Dulce Chilundo: As instituições não têm direções ou departamentos de TIC

Dulce Chilundo: As instituições não têm direções ou departamentos de TIC

A líder do moçambicano INTIC refere que a área das tecnologias de informação e comunicação (TIC) “devia ser encarada como prioritária no processo de planificação em toda a administração pública” do país africano.

Com um percurso profissional dedicado à causa pública moçambicana, Dulce Chilundo, diretora-geral do INTIC - Instituto Nacional de Tecnologias de Informação e Comunicação, falou com o Portal da Liderança sobre os desafios enfrentados pela entidade que tem como função coordenar e regular as tecnologias de informação e comunicação (TIC) em Moçambique.
Desde as melhorias no próprio INTIC – tutelado pelo ministro que superintende a área de Ciência e Tecnologia, Jorge Olívio Penicela Nhambiu – à capacitação da função pública na utilização das TIC, passando pelos constrangimentos financeiros e de mão de obra qualificada, são várias as frentes de trabalho do instituto liderado pela executiva. Mas, como sublinha a própria, “não nos sentamos em cima das dificuldades a chorar”, pelo que o INTIC está a desenvolver e a implementar várias iniciativas no sentido de tornar a administração pública, e Moçambique, mais TIC “friendly”.

Está há cerca de três anos à frente do INTIC – quais as medidas levadas a cabo que queira destacar?
Nós, a direção-geral, concentrámo-nos em primeiro lugar na implementação da estrutura orgânica do INTIC, que é uma instituição recente. Organizámos as direções das áreas operacionais e as respetivas chefias intermédias. Mas não foi fácil e continua um trabalho por concluir. 
Como a área das TIC é muito especializada – não abunda no mercado mão de obra com as necessárias qualificações e o setor público não é competitivo para atrair os poucos técnicos que existem – enfrentamos também o problema de recrutamento. Mesmo com concursos públicos, escasseiam técnicos de TIC, e o Estado não é competitivo para disputar o mercado. Pelo contrário, fomos perdendo os poucos que vinham trabalhando no âmbito de projetos à medida que estes chegavam ao fim. Mesmo assim, conseguimos preencher minimamente o nosso quadro de pessoal; e já agora permita-me felicitar os poucos técnicos que temos no INTIC pelo grande esforço e sacrifício que têm feito para produzir as melhorias que se registam neste momento no funcionamento da Rede Electrónica do Governo (GovNet) e de outros tantos serviços de assistência e assessoria ao setor público no âmbito do Governo Electrónico
Até agora falei de questões organizacionais, que era necessário resolver para se poder produzir as melhorias que se pretendem, com particular incidência nas comunicações do Governo e nos vários serviços eletrónicos prestados ao cidadão através da intranet e da internet. Digamos que o INTIC tem esta grande particularidade, que poucos entendem – de transversalidade, que obriga a que tenhamos de trabalhar com toda a administração pública, em matéria de modernização dos processos produtivos; tal é o caso do e-BAÚ [Plataforma Integrada para Prestação de Serviços aos Cidadãos] e do Centro Nacional de Dados, para onde todas as instituições deverão mandar os sistemas de informação. 
Para terminar, e falando de medidas, uma das vitórias foi podermos ter instalações próprias. Não resolvemos totalmente, mas minimizámos. Outra iniciativa importante tem a ver com o ambiente governamental e TIC no país, nomeadamente a elaboração da Lei das Transacções Electrónicas, que já foi submetida à Assembleia da República; e a revisão da Política de Informática. Estamos a elaborar um plano diretor de TIC para toda a administração pública. Estamos a elaborar também o plano de desenvolvimento institucional do INTIC, assim como a realizar uma auditoria técnica à Rede Electrónica do Governo para detetar os nós de estrangulamento e projetarmos uma intranet eficaz e eficiente para a administração pública.

