Jorge Pena: O nosso desafio reside em continuar com o processo de internacionalização

Jorge Pena: O nosso desafio reside em continuar com o processo de internacionalização

A Sovena, detida pelo grupo Nutrinveste e detentora da marca Oliveira da Serra, é uma das maiores empresas do mundo no segmento do azeite e o maior embalador de óleos e azeites da Península Ibérica, realizando cerca de 80% das vendas no exterior. Jorge Pena, responsável de strategy and business development na empresa, afirma que mercados como a Índia e a China “podem despontar em dois ou cinco anos”. O responsável de origem espanhola ressalva no entanto que a expansão “tem de ser feita sem esquecermos a nossa posição em países como Portugal, Espanha, Brasil ou EUA, que hoje são os nossos principais mercados e onde a concorrência é muito forte”. 

A Sovena é uma das maiores empresas do mundo no negócio do azeite. Como se traduz em números e o que foi decisivo para chegar a esta posição?
É uma das maiores empresas do mundo no negócio de azeites e é o maior embalador de óleos e azeites da Península Ibérica. Para tal contribuem de modo determinante as unidades industriais localizadas em Portugal e em Espanha, nomeadamente no Barreiro, Almada, Sevilha e Andujar. O grupo registou em 2014 uma faturação de mais de 1,1 mil milhões de euros, sendo expectáveis 1,4 mil milhões este ano, tendo registado vendas de mais de 200 milhões de litros de azeite. Para além de fornecer marcas próprias às maiores cadeias de distribuição mundiais, detém marcas como a Oliveira da Serra – que tem liderado a inovação nos azeites em Portugal, e que se consagrou desde 2009 como a líder no consumo dos lares portugueses, e desde 2011 como marca líder absoluta do mercado dos azeites com uma quota de 21%. Referência ainda para a marca Andorinha, que desde 2004 disputa a liderança nos principais Estados brasileiros e atualmente tem 12% de quota de mercado neste país, ocupando a segunda posição; mas também para a marca Olivari, que apresenta potencialidades de crescimento muito significativas nos EUA. Finalmente, importa sublinhar a liderança também em Espanha através do fornecimento à grande distribuidora Mercadona da marca própria Hacendado.

Quais as grandes medidas tomadas pela liderança que destacaria no percurso da empresa?
Os últimos anos, e em particular a última década, têm sido de desenvolvimento no que se refere ao crescimento a nível internacional. É com orgulho que, olhando apenas para há dez anos, verificamos que passámos de um grupo que tinha cerca de 80% das suas vendas em Portugal para a situação atual, em que invertemos a posição e vendemos cerca de 80% fora do país e apenas cerca de 20% a nível interno. E será importante referir que este crescimento tem sido gradual, feito de pequenas e constantes conquistas. Neste contexto destaco dois momentos: a aquisição dos ativos da Agribética, em 2002, em Sevilha, que, para além de ser o primeiro passo para a internacionalização do grupo, permitiu a implantação num dos mais importantes mercados de azeite; num segundo momento, a aquisição em 2005 da fábrica nos EUA, o maior país consumidor não produtor de azeite.

Para quantos mercados exporta? Existem planos de alargamento para novos destinos?
Atualmente a Sovena exporta para mais de 70 países. No entanto, enquanto empresa com forte componente internacional, considera que há sempre novos mercados a abordar e novas oportunidades para explorar. A Sovena é uma empresa familiar com tradição exportadora e que está presente fisicamente em nove países – Portugal, Espanha, EUA, Brasil, Angola, Tunísia, Marrocos, Chile e Hong Kong. Esta presença permite ao grupo acrescentar valor a estes mercados, uma vez que conhece e consegue adaptar-se às suas realidades culturais e necessidades reais. No entanto, novos destinos são sempre uma possibilidade, uma vez que a missão da Sovena passa por levar o nosso azeite aos quatro cantos do mundo, com a assinatura “Olive Oil for the World”.

Qual o peso dos mercados internacionais na faturação da empresa? Em relação ao Brasil e Angola – qual a importância e quais os planos da empresa para estes dois mercados?
Portugal representa cerca de 20% da faturação e a componente internacional é já de 80% do negócio. A expansão geográfica tem assumido uma relevância cada vez maior para as marcas Oliveira da Serra, Andorinha, no Brasil, e Olivari, nos EUA, mas importa sublinhar também o peso, em Espanha, da marca própria Hacendado na cadeia de distribuição Mercadona. A exportação tem registado índices de crescimento anual de dois dígitos, e a Oliveira da Serra está presente em cada vez mais mercados. Inicialmente mais orientada para o “mercado da saudade” e PALOP - Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, nomeadamente Angola, a Oliveira da Serra está mais recentemente presente em mercados exigentes como a Alemanha, Bélgica, Inglaterra, entre outros. Quanto ao Brasil, a aposta na marca Andorinha visa naturalmente atingir a liderança.

Qual a categoria de produto com melhores resultados?
A Sovena atua nas áreas de trituração de sementes oleaginosas e respetiva refinação; biodiesel; loteamento e embalamento de azeites, preparação e embalamento de azeitona de mesa, embalamento de óleos vegetais; e a exploração de olival, através de uma parceria com a Elaia, que já permitiu a plantação/exploração em Portugal do maior olival do mundo, com mais de 10 mil hectares de área e 10 milhões de oliveiras (uma por cada português). Todos os produtos são importantes para os resultados da Sovena, mas é evidente que o grupo tem uma aposta estratégica no desenvolvimento do negócio do azeite.

