Keitumetse Matthews: Mandela era apaixonado pela questão da paz, da reconciliação e do perdão

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Keitumetse Matthews: Mandela era apaixonado pela questão da paz, da reconciliação e do perdão
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Keitumetse Matthews, ex-Embaixadora de África do Sul em Portugal, refere em entrevista ao Portal da Liderança que "na África do Sul somos mesmo muito afortunadas por termos líderes mulheres que têm muita visibilidade e que são bons modelos para os nossos cidadãos". Sobre Mandela? – "Muito apaixonado pela questão da paz, da reconciliação e do perdão".

Portal da Liderança (PL): Qual o impacto que o legado de Nelson Mandela tem na sua liderança?

Keitumetse Matthews (KM): Sou muito afortunada pois o Sr. Mandela chamou-me primeiro a atenção quando era muito muito pequena, porque o meu avô era o reitor da universidade onde este estudou, universidade esta que educou muitos líderes de África. Assim, ele foi sempre uma presença constante na minha família desde que me lembro. Para mim, o seu legado é parte da minha vida. Não é algo novo e para além da minha vida que tenha de aprender. Os princípios que ele anuncia e em que acredita são os princípios com que cresci. Os meus pais e os meus avós ensinaram-me estes valores e princípios e penso que, nesta altura mais avançada na minha vida, o Sr. Mandela cristalizou estes princípios através das suas ações desde que deixou a prisão. Este é o impacto que tem na minha vida, é como que um crescimento contínuo.

PL: Como é que as pessoas, empresas e governos podem dar continuidade ao legado de Mandela? 

KM: Primeiro que tudo, acho que, enquanto pessoas, precisam em si mesmas de ter princípios e valores e, se os tiverem e os ligarem ao que Mandela acreditava e a como conduziu a sua vida, então levá-los-ão a todos os outros locais, seja às empresas onde trabalham, seja para o Parlamento ou mesmo enquanto líderes de um país. Se acreditar nesses valores, agirá de acordo com eles. É necessário percorrer um caminho e dar o testemunho. Penso que uma das formas de o fazer é ao tomar continuadamente ações que beneficiam os outros. Se fizer coisas que não têm impacto na vida das pessoas, não estará realmente a seguir os princípios de Mandela. Por exemplo, se for uma empresa que tem como parte dos seus lemas o investimento na sociedade, estará a seguir os princípios de Mandela, pois parte dos seus resultados precisam de mostrar que existe um investimento na valorização social, no que beneficia a todos, para além dos lucros ou das perdas. Isso é algo que penso que as pessoas e as empresas podem fazer. Sei de muitas empresas que realmente o fazem, em que fazem coisas que beneficiam os pobres, que melhoram as condições nas escolas, que dão computadores, que criam programas informáticos para crianças com autismo, como acontece com algumas empresas de programação que desenvolvem estes programas. Penso que isto é muito importante e que as empresas podem fazê-lo.
Acredito que os governos podem ter um tremendo impacto com as suas políticas, ao aplicarem os princípios de Mandela. Por exemplo, Mandela era muito apaixonado pela questão da paz, da reconciliação e do perdão, e acredito que os governos que creem nisso podem ter um papel decisivo em como veem o conflito por todo o mundo, qual o papel que podem tomar para ajudar a reduzir os conflitos, não com o fornecimento de armas, mas ao incentivarem ambas as partes ao diálogo contínuo. 

Penso que cada pessoa, com as suas capacidades pessoais, tem um papel a desempenhar. Os médicos que sabem que as pessoas que são pobres não podem pagar pelos melhores cuidados médicos mas lhos prestam gratuitamente, que tratam as pessoas sem pedir uma remuneração. Sei que há muitos médicos que o fazem na Índia e na África, que vão ter com os pobres dos mais pobres e os tratam o melhor que conseguem sem esperar um pagamento. Este é um dos mais importantes princípios de Mandela. É por isso que Mandela queria construir o Hospital para Crianças Nelson Mandela, em Joanesburgo, porque acreditava que as crianças devem ter os melhores cuidados médicos sem terem de pagar por eles.


Se fizer coisas que não têm impacto na vida das pessoas não estará realmente a seguir os princípios do Mandela.

PL: Como podemos potenciar as relações económicas entre África do Sul e Portugal? 

