Rui Monteiro: Em Portugal temos dificuldade em assumir as responsabilidades e respetivas consequências

Rui Monteiro: Em Portugal temos dificuldade em assumir as responsabilidades e respetivas consequências

Rui Lemos Monteiro, CEO da SODECIA, refere que "A complexidade do processo de liderança tende a aumentar, na medida da internacionalização das empresas (…) é fundamental que o Líder, de forma natural e permanente, consiga criar condições para o desenvolvimento de relações de confiança, facilitando, assim, os processos de delegação".

Rui Lemos Monteiro, CEO da SODECIA, é o vencedor dos Best Leader Awards* 2014 na categoria de Líder na Internacionalização.

Portal da Liderança (PL): Como define o seu estilo de liderança? E que líderes nacionais ou internacionais o influenciam ou influenciaram?

Rui Monteiro (RM): Ajustável, sempre que possível, aos momentos e às circunstâncias. Considero necessário identificar os riscos e as respetivas oportunidades que conseguimos definir.

Preocupa-me assegurar a todos os colaboradores uma visão clara da realidade. Participo abertamente na promoção e discussão das diversas ideias e estratégias, tentando garantir que só as melhores são as escolhidas, independentemente do seu autor ou da respetiva posição hierárquica. 

PL: Na sua opinião, que caraterísticas são hoje determinantes para uma liderança eficaz? É algo inato ou pode ser adquirido com trabalho e formação?

RM: Há, notadamente, um conjunto de caraterísticas que, combinadas entre si, aumentam a probabilidade de eficácia no processo de liderança. No entanto, gostava de salientar a importância de escutar no processo de comunicação. Ouvir, de forma imparcial, opiniões ou recomendações, que podem ser alinhadas ou diferentes da sua forma de pensar, ajuda a reduzir a probabilidade de falha no momento da tomada de decisão. 

A maioria das caraterísticas ou habilidades de um líder está ao nível dos comportamentos. Estes podem e devem ser melhorados permanentemente. Haja a abertura e a humildade para a melhoria contínua. A complexidade do processo de liderança tende a aumentar, na medida da internacionalização das empresas. Cada vez mais, as equipas são compostas por pessoas de diferentes nacionalidades, com hábitos, costumes e religiões nem sempre iguais, com a particularidade de que a comunicação não se faz na respetiva língua de origem.

É fundamental que o Líder, de forma natural e permanente, consiga criar condições para o desenvolvimento de relações de confiança, facilitando, assim, os processos de delegação

O Líder deve ser a demonstração da Paixão pelo projeto. Deve ter a habilidade de criar um sentido comum, em que todos se revejam e que justifique o esforço permanente para conseguir alcançar os desafios a que se propõe.

Na Sodecia, definimos planos para períodos que variam entre 2 a 3 anos, traçando objetivos claros nas várias dimensões do desenvolvimento do negócio. Mas, independentemente dos planos a 2 ou 3 anos, todos os nossos líderes trabalham, de forma intensa e diária, para garantir os mais elevados padrões de Segurança de trabalho nas nossas fábricas e no envolvimento de todos, para que, do resultado das nossas atividades, possamos “ ser permanentemente desejados pelos nossos clientes”.

PL: Que diferenças sentiu entre trabalhar em Portugal e fora do país? O que se faz bem em Portugal e onde poderá haver melhorias?

RM: Embora tenha o privilégio de viajar todos os meses para Portugal, onde passo pelo menos dois dias, vivo fora do nosso País desde 1998. Sendo que a Sodecia está organizada em 4 regiões (Europa, América do Sul, América do Norte e Ásia), faço questão de passar mensalmente uma semana em cada região, num total de 11 países.

Quando se vive muitos anos fora de Portugal, aprende-se a ter saudade do nosso País. Este é um sentimento único. Temos muitas coisas boas em Portugal, que infelizmente não valorizamos e, analisando em perspetiva, verificamos que, nos últimos 20 anos, assistimos a evoluções importantes em Portugal ao nível do sistema da Saúde Pública, do ensino geral e das infra-estruturas de comunicação.

