Entre Educar e Gerir: O Jogo da Imitação – Rui Grilo

Entre Educar e Gerir: O Jogo da Imitação – Rui Grilo

É fácil invejar a gestão pela abundância de indicadores e pela facilidade com que se medem indicadores e se publicam "rankings". As nossas escolas estão a atravessar uma crise de mudança, bastará imitar estes instrumentos da gestão?

As ferramentas da moderna gestão de empresas podem facilmente fascinar quem as observe de fora. Tudo parece objetivo e fácil de entender quando se vê um sofisticado "dashboard" de controlo, onde os números, os gráficos e os semáforos verdes, amarelos e vermelhos se conjugam para dar a ilusão perfeita de que uma organização complexa se conduz como um avião a jato.

Quem olha para a gestão com inveja, começa por cobiçar a abundância de indicadores numéricos. Afinal, os números não mentem. E deve ser fácil saber o que fazer quando se conseguem extrair e relacionar indicadores com o toque de um botão, como acontece em qualquer sistema atual de "business intelligence". Melhor ainda, se os gestores têm indicadores, então podem fixar objetivos com facilidade. É só escolherem que valor querem atingir. Simples, não é?

Outro motivo para invejar ainda mais a gestão é a facilidade com que se sabe quem é melhor, que ações subiram mais, quais são as maiores empresas, as mais sólidas ou, até, quais são aquelas onde se trabalha melhor. Com números em abundância, podem fazer-se todos os "rankings" com que se possa sonhar e todos podem ambicionar chegar ao topo.

Este mundo aparentemente idílico da gestão só tem um defeito: não é real. Tal como nenhum "dashboard" substitui o conhecimento direto e pessoal para se saber o que está realmente a acontecer numa organização, não há empresa que se consiga gerir através de um mero jogo de fixação de objetivos. O mundo muda depressa demais para permitir esse exercício. Aliás, muda tão depressa que os rankings têm um prazo de validade tão curto como os "ratings" de crédito AAA que as três principais agências deram ao Lehman Brothers minutos antes deste falir.

Se, no mundo da gestão, a confiança excessiva nos números já causa muitos dissabores, quando esses conceitos são exportados sem sentido crítico para outras realidades, o potencial para o desastre é enorme.

Gerir a educação é difícil. Bastaria olhar para a sua dimensão: em Portugal, mais de 2 milhões de alunos, 200 mil professores e 10 000 estabelecimentos de ensino, entre jardins-de-infância, escolas, universidade e politécnicos. Mas a educação enfrenta desafios mais profundos. O nosso sistema educativo foi criado para o mundo da revolução industrial, no qual a informação era escassa e a memorização essencial. Um mundo onde se podia compartimentar o saber em disciplinas estanques e onde um diploma era passaporte para um bom emprego.

É óbvio para todos que esse mundo já não existe. A informação tornou-se tão abundante como o emprego se tornou escasso, a rotina foi substituída pela ambiguidade do desconhecido. Onde a conformidade e a padronização eram apreciadas, valoriza-se agora a autonomia, o espírito de iniciativa e a criatividade. Pareceria que as regras do jogo mudaram para todos, mas o desenho da nossa educação mantém-se igual ao que era há dezenas de anos.

Esta pressão social tornou-nos mais exigentes com as escolas e os políticos precisaram de mostrar serviço. Por isso, resolveram imitar os gestores das empresas. Se eram precisos indicadores, a decisão mais fácil seria alargar os exames nacionais. Com essas provas, ficaram disponíveis as notas de cada aluno, com as quais se passou a poder calcular a média de cada escola. Com médias, passavam a poder ordenar-se as escolas para descobrir quais são as “melhores”. Vários ministros da educação conseguiram resistir à publicação de "rankings", mas isso terminou quando um jornal os começou a publicar com base na informação pública sobre os exames.

Existindo rankings, era preciso "aumentar a exigência" e medir mais. Se os resultados não eram famosos no 12.º ano, era certamente porque os alunos não vinham bem preparados. Assim, passo a passo, foram aparecendo exames no 9.º ano, no 6.º ano, no 4.º ano e, agora, até no 2.º ano de escolaridade há “provas intercalares”. Mais um passo e estamos a fazer exames a quem conclui o jardim-de-infância!

A obsessão com os exames e os resultados altera o comportamento em quase todas as escolas. Por exemplo, no 4.º ano, poucos professores conseguem dar a devida atenção a disciplinas tão importantes para a integração de conhecimentos como o estudo do meio ou a história. Como só há exames de língua portuguesa e matemática, a generalidade dos nossos educadores submete os seus alunos a fichas atrás de fichas com perguntas semelhantes às que vão encontrar no exame. Com 9 anos de idade, em vez de estarem a descobrir o mundo complexo que os rodeia, os nossos filhos estão a ser treinados para fazerem provas fechadas. Fará algum sentido?

As empresas fixam metas quantitativas para concretizar estratégias. Quando uma organização desenvolve uma cultura que só se preocupa em atingir objectivos e se esquece das razões que lhes deram origem, são os seus acionistas quem paga um preço, mais cedo ou mais tarde. Quando um país confunde o sucesso na educação de uma criança ou de um jovem com uma nota num exame, quem paga o preço desse engano somos todos nós. Transformar as nossas escolas em centros de treino para responder a exames é impedir a escola de se reinventar e condenar uma geração de portugueses. Por muito que pareça estranho a algumas pessoas, há conhecimentos mais importantes do que saber evitar as rasteiras típicas dessas provas.

Ao contrário de um exame, a vida profissional é uma sucessão de testes ambíguos e "com consulta", para as quais é preciso encontrar a informação nova de que se necessita. Ao contrário da escola, uma carreira tem cada vez menos disciplinas isoladas. Nada é mais importante do que a capacidade para relacionar, compreender e conjugar fontes de conhecimento. Não é por acaso que a Finlândia se prepara para trocar as disciplinas por tópicos interdisciplinares no seu currículo para 2016 e que é cada vez maior a desconfiança face aos testes padrão nos sistemas educativos mais avançados.

Tal como dizia um aluno de 8 anos a um amigo meu que é professor, "não é por se medir a febre muitas vezes que ela baixa mais depressa". Também não é por se fazerem muitos exames que os resultados melhoram. Mas poucos ousam criticar esta obsessão. Quem o faz (como eu estou a fazer aqui) é facilmente atacado por estar “contra a exigência”. Mas é preciso parar com este jogo da imitação. O que temos de exigir, como pais e cidadãos, é que as nossas escolas ajudem a formar melhores seres humanos, preparados para o mundo do presente e do futuro. E para isso, em primeiro lugar, temos que deixar os professores fazerem o seu trabalho.

 


Rui-Grilo-Colunista-Jovens-LideresRui Grilo, gestor, licenciado em gestão de empresas pela Universidade de Évora e doutorado em mudança organizacional pela Universidade de Hertfordshire. Co-autor do livro "Terror ao Pequeno-Almoço - A Gestão Que Preferia Não Conhecer". Mais informações em: Linkedin; Twitter; Facebook.