Pedro Reis: "A diversificação de mercados é uma aposta desde a primeira hora"

Pedro Reis: "A diversificação de mercados é uma aposta desde a primeira hora"
PedroReis


P
edro Reis, Presidente da AICEP,  diz que estão "a monitorizar mercados ainda pouco visíveis como o Azerbaijão, o Botswana e a Namíbia ou o Panamá" e que sente "que estamos perante uma mudança de paradigma". Pedro Reis é o vencedor na categoria Gestão de Empresa Pública dos Best Leader Awards 2013, atribuídos pela Leadership Business Consulting e pelo SOL.   




Quais os pontos fortes que um bom líder em gestão de empresa pública deve potenciar?
 


No atual contexto, em que temos de ser capazes de fazer mais com menos recursos, a motivação das equipas tem de ser um elemento constante de qualquer liderança. Trabalhar para que os colaboradores se identifiquem com a missão da empresa, criando mecanismos de comunicação regulares e de proximidade, imprimindo uma relação causal entre os serviços prestados e os resultados obtidos, são importantes para essa motivação.


Não existindo margem para recompensar financeiramente o mérito, há que saber capitalizar o talento, ouvindo os colaboradores, incentivando a recolha de sugestões e de ideias, envolvendo-os na tomada de decisões e na definição da estratégia da organização.



Adicionalmente, tem de saber trabalhar em rede, de forma colaborativa, com outras organizações, aproveitando diversas valências institucionais que facilitem a missão da empresa. Além de que um líder, por mais preparado que esteja e convicto das suas ideias, não deve fazer tábua rasa do que encontra quando inicia funções. As instituições têm memória e não se deve ignorar que existe trabalho feito para trás.


E os pontos fracos proibitivos?

São para combater e desmantelar.


Qual foi a maior conquista da AICEP sob o seu comando?

Considero os processos de captação de investimento em que estive envolvido uma vitória do País e dos investidores, e não exclusiva minha ou da AICEP. Prefiro referir que, neste mandato, a AICEP conseguiu incitar com sucesso mais empresas portuguesas a aceitarem os desafios da internacionalização, por um lado, e a diversificação de mercados, por outro. No primeiro caso, registo com satisfação que encarteirámos mais de 2 mil empresas para a internacionalização, alargando a base exportadora nacional (acompanhamos agora cerca de 11 mil empresas); quanto à diversificação de mercados, fazendo uma leitura antecipatória da estagnação europeia, abrimos três novas delegações, passámos a cobrir mais oito mercados e organizámos mais de 20 missões empresariais a mercados extracomunitários, tendo sido esta componente que mais tem contribuído para o crescimento das exportações.


E o maior risco?

Em termos de desafio, talvez o processo de integração da rede comercial da AICEP na rede diplomática e consular, não tanto pela orgânica ou pelo processo, mas sim pela mudança de paradigma que representa na dinâmica de internacionalização da economia portuguesa.

 
Que características promove de Portugal quando tenta atrair investidores estrangeiros a apostar no país?

Portugal, felizmente, possui um conjunto de características que são atrativas para os investidores estrangeiros e que fazem parte da narrativa de captação de investimento que damos a conhecer por esse mundo fora. Desde logo, a nossa posição geoestratégica e a capacidade que temos de estabelecer pontes com outros países ou comunidades de países, como é o caso da lusofonia. O acesso que proporcionamos aos mercados europeus, a alguns mercados africanos e da América Latina e também ao mundo que fala português, nos respetivos países que a têm como língua oficial, e à diáspora, é um dos nossos maiores ativos como país. Adicionalmente, possuímos excelentes infraestruturas de transportes, de comunicações e logísticas, que posicionam o nosso país como uma plataforma exportadora altamente competente e competitiva. Temos excelentes recursos humanos e uma ligação crescente das universidades às empresas, liderando avanços importantes em termos de investigação científica e tecnológica conseguindo aproveitá-los em termos de inovação empresarial. Possuímos redes de fornecedores altamente qualificados, capazes de servir um conjunto alargado de indústrias e de sectores de atividade económica. Em cima destes fatores intrínsecos de competitividade, acrescem as reformas estruturais, já realizadas e em curso, que estão a criar as bases para um novo modelo económico, sustentável e mais amigo do investimento, bem como os incentivos financeiros e os benefícios fiscais que atribuímos aos investimentos.