Quais as principais dificuldades com que se depara o INTIC de momento?
Primeiro é preciso frisar que não nos sentamos em cima das dificuldades a chorar. Passamos por muitas privações e provações próprias de um setor que é muito pouco conhecido e entendido, com todas as consequências em cadeia, que partem do processo de planificação de recursos. As TIC são um instrumento de trabalho indispensável para tudo, incluindo para gerir o próprio dinheiro de que precisamos para as implementar. Por isso esta área devia ser encarada como prioritária no processo de planificação em toda a administração
Segundo, as TIC são muito caras, mas nem por isso se pode descurar a necessidade de dotar o INTIC dos recursos de que necessita para poder desempenhar o seu papel, nomeadamente de impulsionar o número de processos de modernização da administração pública através das TIC, mas isto não está a acontecer. Não tem dinheiro o país, não tem dinheiro o INTIC. 
Terceiro, todas as instituições deviam incluir a componente TIC como prioridade nos respetivos processos internos de planificação. Quando isto não acontece é um grande problema para nós porque depois tudo converge no INTIC. As instituições não têm direções ou departamentos de TIC. Não formam o pessoal em TIC e, sempre que surjam pequenos problemas, é o INTIC que é chamado para resolver. Mas os técnicos do INTIC não são para este tipo de trabalho, são para pensar e delinear soluções e estratégias do setor.
Depois, surge também o problema de atração de técnicos qualificados para a administração pública e a sua retenção. Sendo as TIC o principal instrumento de modernização, para a sua implementação devia o Governo estabelecer incentivos e uma tabela salarial remuneratória aceitável. É que até um médico, se não dominar a componente TIC, não estará completo, porque precisa delas para trabalhar.
Finalmente, existe também a questão de liderança. A realidade mostra que, onde as TIC foram bem implementadas houve sempre uma forte liderança em níveis mais altos e influenciou bastante os padrões de governação e desenvolvimento. Mesmo na história recente de Política de Informática verificamos que o nosso país foi uma grande referência internacional e se produziram grandes resultados quando existia um fórum intergovernamental chamado Comissão para a Política de Informática. A falta de uma forte coordenação, ao nível mais alto, resulta na proliferação e dispersão de iniciativas e recursos de TIC, tornando-os, que por si só já são caros, muito mais caros ainda. A falta de um mecanismo de coordenação nesse nível redunda numa enorme dificuldade de funcionamento do INTIC por causa do carácter particularmente transversal das TIC na administração pública. É, no entanto, nossa expectativa que o processo em curso, de revisão da Política de Informática, venha ajudar a estabelecer um mecanismo mais forte de coordenação.

Que iniciativas tem levado a cabo ou tem em curso no sentido de colmatar essas dificuldades?
Conforme referi, não sentamos em cima de problemas a chorar, por isso estamos a desenvolver as seguintes iniciativas: para o melhoramento de coordenação do setor estamos a rever a Política de Informática e a elaborar o plano diretor de TIC para toda a administração pública; para a capacitação do INTIC estamos a elaborar um plano de desenvolvimento institucional; para melhorar o desempenho das comunicações do Governo está em curso uma auditoria técnica à Rede Electrónica; para a capacitação da função pública no uso das TIC estamos a formar técnicos de redes de computadores com certificação internacional nas províncias; para o melhoramento de segurança dos sistemas de informação do Governo estamos a trabalhar no plano de negócios do Centro Nacional de Dados do Governo; para a mobilização de fontes alternativas de financiamento do setor de TIC estamos a negociar, com parceiros de cooperação, a possibilidade de financiar as novas iniciativas com destaque para a interoperabilidade dos sistemas de informação do Governo.

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Quais são os grandes objetivos a curto e médio prazo?

Pretendemos alcançar os seguintes grandes objetivos: operacionalizar o Centro Nacional de Dados; implementar o mecanismo de interoperabilidade dos sistemas de informação do Governo; implementar a Lei das Transacções Electrónicas; otimizar as comunicações do Governo através do melhoramento da plataforma comum; dotar as províncias de técnicos de TIC, em particular de redes de computadores para melhor resolverem os problemas que apoquentam as províncias; tornar as páginas do Governo mais atrativas e informativas.

Uma vez que já foi docente, quais são do seu ponto de vista as principais áreas, em termos de formação académica e técnica, que o país precisa de trabalhar no que diz respeito às TIC?
Entre as principais áreas de formação que neste momento são importantes podemos destacar a administração de redes de computadores, já iniciada nas províncias; a gestão de conteúdos; a manutenção e reparação de computadores; a segurança de informação; e o desenvolvimento de aplicações.

Tem feito carreira na administração pública, em cargos de destaque. Como é ser líder no feminino? Tem de “mostrar serviço”, ou pelo contrário, tem sido uma mais-valia?
No nosso país, as mulheres já se emanciparam há muito tempo e, em termos de saber fazer, não vejo a diferença entre ser mulher ou ser homem. Mas é muito difícil falar de mim própria. Talvez o meu colega Augusto Nunes [diretor-geral adjunto] tivesse algo a dizer… Tanto ele como eu estamos livres de qualquer preconceito. Nem eu sou feminista nem ele é machista. O meio profissional só veio complementar o modelo educacional que recebi na formação formal, assim como a que recebi dos meus pais, no sentido mais amplo de família. Esse modelo é totalmente diferente do de hoje, em muitos aspetos. Toda a minha trajetória foi feita com muito trabalho e muita luta. Nada foi facilitado. Mantenho esse espírito até hoje. Portanto, por o que disse ao longo desta entrevista, dá para ter uma ideia do que é o INTIC, sobretudo pelo seu carácter transversal. Tem muitos problemas internos e externos que tive de resolver e muitos outros que ainda tenho de resolver. Para isso é, de facto, muito importante o conhecimento que acumulei ao longo de todo o percurso que fiz na administração pública. A transversalidade do setor das TIC obriga a que tenhamos de lidar com todos, mas, sublinho, não tem sido fácil.

