Aprender liderança com livros de gestão ou com romances? - João Vieira da Cunha

Aprender liderança com livros de gestão ou com romances? - João Vieira da Cunha

Quando tinha 21 anos, fui fazer um ano de Erasmus a Antuérpia. Num grupo de trabalho, um dos meus colegas disse-me uma coisa que me deixou a pensar: "aprendo mais sobre liderança a ler romances do que a ler livros de gestão." Na altura, achei essa frase uma patetice. Tinha lido um par de livros do Tom Peters (um dos gurus da gestão mais famosos dos anos 90) e tinha aprendido umas coisas sobre liderança.

Esse meu colega estava a tirar um MBA na Universidade de Antuérpia. Estava no grupo dele, porque não havia muitas cadeiras em inglês na licenciatura e, por isso, os alunos Erasmus podiam fazer algumas cadeiras de MBA.

Esse meu colega tinha mais de 5 anos de experiência de liderança. E não era estúpido. 

Por isso, fiquei a pensar nessa frase durante muito tempo, apesar de não estar nada de acordo com a ideia.

Até porque escrevo sobre gestão. 

Noutro dia, li um comentário num fórum sobre a Lotus (uma marca de automóveis de que gosto muito) que me fez pensar que o meu colega era capaz de ter razão. 

Uma das pessoas que participa no fórum tinha acabado de comprar um Lotus e estava a perguntar se, para tornar o carro mais rápido, era melhor gastar dinheiro no motor ou na aerodinâmica. Todas as pessoas que lhe responderam, disseram a mesma coisa: em vez de gastar dinheiro no carro, devia gastar dinheiro nele próprio. Excepto os pilotos profissionais, há poucas pessoas que conseguem aproveitar tudo o que um Lotus tem para dar. Por isso, a maneira de tornar um Lotus mais rápido é aprender a conduzi-lo bem. Só depois é que se deve comprar um aileron novo ou pôr um compressor no motor.

Se calhar, na liderança é a mesma coisa.

Se calhar, antes de aprender inteligência emocional, antes de aprender design thinking e antes de aprender a última modas das teorias de liderança, os gestores deviam tornar-se melhores seres humanos. 

Se calhar, antes de ler o último best-seller da gestão, os líderes deveriam ler o 'Senhor dos Anéis', o 'Jonathan Strange e o Sr. Norrell', ou outro daqueles romances que parecem um daqueles espelhos do circo, onde ninguém parece nada bonito. Há livros assim. Que nos fazem olhar para nós próprios e descobrir que ainda estamos bem longe de sermos quem queremos ser.

Só devemos aprender técnicas de liderança moderninhas depois de aprendermos mais sobre nós mesmos, a olhar para estes espelhos feitos de letras que são capazes de nos tratar com a honestidade mais cruel.

Então é para parar de ler livros de gestão e começar a ler romances? 

Acho que não é preciso ir tão longe. Até porque não é fácil aprender com romances, porque há poucos romances que consigam fazer tanto por nós como o 'Senhor dos Anéis' ou o 'Jonathan Strange e o Sr. Norrell'.

Acho é que é preciso começar por ler livros sobre liderança escritos por pessoas que a viveram na primeira pessoa ou que a observaram muito de perto. Pessoas que estão mais preocupadas com mostrar como é confuso e difícil o dia-a-dia dos líderes, e menos preocupadas com vender modelos bonitinhos e limpinhos, daqueles que vendem mais, mas que ensinam menos. 

Os livros do Dilbert, os primeiros livros do Tom Peters (que os últimos já estão demasiado abstratos para o meu gosto) e, já agora, o Terror ao Pequeno-Almoço, são exemplos de livros que não nos apresentam grandes modelos de liderança, mas que nos ensinam que, antes de montar o chip da inteligência emocional no nosso cérebro, precisamos de ter a certeza de que, na nossa base, está uma dose de humanidade suficiente para se ser um líder dos bons. Dos que inspiram. Dos que valem a pena.

 


Joao-Vieira-Cunha-colunistaJoão Vieira da Cunha é Diretor do Instituto de Investigação e Escola Doutoral da Universidade Europeia de Lisboa e professor visitante na Universidade de Ashrus, na Dinamarca. É doutorado em Gestão pela Sloan School of Management do MIT e Mestre em Comportamento Organizacional pelo ISPA. A sua investigação procura descobrir como é que as empresas podem tirar partido da desobediência dos gestores e dos colaboradores. Tem sido publicado nas principais revistas científicas internacionais na área da gestão e colabora regularmente na imprensa. A sua investigação tem ganho vários prémios internacionais de organizações, como a Academy of Management e a System Dynamics Society. Os seus clientes de consultadoria e formação de executivos incluem o Banco de Portugal, o Ministério da Saúde, a Novabase e o Barclays Bank.