Como faz a gestão da liderança quando tem de negociar com investidores e governos de origens tão diversas como África, Ásia ou Europa?

Todas as negociações têm as suas especificidades e no “mercado” internacional de captação de investimento, que é muito competitivo, há que conhecer tanto quanto possível quem temos à nossa frente e exatamente aquilo que pretende, adaptando a nossa proposta de valor às suas expectativas. Perceber que capacidade de decisão ou de influência efetiva tem o nosso interlocutor é também uma regra de ouro. A chave está na consistência da mensagem, na clareza da narrativa, e na adaptação dos assuntos à agenda dos interlocutores.


Depois de uma missão à Colômbia e ao Peru, quais são os próximos mercados de aposta para a AICEP?

A diversificação de mercados é uma aposta desde a primeira hora em que assumi o mandato à frente da AICEP. Assim, para além da presença e acompanhamento das nossas empresas nos mercados tradicionais, procuramos desbravar novas geografias e detetar oportunidades de negócios para as nossas empresas. Estamos a monitorizar mercados ainda pouco visíveis como o Azerbaijão, o Botswana e a Namíbia ou o Panamá, a partir de postos já existentes (respetivamente a partir da Turquia, da África do Sul e da Venezuela, já por si países extracomunitários com interesse para as nossas empresas), estamos também a reforçar a atenção dada aos países do Golfo (Arábia Saudita, Omã, Qatar, Emiratos Árabes Unidos, Dubai e Kuweit) e em termos de missões empresariais associadas a visitas oficiais, iremos nos próximos meses levar empresas ao México, aos Estados Unidos da América e a um conjunto de países da costa ocidental de África.


Quais as grandes dificuldades que a AICEP enfrenta, a curto e a médio prazo?

Apesar da sólida gestão financeira e patrimonial, esta é uma instituição pública que não escapa aos atuais constrangimentos orçamentais. Diria que a maior dificuldade no médio prazo se prende com a renovação de quadros, algo essencial para que a AICEP possa continuar a desempenhar adequadamente a sua missão. As empresas procuram crescentemente a AICEP e, por isso, teremos de ser capazes de dimensionar a organização a esta realidade.


E oportunidades?

Estar presente em mais países, reforçar a estrutura em muitos dos mercados onde já estamos e dar ainda mais valor acrescentado no serviço que prestamos às empresas. Ajudar a fazer a diferença quer para o investidor quer para o exportador.

 
Que marca quer deixar na AICEP?

Gostava de deixar a marca de uma liderança próxima das empresas, ao serviço das empresas, focada totalmente nas suas prioridades.


Existe um tipo de liderança português?

Começa a afirmar-se um novo tipo de liderança em Portugal em termos de processos de internacionalização, sobretudo nas empresas privadas e, dentro destas, incluo em particular muitas PME’s que têm sabido sair da sua zona de conforto e conseguido conquistar posições relevantes na economia global.


Sinto que estamos perante uma mudança de paradigma ao apostar forte e crescentemente no domínio de projetos integrados baseados na motivação, na comunicação e na partilha de objetivos, ao mais alto nível de exigência internacional.




 
Portugal tem falta de líderes?

Há excelentes líderes portugueses, quer cá, quer no estrangeiro. Estou absolutamente convencido que a liderança e o mérito andam de mãos dadas. Temos que saber, como país, promover mais a meritocracia e o empreendedorismo e dar mais margem para a afirmação do talento nacional, sendo a capacidade de liderança uma das suas facetas visíveis.

 
A atração de investimento estrangeiro foi um dos objetivos principais do programa da troika e do Governo há dois anos. Mas tirando as privatizações, Portugal tem tido dificuldade em atrair grandes investimentos. Porquê?