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Qual foi a maior conquista no seu percurso profissional?

Foi quando trabalhei na área humanitária, onde as decisões são tomadas em tempo útil e as ações em tempo real, sob o risco de perigar a vida de milhões de pessoas. Nestes casos de “missões críticas” não só funciona o profissionalismo como também a liderança em todos aspetos. É muito importante ter os processos, a informação em tempo útil para a devida análise e tomada de decisão. O sentimento é de satisfação e de missão cumprida! Mas, mais do que isso, é preciso saber estar e ser muito ponderada em todos os atos. 

Além das solicitações que o atual cargo envolve, dedica ainda o seu tempo a iniciativas na qualidade de esposa do governador da província de Niassa, Arlindo Chilundo – a causa pública é a sua vida?
É sim... Acho que a nossa missão na Terra é fazer bem ao próximo e contribuir para o bem-estar de todos. Temos de, afincadamente, trabalhar para alcançarmos este objetivo. Programo-me, e sempre que posso desloco-me a Lichinga [capital da província] para cumprir com as minhas atividades sociais. Em Lichinga tenho uma parte de mim, social e profissional. Em Maputo divido-me entre o INTIC e os filhos. Ao longo da vida temos trajetórias a seguir. O que ajuda é a formação formal e profissional que tive, assim como a vida profissional que levei ao longo destes anos de serviço: moldou-me para enfrentar qualquer obstáculo em qualquer circunstância. Mas também tenho de dizer que, em abono da verdade, tenho tido a sorte de ter colaboradores que reputo muita consideração.

Que conselhos daria às jovens moçambicanas que queiram ter um trajeto profissional como o seu?
É uma resposta difícil de dar nos dias que correm. Daria muitos, mas dou só um, para que fique bem interiorizado – o amanhã prepara-se hoje. Estudem e, no momento de escolherem a carreira, não hesitem em abraçar as TIC porque têm futuro e podem trabalhar em qualquer área e em qualquer parte do mundo. Desde que se seja objetivo, dedicado e honesto. Do trabalho se faz o homem!   


24-06-2016



Armanda Alexandre/Portal da Liderança

Dulce Fernanda Mendonça Cabral Chilundo lidera o moçambicano INTIC - Instituto Nacional de Tecnologias de Informação e Comunicação. Antes exerceu o cargo de diretora do Centro Nacional Operativo de Emergência (CENOE) de Moçambique, com a responsabilidade de coordenação multissetorial, Governo, sistema das Nações Unidas, ONG, bem como a gestão de informação, monitoria e avaliação a nível nacional.
Natural da cidade de Maputo, licenciou-se em Ciências de Computação pela University of St. Catherine, Minnesota, nos EUA, e tem um mestrado em Gestão de Sistemas de Informação pela australiana Edith Cowan University.
Funcionária do Estado moçambicano há mais de 24 anos, exerceu várias funções técnicas e executivas, das quais se destacam as de diretora, conselheira, chefe de departamento, coordenadora, gestora, analista e gestora de informação, bem como a docência.
A executiva teve a seu cargo a gestão de operações de emergência, onde coordenou e geriu equipas para mapeamento e georreferenciação das áreas de risco e vulneráveis a desastres naturais (como ciclones, cheias, secas, sismos, queimadas e ventos fortes). Exerceu funções de gestora do Programa Global de Identificação de Risco (em que Moçambique faz parte dos quatro países a nível mundial selecionados como vulneráveis às calamidades naturais), e é colaboradora ativa da Plataforma Global na área de RRD (redução de riscos de desastres) a nível da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral) e do UNISDR (Gabinete das Nações Unidas para a Redução de Riscos de Desastres). Liderou em Moçambique processos de formação e capacitação em gestão de informação, emergência, redução de risco, informática e monitoria.
Para além da docência, Dulce Chilundo passou pelo Ministério da Agricultura, onde liderou uma equipa de integração, gestão de informação para a monitoria e avaliação institucional, e coordenou um projeto de implantação e implementação, monitoria e avaliação através do sistema de informação de gestão (SIG).