De que forma a inovação é incorporada na estratégia da Sovena?
Num mundo tão competitivo como este em que vivemos não acreditamos que seja possível as empresas sobreviverem sem apostarem em inovação e esse tem sido sempre um foco importante na Sovena. Reflexo desta aposta é o reconhecimento nacional e internacional que temos recebido na área da inovação. A Oliveira da Serra tem sido um excelente exemplo desta aposta, com a embalagem “LEVE” e a tampa “pop up”, tendo esta segunda vencido o prémio de inovação (Produto do Ano 2009). Apostamos ainda na diferenciação dos nossos produtos, como é o caso do mais recente lançamento, o Spray Oliveira da Serra Q.B., que é ideal para temperar à mesa, decorar ou finalizar pratos, dando um toque fresco às refeições do dia a dia; o Oliveirinha, um azeite virgem extra muito suave e delicado, criado cuidadosamente para responder às necessidades dos mais pequenos. Ou mesmo o Óleo Fula, que reduz os cheiros libertados durante a fritura porque inclui na sua formulação óleos essenciais de ervas aromáticas, destacando o sabor natural dos alimentos. Importa salientar que a Sovena, através da sua parceria com a Elaia, continua a revolucionar a plantação do olival português em área de regadio (Alqueva), com recurso às mais sofisticadas soluções tecnológicas.

Quais os aspetos que destacaria na liderança do grupo português, face outras culturas de liderança que conhece?
Destaco dois conceitos, com os quais me identifico plenamente e que são parte do ADN da empresa e foram fundamentais para construir o que é hoje o grupo Sovena. O primeiro é o conceito “glocal”. A Sovena define-se como uma empresa “glocal” que partilha uma visão e uma estratégia “global” adaptando-a de forma “local”. Este conceito reflete a forma como a nossa aproximação aos novos mercados é feita, através da adaptação às condições específicas dos mesmos e com o objetivo de maximizar a criação de valor em tudo aquilo que fazemos: marca própria vs. marca de distribuição, estrutura própria vs. estrutura terceirizada; mercado de exportação vs. operação doméstica, etc. O segundo conceito que destaco é o de “parceria”. Foram os diversos acordos estratégicos realizados com diferentes intervenientes ao longo da cadeia de valor que serviram de pilar à construção do grupo Sovena. A nossa capacidade de adaptabilidade e de encontrar soluções mutuamente vantajosas com parceiros estratégicos também nos permitiu avanços de qualidade no nosso negócio, e será, sem dúvida, um dos pilares que irá sustentar no futuro o crescimento do grupo.

Como decorreu 2015 por comparação com 2014?
O ano de 2015 está a correr dentro das expetativas. Importa salientar que viemos de um ano (2014) que foi bastante positivo para a atividade da Sovena, quer a nível das operações industriais, com a consolidação das suas operações na Península Ibérica, quer nas exportações e presença nos mercados internacionais. A marca Oliveira da Serra garantiu, pelo quarto ano consecutivo, a liderança do mercado português, tanto em volume como em valor, tendo alcançado 21% de quota em volume. Tivemos ainda um ano em que foram conquistados os mais prestigiados prémios e através dos quais foi reconhecida a qualidade do nosso azeite e das nossas instalações. Destaco o prémio Mário Solinas, onde fomos distinguidos como o melhor azeite do mundo na categoria frutado verde ligeiro, e o 1.º lugar no World’s Best Olive Oil Mills. Ou seja, ganhámos o título de melhor lagar do mundo e de melhor produtor de azeite do mundo em dois anos consecutivos. A nível internacional, refira-se que a marca Olivari tem registado um forte crescimento nos EUA; as vendas da Andorinha no Brasil têm vindo a acompanhar o crescimento do mercado brasileiro, consolidando a posição de segunda marca; e, por último, o forte crescimento na exportação de marcas private label (marcas próprias), nomeadamente nos mercados europeus e asiático. Relativamente ao projeto agrícola, 2014 e 2015 foram anos de crescimento, com a plantação de cerca de mais 2 mil hectares de olival.

Qual é o próximo grande desafio?
O nosso desafio reside em continuar com o processo de internacionalização. Países como a Índia e a China são mercados que podem despontar em dois ou cinco anos mas que ainda têm consumos globais baixos, contudo com excelentes perspetivas futuras. A expansão tem de ser feita sem esquecermos a nossa posição em países como Portugal, Espanha, Brasil ou EUA, que hoje são os nossos principais mercados e onde a concorrência é muito forte.

E para si, enquanto líder?
Será ajudar a preparar a Sovena para este futuro.

Como define o seu estilo de liderança?
Entendo que a liderança dever ser orientada para a criação de valor com todos os nossos stakeholders (consumidores, fornecedores, colaboradores, acionistas e sociedade) como forma de garantir a sustentabilidade do negócio. Este objetivo só pode ser alcançado pelas pessoas, e é por isso que liderar é a capacidade de desenvolver uma equipa de elevada performance, com uma visão clara e alinhada que partilhe e trabalhe tendo por base princípios de excelência e uma forte orientação para resultados e criação de valor. Finalmente, entendo a liderança como a arte da adaptabilidade, de encontrar a melhor resposta perante cada circunstância concreta. Como dizia Darwin, os sobreviventes não são os mais fortes, mas aqueles que melhor se adaptam ao meio envolvente.

23-12-2015

Armanda Alexandre/Portal da Liderança