Entrevista com Isabel dos Santos pelo Finantial Times

Entrevista com Isabel dos Santos pelo Finantial Times
Isabel dos Santos
A empresária angolana Isabel dos Santos, falou ao Financial Times sobre a sua vida, sobre a relação com o pai e sobre a sua ascensão no mundo dos negócios.   

Um nevoeiro espesso desce sobre Londres enquanto me (Tom Burgis) dirijo a Mayfair para me encontrar com a mulher mais rica de África. Parece-me apropriado. O seu nome tornou-se mais conhecido desde que, no início do mês, a Forbes considerou Isabel dos Santos a primeira mulher milionária do continente africano, embora na sua Angola natal pertença a uma elite tão reservada que tem sido descrito como uma "criptocracia". 

O pai, José Eduardo dos Santos, é presidente de Angola há 33 anos. Conhecido pela sua impenetrabilidade, governa o seu petroestado - a potência ascendente do continente e um dos maiores fornecedores de petróleo à China - com mão de ferro. Segundo os críticos, o seu regime passou a ser sinónimo de desvio de dinheiro público para os bolsos de privados.

Isabel dos Santos, a filha mais velha, é vista como um símbolo da confluência de poder e riqueza em Angola. Há mais de um ano que tento marcar uma entrevista e, apesar de os assessores dizerem repetidamente que Isabel não dá entrevistas, a verdade é que aceitou marcar um almoço por ocasião de uma viagem de negócios ao Reino Unido. Escolheu o Scott, um restaurante chique especializado em peixe, frequentado por gestores de ‘hedge funds' e luminárias como Bill Clinton e Tom Cruise.

Chego 10 minutos mais cedo, mas reconheço Isabel dos Santos umas portas mais à frente. Damos um aperto de mãos e ela continua calmamente a conversar - em português - com seu agente publicitário enquanto eu fico por ali a gravitar. O senhor em questão sai de cena e o empregado indica-nos a mesa sob um toldo imenso e com padrão desconcertante da autoria de Fiona Rae. Isabel dos Santos veste calças pretas tipo fato e uma blusa em crepe estampado leopardo, e traz uns brincos deslumbrantes cravejados de diamantes. Estas pedras preciosas existem em abundância no solo angolano e, como tal, ajudaram a financiar a campanha rebelde contra o presidente José Eduardo dos Santos durante a guerra civil em que país mergulhou logo depois de conquistar a independência de Portugal, em 1975.


A empresária angolana diz que trabalha "sete dias por semana", mas que se sente bem com isso se conseguir criar postos de trabalho.



Bebemos um gole de água e damos uma vista de olhos à ementa. Isabel dos Santos, 39 anos, tanto parece confiante como pouco à vontade enquanto ajusta e a reajusta os seus talheres. Mora na capital angolana, Luanda, onde hotéis de cinco estrelas intercalam com favelas a perder de vista ao longo da costa atlântica. Isabel é perita em marisco e, tal como a maior parte dos moradores mais ricos da capital, adora passar o serão na Ilha, uma língua de terra repleta de bares de luxo com vista para o mar. Se estivesse na Ilha pedia um prato de garoupa, disse. Aqui, escolhe um linguado ‘au meunier' com puré de batata e espinafres ao vapor. Como estou mais interessado em perceber os negócios da minha convidada, tento escolher um prato que não exija um conjunto complexo de instrumentos cirúrgicos para deglutir a comida. Tendo isso presente, evito o lingueirão e opto pelo halibut acompanhado de ‘puntalette' de caranguejo. Tento persuadi-la a beber um copo de vinho, ao que contrapõe, sorrindo: "Que tal pedirmos uma garrafa?". Peço um Chablis e pergunto-lhe se os pais se conheceram através do KGB. "Duvido", diz por entre um sorriso desarmante. A primeira de muitas respostas esquivas durante a nossa conversa...