KM: Portugal e a África do Sul têm um relacionamento muito bom e que vem desde há muitos anos. A primeira embaixada do país em Portugal penso que data de 1933 e, com a libertação de 1994, este relacionamento continuou. Temos uma das maiores comunidades de portugueses fora de Portugal, que desempenha um papel decisivo na sociedade, considerando-se sul-africanos mas mantendo uma relação com Portugal. Acho que temos um bom ponto de crescimento.
Há muitos investidores interessados em investir em África aos quais digo que devem procurar os planos que a África do Sul tem para os próximos 30 anos, e que os poderão informar como deverão investir, em quê, quais os setores de interesse e, tendo nós uma sociedade transparente, poderão ver quais os projetos que estão disponíveis no site do país e às quais se poderão candidatar. 
Temos previstas visitas entre ministérios de Portugal e da África do Sul bem como entre chefias de Estado, que esperamos que tenham lugar e possam levar o nosso relacionamento a um nível ainda superior, mas penso que o relacionamento entre os dois países é muito, muito bom.

PL: Como vê a estabilidade e o crescimento económico de África do Sul nos próximos anos?

KM: Temos o que apelidamos de Plano Nacional, criado pelo ministro da presidência Trevor Manuel, que foi anteriormente o nosso ministro das finanças durante 10 anos, e cujo fim foi reunir várias comissões, cerca de 22, que olhassem para o país ao pormenor e vissem realmente o que estava a acontecer, onde se encontravam as necessidades, as lacunas, e cujo relatório produzido se revelou muito pormenorizado e preciso. Este acabou por ser a nossa impressão digital que, em conjunto com o plano para os próximos 30 anos, se relacionaram, sendo um sobre o crescimento económico e o outro sobre o plano nacional de desenvolvimento. Parte deste refere-se às iniciativas de desenvolvimento de infraestruturas, que é gerido pelo presidente. Este pretende expandir o país ao criar infraestruturas em áreas deficitárias no país ao nível das estradas, transportes, caminho de ferro, dando origem a ligações e plataformas intermodais por todo o país, uma vez que existem muitas lacunas entre as áreas rurais e as áreas urbanas. Muita da população negra reside muito longe dos seus locais de trabalho, devido à legislação durante o apartheid, e que estamos agora a tentar erradicar e trazer uma maior normalidade ao país, de modo a que a população viva onde quiser, viva perto dos seus locais de trabalho. Também estamos a tentar acabar com as lacunas entre os ricos e os pobres, mas isto é uma visão a longo, longo prazo que começámos a colocar em prática. Envolve cerca de 4 triliões de dólares a médio prazo e está repartida em várias fases. A primeira penso que envolve 8,400 biliões para os próximos três a quatro anos. Uma das empresas que irá integrar os trabalhos é portuguesa, ao nível do caminho de ferro, a Thales Portugal (1). Também existem planos para aumentar o número de polícias nas ruas para manterem o respeito à lei e a ordem e levarem as pessoas a sentirem-se mais seguras, e aumentar a cobertura de luz elétrica nas áreas urbanas e outras. Quando assumimos o poder, havia muito pouca cobertura elétrica no país e penso que agora esteja acima dos 90% e 74% em termos de água canalizada, mas tudo isto custa dinheiro e, como Portugal sabe, se não conseguirmos pagar as nossas dívidas, teremos sérias consequências. Por isso, estamos a fazer tudo de uma forma muito estruturada, a tentar gerir as nossas dívidas para garantir que não nos sobre-endividamos mas, ao mesmo tempo, a tentar diminuir a pobreza, mas é um trabalho de continuidade e não conseguimos mudar 400 anos de história em 20 anos, é impossível. 

PL: Quais os desafios que a liderança africana no feminino enfrenta nos dias que correm? 

