John Pina: Procure empresas com portfólios de bons produtos e serviço

John Pina: Procure empresas com portfólios de bons produtos e serviço

Em entrevista ao Portal da Liderança, John Pina, Diretor da General Electric nos EUA, referiu que "os clientes querem fazer negócios com uma empresa que pode resolver os seus maiores problemas e obter valor no longo prazo". "O Jack [Welch] é uma lenda pelo seu foco na excelência operacional." Sobre Cabo Verde entende que "a perda de capital humano tem sido impressionante.

Portal da Liderança (PL): Como líder da General Electric (GE) de Qualidade e Conformidades Regulamentares das Plataformas Inteligentes, quais são os principais desafios de liderança nos dias de hoje? 

John Pina (JP): O ambiente regulatório está a cada vez mais global e complexo, com centenas de novas regulações a serem propostas ou promulgadas todos os anos. Para uma empresa global como a nossa, é importante ter os processos em ordem para que forneçam um “aviso antecipado” destas regulações e assim assegurar que somos competentes em todos os lugares onde fazemos negócios.

PL: Que situação o fez aprender mais em termos de liderança e o que aprendeu? 

JP: Não consigo identificar um só evento que me fez crescer como líder. É um processo de aprendizagem contínua e de autodescoberta. No início aprendi sobre a importância da construir e alimentar os relacionamentos a todos os níveis, internos e externos; o valor de ouvir os clientes e fornecer soluções que resolvam os seus problemas; e a importância de construir equipas fortes e de desenvolver outros líderes. Fui amadurecendo como líder e comecei a ter cargos mais importantes. Aprendi a lidar com um ambiente global e multicultural. Este é um aspeto crucial da liderança de hoje. 

PL: Criou um programa de liderança na GE. Quais são as principais lições de liderança da GE capazes fazer uma diferença na liderança e nos negócios pode partilhar? 

JP: A profundidade da experiência é um fator de sucesso crucial, especialmente quando se está a gerir uma situação de crise. Queremos ter líderes com uma vasta experiência de liderança, mas com uma profunda perícia numa área ou função em particular. É também extremamente importante ter uma mentalidade global e saber como liderar num ambiente de negócios mundial. Hoje em dia, mais de metade das receitas de GE são geradas fora dos Estados Unidos. A nossa cultura de liderança tem que refletir esta realidade. 


Queremos ter líderes com uma vasta experiência de liderança, mas com uma profundida perícia numa área ou função em particular.



PL: Como é que vê a liderança de Jeff Immelt na GE? É um líder digno de suceder ao icónico Jack Welch? Porquê?

JP: Foram ambos os líderes certos para a altura em questão em que desempenharam esses cargos, e claro, o Jeff continua a liderar a GE hoje em dia. O Jeff substituiu o Jack mesmo antes dos ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001. Este evento teve um impacto profundo em diversos negócios da GE e penso que também o teve no Jeff enquanto CEO. Num tempo de crise, olha-se para uma pessoa: o CEO. O Jeff fez um ótimo trabalho ao conduzir a GE através crise e ao reposicionar o portfólio para continuar a ter um crescimento rentável. 

PL: Está na GE desde 1987. Como é que descreve o legado de Jack Welch na GE? 

JP: O Jack é uma lenda pelo seu foco na excelência operacional. Nos inícios dos anos 90 lançou o programa Six Sigma para incutir ainda mais essa cultura de excelência nas operações. Foi também um campeão da diversidade, e foi debaixo da sua liderança e orientação que o Fórum Afro-Americano (FAA, a rede de afinidade para líderes afro-americanos na GE) foi criado. Hoje em dia existem múltiplos grupos de afinidade na GE e somos considerados como a empresa que mais valoriza a diversidade. O Jack foi importantíssimo nesse processo.


[O Jack Welch] foi também um campeão da diversidade, e foi debaixo da sua liderança e orientação que o Fórum Afro-Americano foi criado.



PL: Quais são as principais oportunidades de negócio nos EUA hoje em dia para os empresários lusófonos? 

JP: A economia americana tem estado a recuperar da crise financeira de 2008 e muitos setores estão novamente em crescimento. O mercado imobiliário, que foi um dos mais afetados durante a crise, está em recuperação. No entanto, a recuperação económica, embora positiva, está ainda muito lenta. Não sou nenhum conselheiro financeiro, mas encorajaria os empresários a procurem oportunidades em empresas com uma presença global, aquelas que estão a investir nos mercados emergentes, especialmente em infraestruturas. Procure empresas com portfólios de bons produtos mas também com fortes capacidades de serviço. 