Nasceu em Baku em 1973, onde o pai conheceu a mãe, uma russa campeã de xadrez, quando ambos estudavam engenharia. O Azerbaijão, então posto avançado russo, acolhia jovens quadros promissores de movimentos de libertação alinhados com o regime comunista, como o MPLA, onde militava o pai de José Eduardo dos Santos. "Foram precisos sete anos para obterem todas as autorizações e casar. Não penso que se tenham conhecido através do KGB, caso contrário teriam obtido os papéis mais depressa." Não obstante, o pai estava destinado a ser um cliente estratégico para os soviéticos nas guerras por procuração da Guerra Fria. O primeiro presidente de Angola, Agostinho Neto, morre em 1979. José Eduardo dos Santos, que regressara ao país para juntar-se à luta armada antes da independência, assumiu o poder - até hoje.

O conflito terminou em 2002 e o comunismo desde então que deu lugar ao que um especialista em Angola chama "capitalismo de compadrio". Os que têm ligações ao Futungo, como o círculo presidencial é conhecido (numa referência ao antigo palácio presidencial, o Futungo de Belas,) fizeram fortuna. Mas os dados da ONU mostram que Angola não tem conseguido transformar o crescimento do PIB (o crescimento médio foi de 11% entre 2003 e 2011) em melhores condições de vida, apesar da elite continuar a prosperar.

Mesmo alguns críticos reconhecem o talento independente de Isabel dos Santos enquanto empresária. Os seus interesses incluem participações em dois bancos portugueses, BIC e BPI, e no grupo ZON Multimédia, bem como uma participação indireta na Galp Energia, que tem ativos em Moçambique e na Venezuela. Porém, para os angolanos pobres e revoltados, Isabel simboliza um sistema que concentra o poder e a riqueza nas mãos de poucos. Chamam-lhe "a princesa" e não o fazem com carinho.

Como seria de esperar, não é assim que Isabel vê a sua vida. Aliás, não perde uma oportunidade para explicar que leva "uma vida banal". Não tem motorista, é ela que conduz em Luanda, enfrentando engarrafamentos intermináveis como os demais habitantes de Luanda. Nesse instante fazemos gestos cúmplices de quem já perdeu horas da sua vida em indescritíveis engarrafamentos africanos. Quando afirmo que os Estados dependentes das receitas petrolíferas são os piores em termos de trânsito, Isabel pergunta-me se posso explicar esse fenómeno. Socorro-me da teoria que diz que os petrodólares são desviados para comprar carros todo o terreno, aliviando a pressão exercida sobre as autoridades para arranjar as estradas, apesar do número de buracos não parar de aumentar.

Isabel avança com uma explicação mais divertida. "Lembro-me de quando havia 300 mil automóveis em Luanda, 600 mil e, depois, um milhão de automóveis. Atualmente, acho que há cerca de dois milhões de carros na cidade, o que reflete o crescimento do mercado de consumo. A questão é que cresceu muito mais depressa do que as infraestruturas." A sua visão do crescimento da classe média choca com o discurso dos que defendem a ascensão de África, mas corrobora a ideia de que o velho modelo - a classe governante autoritária continua a engordar com o dinheiro do petróleo e dos minérios, enquanto a população continua a viver numa economia desindustrializada - pouco ou nada mudou.

Chega o peixe. Isabel ignora o puré e os legumes e centra a sua atenção no linguado, que prepara meticulosamente como seria de esperar numa engenheira filha de engenheiros (graduou-se no King's College, em Londres). "O meu pai cozinha e gosta de peixe. Nunca fomos dados à grandiosidade. Eu ia a pé para a escola". Quando os pais se separaram, foi com a mãe para a Europa e estudou em St. Paul's, uma escola privada em Londres. Depois, quando ingressou no King's College, partilhou um quarto numa residência em Edgware Road. Uma vez mais, não perdeu a oportunidade de lembrar que teve uma vida difícil. "Além das 23 horas de aulas teóricas por semana também tínhamos aulas práticas e relatórios para apresentar. Não havia tempo para brincadeiras."

