trabalhei durante muito tempo como consultor de vários projetos, designadamente projetos suportados por financiadores externos, como é o caso do Banco Mundial. Acumulo uma aprendizagem de alguns anos que, juntamente com a minha formação profissional de base e outras qualificações que fui procurei adquirir ao longo da minha carreira, cria em mim essa pré-disposição para trabalhar, para criar as sinergias e fazer com que os grandes desafios que a nossa instituição, o NOSi, enfrenta sejam levados a cabo.

PL: Como é que caracteriza a sua gestão de equipas?

JL: 
É difícil fazer uma autocaracterização, mas acho que no NOSi temos uma predisposição e uma vontade de entrega muito grande. Temos uma equipa muito jovem com uma entrega por emoção e uma dedicação muito forte, e quando assim é acabamos sempre por ter o trabalho facilitado. O papel aqui é sobretudo mobilizar as pessoas a trabalharem com força para vencermos os grandes desafios que temos pela frente.

PL: O que é que identifica numa pessoa que o leva a considerá-lo um talento e a contratá-lo?

JL: O seu espírito de aventura, a sua motivação e a sua entrega à causa.
 

PL: Para si, o que é o fundamental da liderança?

Jorge Lopes4JL: É ter a capacidade de promover a atitude de autorresponsabilização, para que se possam atingir os melhores resultados individuais e em equipa; incutir nos colaboradores o sentido de identidade e pertença em relação à organização e contribuir assim para o seu desenvolvimento pessoal e profissional, bem como para aumentar a sua motivação e o sentimento de missão. Outro importante elemento de liderança, a meu ver, é organizar a equipa de modo a que todos trabalhem juntos e se apoiem no sentido de atingir os objetivos. 

PL: Qual foi a situação que o fez aprender mais em termos de liderança e o que aprendeu?

JL: Acho que o NOSi é o maior dos desafios pelo alcance, pela visão, pela envolvência que tem. É um desafio muito apaixonante, que exige uma entrega emocional muito forte e uma dedicação sem limites.
 

PL: Quais são os três principais desafios que confrontarão os líderes empresariais nos próximos 10 anos?

JL:
Os líderes precisam de ficar atentos aos novos desafios. A liquidez da sociedade contemporânea, as mudanças, por vezes bruscas e imprevisíveis, exigem das lideranças uma nova atitude. Primeiramente os líderes terão que ter a capacidade de ajudar as empresas a atingir um desempenho sustentável, a captar clientes leais, a desenvolver colaboradores competitivos e a contribuir para o desenvolvimento do ecossistema. O líder precisará também de apostar no conhecimento e na produtividade da equipa. Tem que, igualmente, perceber as particularidades de cada equipa, de cada colaborador, desenvolvê-las, envolve-las e compromete-las nas ações organizacionais. 


PL: Onde mais tendem a falhar os líderes empresariais?

JL: Por vezes, na ineficácia e demora na tomada de decisões não conseguindo, desta forma, atender às
empresas com a rapidez necessária. Também nas lideranças que não sabem lidar da forma adequada com os seus subordinados e que, consequentemente, não criam bons ambientes de trabalho, o que vai impactar diretamente nos resultados da organização. O autoritarismo e a arrogância não devem fazer mais parte da atitude de um líder.
Outro aspeto a considerar, é que muitos líderes falham ao não envolver os colaboradores nas questões que afetam o dia-a-dia das empresas, optando por assumir um papel bastante centralizador. Quando as pessoas são incluídas e participam no processo de tomada de decisão, estas sentem-se importantes e ajudam mais a organização. Outra falha prende-se com o descuido na comunicação, ao não saberem traduzir para a equipa a estratégia da empresa.


PL: Um dia o que é que o mundo vai dizer de si?

JL: Acho que o mais importante é a minha satisfação pessoal. Estou convencido do grande esforço que é preciso para dar uma contribuição, ainda que modesta, para o desenvolvimento de Cabo Verde, o que é no fundo o meu grande objetivo. Não espero registos especiais. Estou aqui efetivamente numa modesta colaboração para que, juntamente com outras modestas colaborações de tantos cabo-verdianos, possamos efetivamente ter um país com mais equidade social e no qual os seus cidadãos tenham o mínimo de qualidade de vida.

 



Jorge Lima Delgado Lopes
 é natural da ilha do Sal, Cabo Verde. É Engenheiro Eletrotécnico e Mestre em Direção Estratégica e Gestão da Inovação. Atualmente é gestor do Núcleo Operacional da Sociedade de Informação – NOSi, e Consultor para as áreas de Infraestruturas e Transportes e de Gestão de Sistemas de Informação. Desempenhou as funções de Presidente do Conselho de Administração da Empresa Nacional de Aeroportos e Segurança Aérea – ASA, e foi Ministro das Infraestruturas e Transportes.


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