KM: Acho que são os mesmos desafios que em todo o mundo. As mulheres ganham menos, trabalham 24 horas por dia, têm um trabalho fora de casa, a casa, têm o trabalho de casa, são mães, tratam dos outros, são profissionais, acho que é um problema mundial.
Na África do Sul somos muito afortunadas porque temos muitas mulheres muito fortes. Temos uma história de mulheres que foram ativistas e que voltaram para África do Sul e tomaram papéis de liderança. Quase metade do nosso gabinete é composto por mulheres, quatro ministras e vice-ministras, a governadora do nosso banco central (South African Reserve Bank) é uma mulher, Gill Marcus, a líder de um dos nossos maiores bancos é uma mulher, Maria Ramos (portuguesa), temos mulheres a liderar hospitais, a nossa ministra da administração interna é uma mulher, a nossa ministra dos assuntos dos veteranos militares e da defesa é uma mulher, etc. Temos percorrido um longo caminho no colocar de mulheres em cargos de liderança de grande responsabilidade. Mas, mais uma vez, é um trabalho de continuidade. É muito, muito difícil mudar as mentalidades e fazer com que as pessoas percebam que se pode ser bonita, inteligente e forte sendo uma mulher. Não precisamos de nos tornar homens, másculas ou mesmo de ter atributos masculinos de modo a podermos ser mulheres de sucesso. Precisamos sim de ser fortes, determinadas, educadas, coerentes e disciplinadas. Penso que é a chave para se ser um líder de sucesso, seja-se homem ou mulher, mas é óbvio que para as mulheres tem havido obstáculos, mas estes têm vindo a ser afastados. Quanto mais meninas virem mulheres fortes e líderes mulheres, mais o verão como sendo normal. 

Penso que na África do Sul somos mesmo muito afortunadas por termos líderes mulheres que têm muita visibilidade e que são bons modelos para os nossos cidadãos. Mas há muitos desafios, não é fácil ser-se mulher porque, como sempre, se se é mulher e mãe, esse é o seu papel principal e torna-se muito difícil ter o mesmo nível de apoio profissional que têm os homens, porque as pessoas esperam que os homens sejam bem-sucedidos, mas não esperam que as mulheres o sejam. As mulheres têm de lutar para serem bem-sucedidas, mas acho que estamos a chegar lá, somos muito fortes. Acho que sou um bom exemplo, assim como muitas outras mulheres, para mostrar aos nossos filhos que podem olhar para nós como modelos de conquista, que não precisam de olhar para fora, tudo começa em casa.


É muito muito difícil mudar as mentalidades e fazer com que as pessoas percebam que se pode ser bonita, inteligente e forte sendo uma mulher.


PL: Que testemunho de Mandela dá aos líderes da lusofonia? 

KM: Primeiro que tudo, uma das coisas mais importantes de Mandela é o amor. Ele tinha um coração que amava, era uma pessoa humilde mas muito régia, com uma postura muito imponente mas que mostrava que se pode ser rei e ser-se uma pessoa humilde, que se pode comunicar com os mais ricos e importantes e com os mais pobres e anónimos e dar-lhes o mesmo respeito, penso que isso é muito importante. Penso que o seu legado de reconciliação, paz e perdão é enorme. Perdoar a alguém é uma das maiores dádivas que se pode dar a alguém. Não custa dinheiro, custa-lhe é muito a si, mesmo fisicamente, tira muito de si mas também lhe dá muito. Penso que a sua visão sobre as crianças, os direitos das crianças – algo que o apaixonava –, que as crianças contam, que são pessoas, que têm direito a ser ouvidas, a ter um bom tratamento, à educação, é algo por que se sente apaixonado, pelo que o hospital era uma das suas paixões. Penso que o legado do dar, do fazer algo pelas pessoas a troco de nada, sem recompensa, não pedir nada em troca, isso é o seu legado. Penso que, se lermos principalmente a sua autobiografia, veremos como ele acredita no desenvolvimento pessoal, que nunca se deixa de aprender, independentemente da idade que se tenha, do seu nível de escolaridade, que se aprende todos os dias e que não se deve ter vergonha de não saber, porque aprender faz parte do crescimento próprio da pessoa. Muitos líderes, quando atingem o topo, pensam que isso é tudo, mas o que Mandela nos mostrou foi que quando lá se chega é que se começa a aprender. Isso é parte do seu crescimento enquanto pessoa e que a mudança começa no seu coração.



(1) A Thales Portugal assinou um contrato de 136 milhões para o sistema de sinalização de uma ferrovia com 46 estações numa extensão de mais de 250 quilómetros na zona do Cabo, na África do Sul a concretizar nos próximos cinco anos.

 


Keitumetse-MatthewsKeitumetse Seipelo Thandeka Matthews foi embaixadora da África do Sul em Portugal entre 2011 e 2017. Licenciada em direito pela Inns of Court School, exerceu funções durante muitos anos no Reino Unido. Em 2003 integrou como diretora não executiva o Johannesburg Tourism Company, em 2006 a Telkom e em 2007 o Bytes Technology Group. Diretora do Moty Capital Partners e do Futurin Capital, é membro do Keida Childrens Books.