Quem sabe se as aulas práticas não serviam para encontrar um antídoto para a perceção de nepotismo. "Há muitas pessoas com ligações familiares, mas que hoje não são ninguém. Quem for trabalhador e determinado vai ter sucesso, e isso é o principal. Não acredito em caminhos fáceis."

Apesar de tudo, é fácil ganhar dinheiro quando se tem os contactos certos em Angola, especialmente na indústria que explora os recursos naturais, onde se sabe que os altos cargos do Estado e do aparelho militar detêm participações ocultas em negócios liderados pelas grandes petrolíferas e terrenos onde se extraem diamantes. Há quem diga que é a corrupção subjacente às estruturas de poder que mantém a maior parte dos africanos na pobreza e lhes veda a possibilidade de responsabilizar os respetivos governantes.


Se aquilo que fazemos der emprego a alguém, esse ‘alguém' vai poder pagar a educação do filho que, um dia, vai ser médico e que, por sua vez, vai ajudar muitas outras pessoas, o que é muito motivante e mais divertido do que ir à praia."


Pergunto a Isabel se concorda que existe uma relação muito próxima entre os políticos e os empresários angolanos. "Sim", admite, a indústria petrolífera "obedece a interesses políticos", mas insiste que se mantém à margem disso. Nas áreas onde atua, "a política não entra", apesar de o momento alto da sua carreira como empresária ter tido lugar quando integrava o consórcio ao qual foi atribuída a segunda licença de telefonia móvel em Angola, em finais de 1990. Isabel regressara ao país no início dessa década num momento de falsa esperança. A trégua e as eleições em 1992 pareciam prenunciavam o fim da guerra, mas Jonas Savimbi, líder dos rebeldes da Unita, acusou os seus opositores de fazerem jogo desleal e desistiu de ir a votos. Seguiu-se mais uma década de violência.

"Foi um momento especialmente mau", recorda. Foi novamente viver com o pai, arranjou emprego numa empresa alemã de reciclagem e, depois, com o dinheiro da venda do carro montou um negócio de camiões. O desenvolvimento de um sistema de ‘walkie-talkie' abriu caminho à sua posterior incursão nas telecomunicações. A busca do terreno ideal para as licenças móveis levou-a a territórios controlados pelos rebeldes. O seu pai não se opôs a isso? "Não sabia de nada" Desqualificou-se do concurso devido às suas ligações familiares? O seu semblante, normalmente bem-disposto, deixa transparecer um certo aborrecimento. O processo de licitação que levou à formação da rede de telefonia móvel Unitel foi "justo", na sua opinião. Foi uma "escolha consciente, criar essa relação próxima [entre si e o governo], que embora difícil de ver, existe". Pergunto-lhe por duas vezes se o General Leopoldino Fragoso do Nascimento, um profundo conhecedor do Futungo com quem dizem ter negócios, é um dos co-investidores da Unitel - e por duas vezes se esquiva à pergunta. Mais tarde, envio-lhe um email para confirmar outras eventuais ligações de que ouvi falar. Nega tudo categoricamente. Durante o almoço, diz-me de sobrolho franzido: "A maior parte dos rumores que circulam por aí não são verdadeiros."

Talvez não se veja a si própria como membro do todo-poderoso Futungo, pergunto. "Não estou envolvida em política e nunca desempenhei funções públicas. Como já referi, não trabalho com o governo." Pelo contrário, vê-se como uma força que pode aliviar a desigualdade. "Como é que reduzimos a desigualdade? Criando oportunidades e mais desenvolvimento. Trabalhando, fazendo coisas. Vai levar muito tempo, mas quanto mais coisas acontecerem, mais coisas vão sendo construídas."