Os investimentos estrangeiros negociados ou encerrados diretamente pela AICEP durante 2012 totalizaram 1,3 mil milhões de euros e temos em acompanhamento um pipeline de intenções de investimento de montante equivalente para este ano. Estes números confirmam a atratividade do nosso país. Temos bastantes projetos em perspetiva, de média dimensão. Será desejável conseguirmos mais investimentos, e de maior vulto, mas esta diversificação de investimentos, que vão dos serviços ao agroalimentar, passando pelo turismo, pelo automóvel ou pela aeronáutica, demonstram que Portugal possui condições competitivas para o investimento que melhorarão à medida que forem sendo produzidos resultados decorrentes das reformas estruturais, por um lado, e da estabilidade e competitividade fiscal que consigamos vir a imprimir no nosso país.


A crise e austeridade tornam o país pouco atrativo?

Os números relativos ao investimento e os resultados das privatizações até agora não confirmam essa tese. O caminho de austeridade, até certo ponto, é compreendido pelos investidores como prova de sustentabilidade futura. O que procuram em Portugal, na grande maioria das situações, é o acesso que Portugal pode proporcionar a outros mercados, e não tanto o nosso mercado doméstico. No entanto, será um sinal importante conseguirmos passar de uma fase mais financeira para um maior enfoque na agenda económica e do crescimento. Os grandes investimentos estrangeiros não recorrem, na sua maioria, a capitais nacionais, pelo que a questão da crise, neste particular, também não tem grande influência nas suas decisões de investimento.


Enquanto líder, como interpreta a atual liderança política europeia?

Tenho três observações: que se clarifique o que queremos da Europa para as próximas décadas; espero que as figuras cimeiras debatam aprofundadamente, entre si e com os líderes nacionais, os termos da união financeira e bancária, conciliando-a com os valores da coesão, nas suas diversas dimensões; que a Europa seja mais rápida nas respostas a problemas que, podendo ser nacionais, têm repercussões globais e, porventura, sistémicas.


De que forma as empresas portuguesas no exterior estão a contribuir para a imagem do País junto dos mercados?

Os resultados das exportações de bens e serviços são neste momento o principal motor da nossa economia, e neste sentido, as empresas exportadoras são verdadeiros embaixadores de Portugal. O valor acrescentado dos nossos produtos, marcas e serviços tem feito um caminho notável no exterior e mostra que a base da nossa economia é saudável e capaz de ser competitiva no mercado global.


Como se mantém a moral/ânimo de colaboradores em organizações que estão a fazer downsizing?

Não é tarefa fácil, mas há que procurar partilhar informação, valorizar os recursos a reter na organização, identificando o seu valor e importância no funcionamento da estrutura. É algo que passa também por gerir de forma transparente, comunicando adequada e objetivamente com todos os colaboradores; além de gerir sempre pelo exemplo.



Entrevistas conduzidas pelo SOL e Oje.


Pedro Reis é licenciado em Gestão e Administração de Empresas pela Universidade Católica Portuguesa, fez formações no PAGE - Programa Avançado de Gestão para Executivos daquela instituição, no francês Insead (AMP - Advanced Management Program) e na americana Harvard Business School (em Strategic Finance). Durante mais de duas décadas foi gestor e consultor de empresas do mobiliário, engenharia, publicidade e comunicação. Tem sido também colaborador regular de vários órgãos de comunicação, na qualidade de colunista ou de comentador residente e é autor do livro "Voltar a Crescer", em que faz um diagnóstico da economia do País com base num estudo realizado junto de 55 empresários e gestores portugueses. Em dezembro de 2011 assumiu a presidência da AICEP - Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, onde tutela os pelouros da Comunicação, Verificação de Incentivos PME e Verificação de Incentivos GE. Assegura ainda a Secretaria Executiva do Conselho Estratégico de Internacionalização da Economia (CEIE) e integra o Conselho Nacional para o Empreendedorismo e Inovação. 

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