O líder moderno e a liderança em Cloud – Nuno Madeira Rodrigues

O líder moderno e a liderança em Cloud – Nuno Madeira Rodrigues

Confesso, antes de mais, que me custou um pouco a habituar-me ao funcionamento do cloud computing. Esta ideia de ter toda a minha documentação profissional e pessoal alojada num servidor já não tinha sido algo a que tivesse reagido bem, mas, enfim, a verdade é que era um ambiente algo controlado, disponível para poucos e, acima de tudo, protegido com passwords.

Acho que foi o primeiro passo para admitir que era necessário evoluir e retomar o gosto pela tecnologia, enquanto ferramenta indispensável para o desempenho das minhas funções. E, de repente, abre-se um mundo novo, para o qual os miúdos nascem preparados, mas ao qual todo e qualquer líder “decano” tem de se adaptar. E com ele vieram servidores, backups no disco, backups em servidores, smartphones, tablets, Dropboxes e remote web access, apps, Facebook e Twitter, enfim, uma miríade de conceitos e funcionalidades, com linguagens próprias e códigos de programação, ferramentas de comunicação inovadoras, informação na ponta dos dedos, ufa…

Quando achava que estava a dominar a maré, se é que alguma vez o podemos fazer, aparecem as clouds. E eu, que pensava que já tinha concedido q.b. na minha adaptação tecnológica, vejo-me agora confrontado com servidores que deixam de o ser, com redes de armazenamento de informação que me permitem trabalhá-la online e offline, com todo o meu trabalho simultaneamente disponível em qualquer gadget com um acesso à internet e a partir do qual se multiplicam escritórios por todo o mundo, ladeados de um café e bolos, e onde qualquer empresário ou líder perde a noção do que é um dossier físico ou uma sede social ou escritório. 

Ainda sou, claramente, daqueles que têm de evoluir, de esquecer o papel como forma de comunicação milenar, de renunciar às invenções chinesas e a Gutenberg. Qualquer dia, darei por mim a colocar frases no final de emails a dizer “por favor pense antes de imprimir” e escapar desse modo à tributação verde galopante e a um qualquer ataque de natureza ambiental pelas minhas práticas datadas e medievais, de simplesmente gostar de ler algo em papel e não no eReader. É a vida, para lá caminhamos todos, ou perdemos o comboio da evolução.

Curioso é pensar que, quando analiso mais detalhadamente este novo conceito de cloud, sinto que, talvez, enquanto líder, não estou, e não estarão outros líderes, assim tão fora da evolução tecnológica, sendo até um líder, por inerência e, possivelmente, percursor destas novas tecnologias. Se não, vejamos. Ser líder é, antes de mais, saber. É ter informação global e organizada, dividida mentalmente por pastas e classificada, para a ela poder recorrer nas mais diferentes situações que se colocam aos desafios diários da gestão.

Estar no topo de uma estrutura ou organização implica ser um jack of all trades - e espero que, de algum modo, possa fugir ao master of none. Determina que saibamos ter informação do negócio, de cariz financeiro, do pessoal, do contexto político, da economia, da operação, das vendas, do marketing e, em cima de tudo isso, uma boa dose de coragem e de bom senso que inspire as pessoas numa missão e visão comum. Significa também que temos connosco uma estrutura organizada que recorre amiúde a nós, para a apoiar, guiar, opinar, corrigir, premiar, enfim, acompanhar o seu dia-a-dia e as suas funções de forma integrada, ou melhor dizendo, liderando. 

Acresce a tudo isto, e não é difícil de compreender, que, cada vez mais, o contexto de gestão abandona as fronteiras nacionais, deixando de estar limitado espacialmente. As empresas e as decisões têm agora uma forte presença multinacional e isso implica podermos estar a milhares de quilómetros do local onde a execução de uma decisão irá ter os seus efeitos. É óbvio que liderar neste contexto implica estruturas locais aptas a implementar as decisões, mas resulta evidente, também, que a liderança evoluiu do mundo mais pequeno da sala ou local de trabalho, para uma realidade transnacional, seja pelo contexto das empresas, seja pela melhoria das telecomunicações, num verdadeiro butterfly effect.

Considerando estas novas realidades, não é assim tão estranho que um líder moderno seja ele próprio um sistema de cloud nas empresas ou organizações que dirige. O líder deve ter a informação sempre centralizada e organizada. Ao líder cabe ser “acedido” por diversos interlocutores em diversos locais e momentos distintos e, em última análise, ao líder cumpre o papel de backup em toda a execução das políticas, de modo a manter uma constante actualização. 

Mas não se pense que esta cloud vive apenas da informação que resulta dos uploads e que permanece estática para disponibilizar downloads a cada momento. O líder é – ou deve ser – ele mesmo um motor de busca permanente de soluções, ideias e que requer permanentes upgrades, sob pena de ser ultrapassado pela forte concorrência existente no mercado e acabar num qualquer recycle bin, com poucas hipóteses de ser “restaurado”.

Valham-nos a nós, que temos a obrigação de liderar algo em diferentes contextos, os firewalls que conseguimos instalar para defender o nosso papel e que os antivírus de que dispomos sejam fortes o suficiente para enfrentar os constantes hackings que se colocam aos desafios da gestão diária. Tudo em benefício da cloud, da qual somos percursores e sem a qual, irremediavelmente, já não podemos existir.

 


Nuno-Madeira-Rodrigues-HBD-Colunista-artigosNuno Madeira Rodrigues é CEO do HBD Group desde 2011, fundado pelo multimilionário sul-africano Mark Shuttleworth, lidera o Omali Lodge em São Tomé, o Bom Bom Resort e a Sundy no Príncipe. Presidente da Direção da Associação Empresarial de São Tomé e Príncipe, é Vice-Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários, Presidente do Conselho Fiscal da Associação Lusófona de Energias Renováveis e Membro do Conselho Consultivo da Plataforma Sustentar. Foi advogado sénior da Cuatrecasas em Portugal e Espanha, advogado da Miranda Law Firm em Portugal, Moçambique e Angola, gestor do Grupo Vasco da Gama em Portugal e no Reino Unido para a Europa e África e consultor legal da Deloitte. Licenciado em Direito na Universidade Católica Portuguesa, tem um LLM na Universidade Católica Portuguesa e é Pós-Graduado em Direito Comercial na Universidade Católica Portuguesa. Especializado em Fiscalidade pelo INDEG/ISCTE, é orador em conferências e eventos diversos.