O meu halibut desaparece a olhos vistos e o peixe de Isabel também, mas persisto nos meus esforços para compreender os elementos chave da estrutura de um dos impérios empresariais mais intrigantes do continente africano, cuja carteira se estende além-fronteiras. Os seus interesses bancários levaram-na a criar uma parceria com o homem mais rico de Portugal, Américo Amorim, através da Amorim Energia. Peço-lhe para explicar como é que esses interesses energéticos entroncam com a Sonangol, a petrolífera estatal angolana com ativos em países como o Iraque e o Brasil, que alguns críticos dizem ser o feudo do Futungo. Esquiva-se uma vez mais à minha pergunta, mas depois olha-me fixamente como quem olha para um miúdo insolente: "O negócio é relativamente complexo porque a sua estruturação implica ter em conta aspetos tão distintos como a legislação, o sistema tributário e o governo das sociedades, ente outros".

Embora a Forbes avalie a sua fortuna em 2 mil milhões de dólares, Isabel dos Santos, contrariamente ao príncipe saudita que ficou furioso pela revista ter avaliado a sua em 20 mil milhões e não em 29,6 mil milhões de dólares - o valor correto segundo o próprio -, tem tido dificuldade em desvalorizar esse número. Diz que todas as transações são alavancadas, aspeto que reforça a sua relação com a banca comercial na Europa, Ásia e África. Entretanto, quando estava prestes a fazer mais uma pergunta sobre o seu poder de influência, chega o empregado e pergunta se queremos sobremesa. Isabel pede chá de hortelã e uma colher para provar a iguaria que eu escolher. O empregado sugere ‘cheesecake' de ruibarbo de Yorkshire, especialmente pensado para "partilhar".

Quando ficamos novamente a sós, volto a insistir: disseram-me ontem que ligou para o governador do banco central para lhe dizer o que fazer. É verdade? "De que país?", graceja. Soltamos ambos uma gargalhada (a garrafa de vinho estava vazia há já algum tempo). Tento novamente: tem fama de ter grande poder. "Imagino que seja difícil distinguir o pai da filha.

Talvez a dificuldade esteja no facto de eu fazer as minhas coisas e de o meu pai ser uma figura política incontornável em África há muitos anos. Faça o que fizer, parece que tem uma aura sobre a cabeça", diz colocando a mão sobre a sua cabeça para ilustrar melhor a metáfora, como se o pai fosse uma espécie de fenómeno celestial. "Talvez algumas dessas ideias tenham a ver com isso, com a posição que ocupa. Respondendo à sua pergunta, não, não ligo para o banco central e menos ainda lhes dou instruções."

Oriento a conversa para questões ideológicas. Vê alguma ironia no facto de a filha de um guerreiro comunista da Guerra Fria ser hoje o símbolo do capitalismo africano? "Percebo o que quer dizer, mas como já disse não faço política. Sou empresária e não política."


A minha apetência pelo mundo dos negócios vem de longe, ainda era criança. Com 6 anos já vendia ovos."


Os lucros serviram para financiar um vício chamado algodão-doce. Com o passar dos anos, porém, tornou-se menos gulosa. Só assim percebo que mal tenha provado a gigantesca fatia de ‘cheesecake' que nos serviram. Pergunto-lhe se não quer levar o bolo para os filhos provarem. Isabel é casada com Sindika Dokolo, empresário congolês e colecionador de arte, de quem tem três filhos. Explica que não vêm com ela quando viaja em trabalho.

"Trabalho todos os dias, sete dias por semana." Sinto uma certa melancolia no seu tom de voz. Os pais "eram muito exigentes" com a sua educação. Não tem uma relação muito próxima com os irmãos nascidos de outros casamentos do pai - diz-se que um deles, José Filomeno dos Santos, vai herdar a presidência de Angola -, mas diz que o seu trabalho é "divertido". "Se aquilo que fazemos der emprego a alguém, esse ‘alguém' vai poder pagar a educação do filho que, um dia, vai ser médico e que, por sua vez, vai ajudar muitas outras pessoas, o que é muito motivante e mais divertido do que ir à praia."

De repente pergunta-me as horas: quase quatro. Tem encontro marcado com uns consultores a propósito de um novo supermercado. Trocamos alguns gracejos e sai. Peço a conta e preparo-me para sair e enfrentar novamente o nevoeiro - agora ligeiramente menos espesso.


Fonte: Económico


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