Luís Filipe Pereira: "É nestas épocas que se põem à prova as pessoas que podem liderar"

Luís Filipe Pereira: "É nestas épocas que se põem à prova as pessoas que podem liderar"


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uís Filipe Pereira, ex-Ministro da Saúde, administrador empresarial e presidente da comissão de avaliação do projeto do futuro Hospital de Lisboa Oriental, que partilhou connosco a sua experiência e visão sobre a liderança e os seus desafios.  



Portal da Liderança (PL): Quais os principais fatores a que um líder empresarial deve atender para garantir o sucesso e a execução da sua estratégia?

Luís Filipe Pereira (LFP): A garantia de sucesso de uma estratégia está sempre ligada ao elevado desempenho de uma equipa. O líder deve envolver os elementos relevantes da sua equipa, competindo-lhe a decisão final quanto ao(s) objetivo(s) a atingir e à(s) estratégia(s) a adotar. 
A sua ação deve estender-se subsequentemente ao controle de execução da estratégia e ao acompanhamento das ações fundamentais para a alcançar. 
A condução de pessoas constitui uma especial responsabilidade do líder pelo que lhe compete um papel fundamental na motivação, avaliação de desempenho, e nos incentivos e recompensas aos seus colaboradores.

Os seus resultados estão diretamente relacionados com o sucesso que ele consiga promover na equipa.

PL: Muitos líderes descuram a monitorização da performance empresarial. A que se deve esta falha recorrente e como se deve ultrapassar?

LFP: Por vezes existe a ideia de que a função do líder consiste principalmente em identificar os objetivos a atingir no futuro e a escolher a estratégia para os alcançar. Sendo indubitável o papel fundamental do líder neste domínio, não deve porém ser descurada a importância da sua ação no acompanhamento e controle da performance. A sua tarefa decisiva consiste, ao fim e ao cabo, em alcançar resultados, através da condução e controle da sua equipa, pelo que a monitorização é também um aspeto fundamental da sua ação.
A conceção da atuação do líder enquanto responsável último pela obtenção de resultados, fará que que se entenda a sua ação como fundamental em todos os domínios que conduzem a esses resultados, ou seja, ao ciclo de previsão/identificação de objetivos, escolha de caminhos/estratégia a adotar e monitorização da performance e das ações a executar.

PL:  Que conselhos dá aos líderes para serem mais eficazes em tempos difíceis?

É nestas épocas que se põem à prova as pessoas que podem liderar.

PL: Sob a sua liderança, a EFACEC cresceu ao ritmo de 30% ao ano, em plena conjuntura de crise, e reforçou a vocação exportadora. Quais os fatores de liderança que lhe permitiram obter tais resultados?

LFP: A EFACEC dispunha de quadros altamente competentes e qualificados do ponto de vista técnico e profissional.
A minha tarefa principal desenvolveu-se em especial em duas áreas essenciais. Por um lado, introduzir atitudes e mecanismos de gestão que permitissem potenciar as capacidades humanas e técnicas que existiam na empresa. Nesse sentido, a introdução, em novos moldes, do planeamento empresarial que integrava a gestão estratégica e operacional, e ainda o controle sistemático da execução da estratégia e das operações, constituiu sem dúvida um aspeto critico para a obtenção dos resultados que foram alcançados pela empresa. 
Por outro lado, sempre senti como uma especial responsabilidade minha, a área da gestão estratégica de recursos humanos, ou seja, todas as ações dirigidas à motivação, à identificação de talentos, à avaliação do desempenho e à atribuição de incentivos e recompensas, em especial dos quadros.


PL: Quais os desafios que se colocam à internacionalização de uma organização para os PALOP?


Os Países de Língua Oficial Portuguesa são oportunidades para as quais estamos especialmente preparados devido à nossa proximidade.

PL: Quais os desafios do amanhã?

Nenhuma empresa pode dizer que está a salvo da concorrência.

PL: Tendo em atenção os desafios colocados pela globalização, como deverão ser os líderes do futuro?

LFP: A globalização é hoje um fenómeno inafastável da gestão das empresas (e da nossa vida).
A globalização alargou o espaço de atuação e de competição das empresas, colocando por isso novos desafios. Não mais uma empresa se poderá sentir protegida no seu mercado interno, porque se foram extinguindo as barreiras que existiam. Por outro lado, foram criadas oportunidades às empresas, em especial pela possibilidade de colocação de produtos e serviços em mercados externos, por vezes bastante longínquos.
O líder deverá ter a perceção deste mundo global de onde poderão vir ameaças, mas também oportunidades a explorar. A sua visão deve, por isso, ser ampla e as suas capacidades deverão estar dirigidas para a condução da empresa e dos seus elementos num mundo global e multifacetado.


PL: Para si o que é o fundamental da liderança?

LFP: Há um conjunto crítico de competências e valores que um líder deve possuir: competência para definir e escolher os objetivos e o rumo da empresa para o futuro, e para monitorizar/controlar a obtenção de resultados.
Uma outra área, porém, é fundamental para a liderança: a área da condução de equipas, de pessoas. Nesta área é decisivo que o líder envolva as suas equipas em ordem a atingir resultados, pelo que é fundamental que saiba motivar, avaliar e recompensar a ação dos seus colaboradores. Existe, porém ainda nesta área, um outro aspeto critico: os valores que o líder deve possuir e que devem estar sempre presentes na sua ação. Refiro-me, em especial, aos valores da integridade, da autenticidade, e também do equilíbrio, sem os quais não é possível uma liderança efetiva de pessoas.

