Porque os tempos são de mudança e liderar os Millennium é um desafio - Nuno Santiago

Porque os tempos são de mudança e liderar os Millennium é um desafio - Nuno Santiago

Os artigos ou textos sobre liderança são chatos e enfadonhos; “boring”; “executive mambo jambo”; “do not read”.

É isto que está a pensar? Então engana-se. Também eu tenho preconceitos, mas quando fui desafiado a escrever sobre este tema, pensei, automaticamente, que deveria procurar distanciar-me das verdades absolutas e ser o mais útil possível.

Mas afinal o que é liderar? George Terry, autor de variados textos sobre administração e gestão, afirmou, em 1960, que a liderança é, muito simplesmente, a capacidade de “influenciar as pessoas fazendo-as empenhar-se, voluntariamente, em objetivos de grupo.” Ora, passados 50 anos, esta afirmação, simples e objetiva, continua ainda a constituir-se como o grande desafio das organizações e dos seus líderes, em especial nos contextos atuais, em que tudo o que ainda há pouco parecia ser… já não é!

Na verdade, todos nós, em determinada situação ou momento, mesmo sem sermos líderes formais, já assumimos posições de liderança, ao influenciarmos o comportamento de outros colaboradores e da própria organização.

São hoje colocados diariamente novos desafios às empresas e, cada vez mais, o tempo de reação é nenhum. Este facto implica que tenha de existir a capacidade de tomar decisões sob pressão e de estar preparado para a novidade. 

O grande tema do século XXI é a velocidade dos acontecimentos, potenciada pela crescente facilidade de acesso a um cada vez maior volume de informação.

Falemos pois da internet, o símbolo máximo desta nova era. Já em 2009, um estudo realizado pela Forrester Research demonstrava que os compradores on-line têm muito pouca paciência. Dois segundos (ou menos) é o tempo aceitável para carregar uma página na internet. Mais do que isso começa a ser stressante. Caso demore mais de 5 segundos, os utilizadores tendem a abandonar o site - e a não voltarem. Ainda se lembram do tempo que demorava a carregar um jogo num zx spectrum? Load”” enter? A noção de tempo mudou.

As TIC vieram revolucionar a forma de estar, de ser e de fazer das sociedades ocidentais, ditas evoluídas. Se as novas tecnologias foram capazes desta transformação em adultos, imaginem-se agora as novas gerações que já cresceram com o Google como melhor amigo e o Youtube como playground.

O Tempo é hoje o principal desafio para a nova liderança. Apesar de não existir o estilo perfeito, será ganhador aquele que for capaz de compreender as novas gerações, quer enquanto consumidores, quer como colaboradores. O tempo passa, a realidade altera-se, as pessoas transformam-se, dando origem a novas gerações, com novas atitudes perante as velhas verdades. 

Um exemplo perfeito é a forma como a chamada geração Millennium encara o trabalho (só um detalhe… já são 2.3 mil milhões no mundo). Esta é a geração que encara o trabalho de forma totalmente diferente das gerações que a precederam, mantendo a ambição, mas privilegiando o equilíbrio entre o trabalho e o lazer, ou seja, uma nova atitude que exige uma reinterpretação da liderança.

Os tradicionais estilos de liderança respondem às expetativas das gerações anteriores: perspetiva de evolução de carreira pela antiguidade, a meritocracia, o sacrifício pela empresa, o emprego para a vida, os mais velhos ensinam os mais novos… entre outras “verdades absolutas”. Só para se ter a noção da alteração da realidade, esta nova geração entende que a atividade social individual durante o horário de trabalho é um direito e não um benefício, manifestando expetativas diferentes relativamente à vida laboral em geral. 

Em pouco mais de uma década, o mind set mudou radicalmente. Antes, a tendência nos processos de recrutamento, para além da formação e da experiência, era valorizar a responsabilidade, a disponibilidade para aprender, a iniciativa, a motivação e o trabalho em equipa - tudo características, de uma forma geral, não intrínsecas à geração Millennium. 

Esta geração cresceu com a internet, num mundo global, o que faz com que tenha uma multiplicidade infinita de opções, de novas linguagens e comportamentos, de diferentes estilos de vida e dinâmicas sociais. Lentamente, vão conquistando posições nas empresas e transformando o perfil corporativo. É, no entanto, essencial que os líderes tenham consciência do dark side dos millenniums: o imediatismo, a ansiedade, a superficialidade e a impaciência, em detrimento do autoconhecimento e da autodisciplina.

Neste contexto, continua a ser essencial que os líderes ponderem sobre a forma de exercerem a liderança na organização, perseguindo o equilíbrio, os objetivos da empresa e a disponibilidade dos colaboradores. Tudo isto deverá ser feito através da definição de estratégias e ações, capazes de promover o entendimento, o comprometimento e a satisfação individual e coletiva, e exercendo a sua influência junto das diferentes gerações de trabalhadores, de forma a atingirem os objetivos e responderem à missão da organização.

Qual deve ser então o modelo de liderança? Lamento, não há receitas mágicas... Depende da área e da dimensão do negócio, do perfil do líder e das características individuais e coletivas dos colaboradores. 

Diria que, de uma forma geral, o líder do (e com) futuro, tem como prioridade garantir o convívio saudável entre diferentes gerações de trabalhadores, o que exige um estilo de liderança versátil, atento, responsável e inovador. E flexível. Se o líder mantiver uma estrutura de pensamento rígida, vai ter dificuldade em integrar no “ecossistema” da organização os seus recursos mais jovens (e de envolver, motivar e influenciar todos os seus colaboradores, afinal o principal ativo da empresa) - e disso depende fortemente o sucesso da sua organização.

 


Nuno-Santiago-Masemba-CEONuno Santiagoé CEO da Masemba (Portugal e Angola), grupo editorial que detém as publicações Lux, Lux Angola, LuxWoman, Cristina, Revista de Vinhos e Divo Magazine. Iniciou a sua carreira na RDPE (agora Essentia), tendo criado a CPU Tourism Consulting, onde foi diretor executivo. Posteriormente foi diretor de desenvolvimento do grupo Amorim Turismo para Portugal, Angola e Moçambique, e administrador executivo da Fundação Essentia Príncipe, dedicada ao apoio ao desenvolvimento em São Tomé e Príncipe. Além de formado em Gestão e Planeamento e Turismo, pela Universidade de Aveiro, frequentou uma especialização em e-tourism na University of Surrey e é certificado em real estate, development and hotel investment pela Cornell University (EUA).