Em Portugal temos ainda uma tendência muito grande para a “justificação”. Tentamos, permanentemente, encontrar culpados para os problemas que nós próprios criamos. Temos dificuldade em assumir, com determinação, as responsabilidades e respetivas consequências. Somos exageradamente sensíveis e emocionais, pelo que, nem sempre, impera a racionalidade em muitas das decisões. Aparentemente, sentimos algum conforto quando vestimos o papel de “ vítimas”. Convivemos muito mal com o “Não”. Para sobrevivermos na “guerra global”, precisamos de aumentar substancialmente o nosso desempenho. É fundamental definirmos novos patamares de exigência individual e coletiva em todos os setores, independentemente de serem públicos ou privados.

PL: Com a crise que Portugal atravessa, sente ou não que a imagem que têm de Portugal e dos portugueses no exterior mudou? Em que sentido?

RM: Há já algum tempo que temos vindo a preencher, com regularidade, as notícias da imprensa Mundial, nem sempre pelos melhores motivos. A nossa empresa tem atividades em 11 países, num total de 32 diferentes localidades, com mais de 5.000 pessoas. Sendo uma empresa Portuguesa, é natural que os vários agentes económicos demonstrem preocupação em associar o risco do País com o risco da empresa. Os nossos clientes, os Construtores Automóveis, avaliaram, de forma cuidada, os potenciais riscos de contágio dos problemas da economia portuguesa na estrutura económica e financeira da Sodecia. Felizmente, a solidez na estrutura do Balanço da Sodecia conseguiu oferecer garantias suficientes aos nossos clientes, a fim de evitar impactos nos projetos de desenvolvimento.

PL: Quais os planos da empresa a curto prazo, a nível internacional?

RM: Ao longo dos últimos 15 anos, a Sodecia tem vindo a manter uma política consistente de investimento, por forma a suportar os planos de melhoria de competitividade e de crescimento, tanto pelo efeito orgânico como pela via de aquisições.

Entre 2014 e 2015, a Sodecia irá investir 100 Milhões de euros na construção de novas fábricas, na ampliação e na modernização das já existentes e no lançamento de novos processos tecnológicos. Um aumento de aproximadamente 30% em relação à média dos últimos 3 anos.

Recentemente assumimos compromissos com alguns dos nossos clientes para instalar capacidade industrial no México e na Tailândia. A nova fábrica no México vai localizar-se em Ramos Arizpe, estando o início de atividade previsto para o último trimestre de 2015. No caso da Tailândia, formámos uma Joint-Venture com um parceiro local, em que cada uma das partes participa a 50%. A construção da nova unidade em Rayong está prevista para o 2º semestre de 2014 e o início da atividade industrial para o 2º trimestre de 2016.

PL: E em Portugal, há projectos específicos em desenvolvimento? O novo modelo que a Autoeuropa vai produzir poderá ter algum impacto na SODECIA? 

RM: Em 2013, Portugal representou apenas 2% das vendas consolidadas do Grupo. No entanto, este valor vai aumentar no 2º semestre de 2014, uma vez que estamos a investir cerca de 5 Milhões de Euros na Unidade da Guarda, por forma a produzir produtos de elevada complexidade técnica para as transmissões da Daimler. Toda a produção será exportada para a Alemanha e só este projeto irá representar um aumento de vendas de cerca 14 milhões de euros/ano para a Unidade da Guarda.

Aproveito este momento para felicitar o Senhor Eng.º António de Melo Pires, a sua equipa e todos os trabalhadores da Autoeuropa, pelas recentes conquistas em receberem novos projetos e pelo consequente aumento de volume. 

O Grupo VW é um cliente muito importante para a Sodecia, com um peso de 19% nas vendas consolidadas. Embora a grande concentração de negócios ainda esteja na Alemanha, seguida da China, trabalhamos para a VW em vários países no Mundo e temos vindo a manter conversações e negociações com a VW, no sentido de entendermos em que projetos a VW pretende o envolvimento da Sodecia. 