No fim do dia quem faz a diferença são as pessoas.

PL: Qual foi a situação que o fez aprender mais em termos de liderança e o que aprendeu?

LFP: Não existiu uma situação específica, concreta, que me fizesse aprender mais em termos de liderança. O exercício de funções de alta direção ao longo de anos, quer no setor privado quer no público, foram-me ensinando, no entanto, a importância de alguns aspetos para a liderança: aspetos de competência e técnicos, sem dúvida, mas fundamentalmente aspetos ligados à direção, gestão e envolvimento de pessoas. O líder é o responsável último da organização mas é a sua capacidade de extrair dos seus colaboradores o seu melhor e alinhar a sua ação com os objetivos da empresa que faz dele o elemento essencial e decisivo para a obtenção de resultados.
Ao longo dos meus anos de atividade cada vez mais me convenci que a competência profissional e técnica é essencial para a condução de uma empresa mas é na sua capacidade humana, no sentido que referi, que o líder encontra a sua razão de ser numa organização.


PL: Quais são os três principais desafios que confrontarão os líderes empresariais nos próximos 10 anos?

LFP: A globalização, a interdependência das economias e dos mercados, e a continuação do avanço tecnológico à escala mundial, serão aspetos que continuarão a estar presentes nos próximos 10 anos.
Um dos principais desafios que os líderes defrontarão consistirá, precisamente, na condução e gestão das suas empresas ou organizações neste contexto de mudança global. Previsivelmente este contexto levará ao aumento da concorrência e à alteração de fluxos de colocação de outputs: bens e serviços e de inputs: matérias-primas e de consumos intermédios.
A interdependência das economias e dos mercados levará também a novos desafios: a interdependência dos mercados financeiros, com as consequentes ameaças e oportunidades para o financiamento das empresas, e também da área da energia – com repercussões importantes nos custos das economias e das empresas (tenha-se presente o impacto da descoberta e utilização do “shale gas”) são dois fatores que colocarão desafios importantes à liderança das empresas.
O avanço tecnológico, em várias áreas, continuará a ser uma realidade nos próximos anos, o que colocará outros desafios às lideranças empresariais tais como o encurtamento do ciclo de vida dos produtos, o impacto nos custos e o aumento da inovação como fator crítico de competitividade.


PL: Quais são as três qualidades mais importantes para um líder empresarial nos próximos 10 anos?

LFP: Como referi atrás, os lideres confrontar-se-ão com novos desafios (e também com a intensificação de alguns já existentes, como seja a concorrência global) nos próximos anos.
A essência da liderança continuará no entanto a ser marcada por aqueles aspetos que já hoje são decisivos na ação dos líderes: competências em especial na área estratégica, mas também no controle das operações e, fundamentalmente, nas capacidades humanas na condução de equipas e pessoas com relevo para os valores que devem pautar a sua ação.
A evolução das economias e dos mercados, no sentido que atrás descrevi, acentuarão no entanto a importância de algumas qualidades que os líderes devem possuir: visão estratégica, capacidade para fomentar a competitividade das suas empresas e persistência na prossecução de resultados num mundo cada vez mais mutável e competitivo.


PL: Onde tendem a falhar os líderes empresariais?

LFP: Julgo que não existirá um padrão, um único aspeto, onde todos os líderes falharão.
No entanto, dado que uma área comummente assinalada, como sendo de atuação específica de um lidera empresarial, é a área estratégica. Observa-se com frequência alguma distância ou menor atuação dos líderes empresariais na execução das operações e na monitorização e controle dos resultados. 
Trata-se de uma falha importante porque, como disse, a função última do líder é a da responsabilidade de “entregar” resultados e para isso concorrem todas as áreas: a estratégica, a operacional, a de monitorização e controle e por último, mas não menos importante, a gestão estratégica de recursos humanos. 



Luís Filipe Pereira é licenciado em Economia. Foi diretor financeiro, administrativo e de pessoal na Sovena (1973-1979), diretor de planeamento, gestão financeira e administrativa da Quimigal (1979-1984), depois diretor-geral adjunto (1984-1986), vice-presidente do Conselho de Administração da EDP (1991-1995) e da Quimigal Adubos (1996-1997), administrador (não executivo) do Banco Mello (1998-2000), presidente da Comissão Executiva da ADP (1997-2002), da CUF (desde 2005) e da Efacec (desde 2006). É professor auxiliar convidado do Instituto Universitário de Lisboa (desde 1979) e foi assistente convidado do Instituto Superior de Economia e Gestão (1978-1979). Ocupou diversos cargos em governos portugueses. Foi ministro da Saúde dos XV e XVI Governos Constitucionais, secretário de Estado da Energia do XII Governo Constitucional e Segurança Social dos X e XI Governos Constitucionais. Foi presidente da Associação Portuguesa dos Industriais Grandes Consumidores de Energia Eléctrica (1996-2001 e, novamente, desde 2005). A 17 de Janeiro de 2006 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito.

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