Tal Ben-Shahar: A aposta na felicidade numa organização revela-se um bom investimento

Tal Ben-Shahar: A aposta na felicidade numa organização revela-se um bom investimento

Tal Ben-Shahar, conhecido especialista em Psicologia da Liderança e Psicologia Positiva de Harvard, que está nesta semana em Portugal, referiu ao Portal da Liderança que "O stress é motivador e pode mesmo ajudar a desenvolver elevados níveis de resiliência", desde que...

Portal da Liderança (PL): Devem os líderes ter na agenda das suas prioridades o desenvolvimento e trabalho da felicidade nas suas organizações?

Tal Ben-Shahar (TB): Sem dúvida. Temos hoje cada vez mais estudos que comprovam que, se aumentarmos os níveis de felicidade dos colaboradores, mesmo que apenas um pouco, isso causará: aumento na criatividade, comprometimento e motivação, aumento significativo do trabalho em equipa e redução da saída de colaboradores da empresa. Assim, a conclusão-chave a que se chega é que a aposta na felicidade de uma dada organização se revela um muito bom investimento. 

PL: Como podem os líderes gerir elevados níveis de stress, hoje considerados quase “normais” em quem exerce o cargo?

TB: Primeiro que tudo, é importante perceber que o stress não é totalmente mau. O stress também é motivador e pode mesmo ajudar a desenvolver elevados níveis de resiliência. A chave para lidar com o stress é que, para que este seja uma mais-valia, tem de ser complementado logo a seguir com períodos de recuperação. Temos a capacidade inata de lidar com o stress, desde que tenhamos períodos de recuperação. Há 5000 anos atrás, lidávamos com o stress de sermos perseguidos por um leão. Hoje lidamos com o stress da chegada da data de publicação dos resultados do trimestre. A diferença é que há 5000 anos, ou mesmo há 50 anos atrás, tínhamos tempo para recuperar depois do stress passado, enquanto que hoje estamos sempre sobre stress e em luta contra o tempo. Recuperar significa tirar alguns minutos aqui e ali durante o dia para trocar umas palavras, tomar um café ou mesmo para ir ao ginásio. Significa ter um dia livre pelo menos uma vez por semana e períodos mais longos, como uma semana, um par de vezes ou mais durante o ano. Quando há espaço para a recuperação, o stress torna-se muito mais útil do que prejudicial. 

PL: Que conselhos deixa aos líderes para serem mais positivos e inspiradores e fazerem a diferença na criação de organizações positivas e felizes?

TB: Ajudem os vossos colaboradores a identificar e a explorar as suas áreas mais fortes. Aqueles que sabem quais são e as desenvolvem, são pessoas mais felizes, mais motivadas e mais bem-sucedidas no seu local de trabalho.

Dê-lhes o que a professora de Harvard, Amy Edmondson, chama Psicologia de Segurança, que mais não é que confiar que nenhum membro da equipa seria envergonhado ou punido se falasse, pedisse ajuda ou falhasse numa tarefa específica. 

Quando o líder da equipa cria um ambiente psicologicamente seguro, quando os seus membros se sentem confortáveis em “falharem” e em partilhar e discutir os seus erros, todos os membros da equipa podem aprender e melhorar. Por oposição, quando as falhas são escondidas, é muito menos provável que haja alguma aprendizagem, mas sim que os erros cometidos se repitam e em maior escala.

Alicie os seus colaboradores a praticarem atividade física regularmente. A prática regular de exercício físico, mesmo que apenas três vezes por semana, com 30 minutos cada, produz o mesmo efeito que uma forte medicação psiquiátrica. O ambiente de trabalho na sua organização será muito mais feliz, mais ativo e menos negativo, caso os seus colaboradores sigam uma prática física regular.

Encoraje os seus colaboradores a praticarem pequenas paragem durante o dia e a terem, deste modo, tempo para recuperarem quando estiverem em suas casas. Estar sempre “ligado” não é de utilidade nem para o colaborador nem para a organização. Mais não é, necessariamente, melhor. Todos precisamos de recarregar as nossas baterias psicológicas. De facto, a criatividade e a produtividade diminuem quando não existe tempo para recuperar ao longo do dia (quinze minutos de paragem a cada hora ou duas), da semana (pelo menos um dia de pausa), e do ano (ter verdadeiramente férias a cada seis a doze meses).

PL: O que a sua vida mais lhe ensinou sobre liderança?

TB: Observar outros líderes, tenham eles sido meus líderes ou não. Livros que li sobre alguns líderes, e aprender com eles sobre o que estão a fazer bem feito. Seguidamente, refletindo sobre a minha vida, perguntar o que posso aprender com os meus erros e, não menos importante, o que posso aprender com o que fiz bem enquanto líder.

 


Tal-Ben-Shahar-Lideranca-1Tal Ben-Shahar é escritor, consultor e professor na Universidade de Harvard, onde lecciona o concorrido curso de Psicologia Positiva, e um popular curso de Psicologia da Liderança. Dois cursos altamente populares entre os executivos (têm mais de 1400 alunos inscritos anualmente). Campeão nacional de squash de Israel, e várias vezes campeão universitário da modalidade nos Estados Unidos, desenvolveu a sua carreira académica em Harvard, onde se formou em Psicologia e Filosofia, e onde se doutorou em Comportamento Organizacional. Veterano das Forças Armadas Israelitas, trabalha na organização pacifista David Project, é consultor de várias multinacionais e dá formação em áreas como Felicidade, Auto-estima, Definição de Objectivos e Liderança.