Entrevista conduzida pelo SOL.

*O Best Leader Awards distingue anualmente as personalidades que se destacam enquanto líderes em várias áreas. Sob o mote “o reconhecimento dos líderes que inspiram a sociedade”, esta iniciativa levada a cabo pela Leadership Business Consulting, tem como principal critério o impacto positivo que os profissionais têm nas organizações onde trabalham e nas pessoas que lideram. Os nomeados e galardoados são selecionados e avaliados de acordo com um processo que conta com duas comissões, uma de nomeação, dirigida por José Lamego, e outra de avaliação, presidida por Eduardo Catroga. As categorias de atribuição dos prémios são: Líder na Internacionalização; Líder nas Novas Tecnologias; Líder na Administração Pública, Institutos e Universidades; Líder na Gestão de Empresa Pública; Líder Internacional; Líder na Gestão de Empresa Privada.

 


Rui-Lemos-Monteiro-SodeciaRui Lemos Monteiro é presidente da Sodecia, fornecedor especializado do ramo automóvel, trabalha com 11 países a nível mundial e gere 4.700 trabalhadores, o dobro de há quatro anos.O nascimento da SODECIA resulta da fusão da IACM (Industria de Acessórios e Componentes Metálicos) (criada em 1988) com a SIMG (Sociedade Industrial de Metalurgia da Guarda, criada em 1988) em 2001. Neste momento a sua presença global abrange nove países (África do Sul, Alemanha, Argentina, Brasil, Canadá, China, Estados Unidos, Índia e Portugal). Em 2005, e tendo sempre como objetivos disponibilizar soluções inovadoras, conceitos alternativos e novos mercados, criaram um centro tecnológico no Porto, permitindo que a empresa trabalhe em parceria com a maioria das OEM”S. Para facilitar a exportação, instalaram fábricas na Europa e América do Sul facilitando assim a exportação para vários países, nomeadamente para os EUA, Argentina, Alemanha, Espanha e França.  Em 2006, foi fundada uma unidade fabril na Argentina - Buenos Aires, reforçando a sua capacidade de resposta aos clientes. No mesmo ano, a empresa sentiu a necessidade de proceder à aquisição de uma empresa líder no mercado das ferramentas, “A Rigorosa”, permitindo o desenvolvimento de “know-how” interno e o desenvolvendo de novas tecnologias na área da estampagem. Como resultado desta aquisição, os protótipos passaram a ser mais funcionais, passando a haver uma resposta mais rápida ao cliente. Continuando a sua expansão na América do Sul, a o Grupo Sodecia adquiriu em 2008 a SCM, sendo um dos maiores fornecedores de produtos estampados, localizada em Sete Lagoas - Minas Gerais – Brasil, formando a Sodecia Minas Gerais - indústria de componentes automotivos, Lda. Tendo como prioridade uma melhor atuação no mercado, a nível de engenharia a SODECIA , desenvolveu parcerias com as empresas Progress-Werk Oberkirch AG - Alemanha, VOLKE - Alemanha, MULTIMATIC - Canadá e L&W – EUA. Em 2009, foi adquirido 50% do capital social do Grupo FSG Automotive, na Alemanha. Este Grupo faz a produção de componentes de elevada precisão para sistemas de transmissões e sistemas de travões, nomeadamente, alavancas de velocidades, garfos de selecção e calços para travões. A tecnologia de produção aplicada vai desde corte fino a soldadura a laser, montagem e testes funcionais em linha. Investiu cerca de 20 milhões de euros numa fábrica na China. Uma fábrica com duzentos trabalhadores, situada na cidade portuária de Dalian, estima que em 2013 tem uma faturação de quase 30 milhões de euros. Trata-se também do maior investimento feito na Ásia pela Sodecia. A SODECIA, a empresa emprega cerca de 5500 pessoas (mais de o dobro de há apenas quatro anos) e em 2012 as vendas somaram 600 milhões de euros.