PL: Que conselhos daria aos líderes lusófonos que querem investir nos EUA? 

JP: É importante compreender o seu mercado dominante e os fatores capazes de estabelecer futuras tendências. Deve avaliar cuidadosamente a sua tolerância ao risco e investir de acordo com isso, certificando-se que tem um portfólio diversificado. 

PL: É de Cabo Verde. Como vê a liderança e os desafios que se deparam a Cabo Verde nos anos que se seguem? O que precisa de ser feito? 

JP: A perda de capital humano em Cabo Verde nas últimas décadas tem sido impressionante e bem documentada. O desafio é o de criar mais oportunidades para o sucesso, para que as melhores mentes jovens queiram ficar em Cabo Verde. Isto irá levar tempo mas têm que haver melhores oportunidades de educação e emprego; mais investimento estrangeiro para o crescimento; e mais capacidade para servir a indústria crescente do turismo com produtos locais, incluindo produtos alimentares. Penso também que o governo tem que criar e promover um ambiente atrativo para imigrantes cabo-verdianos, como eu, para que estes queiram investir mais em Cabo Verde.


O desafio é o de criar mais oportunidades para o sucesso, para que as melhores mentes jovens queiram ficar em Cabo Verde. 



PL: Que devem os líderes lusófonos aprender com a liderança e o mercado americano tendo em vista tornarem-se melhores líderes? 

JP: Este é verdadeiramente um mercado global e a liderança tem que refletir essa realidade, onde que os clientes querem fazer negócios com uma empresa que pode resolver os seus maiores problemas e obter valor no longo prazo... Por outras palavras, querem um relacionamento de longo-prazo; que tem a ver uma cultura que valoriza a tomada do risco como uma forma de levar ao crescimento de longo-prazo; e que têm grande responsabilidade como líderes que desenvolvem a nova geração de líderes.

PL: Que conselhos daria aos jovens que querem ocupar posições de liderança no futuro? 

JP: Comecem com uma boa educação. Considerem os cursos de ciência e os cursos técnicos. Procurem oportunidades de estágio no início, para que possam começar a desenvolver as suas competências de liderança… é um mercado muito competitivo. À medida que avançam na sua carreira, não se escondam das tarefas mais difíceis… estas irão ajudá-los no futuro. Construam e alimentem relacionamentos e pelo caminho ajudem os outros a ficarem melhores. 

PL: Quais os principais desafios que pensa vir a enfrentar nos próximos 10 anos? 

JP: Penso que estamos num período mais lento de crescimento e com mais regulações e mais competição global. Ainda existem muitas oportunidades e penso que uma empresa como a GE está bem posicionada para continuar a ser bem-sucedida num nível global. 

PL: Para si, o que é fundamental em liderança? 

JP: Para mim, um elemento fundamental de liderança é a capacidade para mobilizar pessoas para com um objetivo e uma visão comum, independentemente de quem sejam, do que façam e de onde vêm. 

PL: Quais são as três principais qualidades para um líder de negócios nos próximos 10 anos? 

JP: Na minha opinião, os líderes precisam de continuar a focar-se na globalização e em correr riscos. Será também crucial criar relacionamentos fortes e de longa duração com os clientes. 

PL: Onde é que os líderes empresariais mais falham? 

JP: Penso que os líderes falham quando são lentos a reagir às mudanças no ambiente de negócio e quando param de aprender e de evoluir.

 


John-Pina-GE-1João “John” Pina é diretor do departamento de Qualidade e Conformidades Regulamentares para as Plataformas Inteligentes da GE, um departamento de Gestão de Energia da General Electric (GE). Neste cargo, é responsável pela qualidade dos produtos e das conformidades com todas as regulações de produtos onde as plataformas inteligentes da GE fazem negócios. Nos seus 26 anos na GE, tem tido experiência em múltiplos departamentos da empresa, incluindo a Aviação GE, Segurança GE e Gestão de Energia GE. Foi anteriormente gerente de programas de manufaturação, gerente de qualidade geral, líder da planta de montagem de motores a jato, líder de qualidade global e gerente da cadeia de suprimentos global da GE. O John é natural da Brava, Cabo Verde. Imigrou para os Estados Unidos antes de fazer 13 anos. Frequentou a Faculdade de Engenharia da Universidade de Boston, onde estudou Engenharia de Manufaturação e adquiriu o seu bacharelato em Ciência em 1987, seguido de um mestrado em Ciência em 1992. Vive em Charlottesville, VA EUA, com a sua esposa e os seus dois filhos.