Como dos muitos poucos se constroem grandes líderes – Rita Nabeiro

Como dos muitos poucos se constroem grandes líderes – Rita Nabeiro

Para mim, falar de liderança é indissociável da minha história familiar, mais concretamente da história do meu avô, um exemplo vivo e fonte de inspiração diária na minha vida.

Nasci em Lisboa há 34 anos, mas tenho as minhas raízes no Alentejo, mais concretamente em Campo Maior. Foi nesta vila raiana que passei parte da minha infância, por entre a planície alentejana e as sacas de café de um negócio em crescimento. 

Estávamos nos anos 80 e, tijolo após tijolo, a fábrica da Delta ia crescendo e eu com ela. Recordo-me de ser criança e de estar presente num almoço servido no interior da fábrica em construção. Não me recordo do motivo, mas lembro-me da forma como os bancos e as mesas corridas de madeira rangiam, da comida simples mas boa e, sobretudo, do ambiente festivo e alegre. Sem ter consciência, já nessa altura a minha família ia para além dos laços de sangue. O apelido era Delta. 

Quando terminei os meus estudos, trabalhar com a minha família não fazia parte dos meus planos, quer por alguma rebeldia, quer pela vontade de conhecer outras realidades. Mas, após algumas experiências profissionais, comecei a pensar que estaria a desperdiçar a oportunidade de aprender com um grande líder, apenas pelo facto de ser meu familiar. Foi esta razão que acelerou o meu início de atividade na empresa da família, há cerca de oito anos atrás.

Posso afirmar que não me arrependo da minha decisão e que muito do que aprendi sobre liderança o devo ao meu avô, Rui Nabeiro. Não consigo falar sobre esta temática sem pensar nele ou nos ensinamentos que transmite diariamente a todos os que têm a sorte de lidar com ele. A sua liderança espelha-se na sua atitude humilde, na sua visão e no seu trabalho. Está nas grandes decisões, mas sobretudo nas pequenas decisões e ações. Quem trabalha com ele, aprende com os seus exemplos diários, com a sua resiliência e com a sua atitude empreendedora.

Quando os outros estavam a ir, já eu estava a regressar!”*


Esta frase poderia resumir a sua maneira de estar na vida e pode ser aplicada na sua relação com os clientes, com a concorrência e com as mais diversas equipas que construiu e que continua a construir ao longo dos anos. Com ele aprendi que vale a pena acreditar em nós mesmos e nos nossos sonhos, trabalhar com alegria e não desistir quando surgem os primeiros obstáculos.

Muito do que sei e do que sou, devo-o ao meu avô, mas também a todos os líderes das pequenas coisas que se cruzam diariamente no meu caminho. Sou um somatório destes pequenos e grandes gestos, tentando aprender com os bons exemplos e histórias.

Hoje, à frente da Adega Mayor, o projeto de vinhos do grupo Nabeiro, procuro aplicar muitos destes ensinamentos no meu dia-a-dia. À cultura existente, procuro introduzir parte do que são os meus valores, uma visão de futuro, inovação e excelência. Procuro criar uma “cultura Mayor”, seja através de uma relação de proximidade, seja através da incorporação de um ADN criativo na marca e nas pessoas.

A baronesa Phillippine de Rothschild (Château Mouton Rothschild) afirmou que “Produzir vinho é relativamente simples. Só os primeiros 200 anos são difíceis.” Se há coisa que o vinho me ensinou foi a saber esperar. Uma marca constrói-se todos os dias e há projetos que levam anos, ou décadas a ganhar forma. Ao líder cabe introduzir a visão e manter-se fiel à mesma, apesar dos obstáculos que possam surgir pelo caminho. Não falo de uma visão cega e surda, mas sim da que aprende com os erros e corrige a rota pelo caminho, sempre que necessário.

Estando na liderança da Adega Mayor há pouco mais de três anos, perguntam-me com frequência como é “liderar no feminino”. A essa pergunta respondo invariavelmente que não sei como é liderar no masculino, na medida em que sou mulher e não tenho a oportunidade de estar no outro lado para perceber as diferenças. O que quero dizer, é que acredito na liderança independentemente do género, etnia, idade ou extrato social. Não se é melhor líder por se ser homem ou mulher, tal como não se deixa de ser líder por sermos demasiado jovens ou por os anos pesarem demasiado.

As circunstâncias tornam-nos líderes de alguma forma e cabe a cada um procurar evoluir e melhorar continuamente. Se por um lado os líderes se revelam em momentos decisivos, por outro solidificam a sua liderança nas pequenas atitudes que tomam de forma repetida e consistente.

Por fim, tal como no vinho, nem todos os anos dão origem a líderes de qualidade excepcional que sejam capazes de mudar o rumo da história e das pessoas que os rodeiam. Também como um bom vinho, o bom líder melhora com o tempo, tornando-se único, complexo e com a sabedoria que só a passagem dos anos lhe consegue imprimir.

*Citação de Rui Nabeiro.

 


Rita-Nabeiro-Delta-Adega-MayorRita Nabeiro, Diretora Geral da Adega Mayor, é licenciada em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. O seu percurso profissional teve início em 2005 na área de design e comunicação. Primeiro numa agência de publicidade em Itália e de seguida em Portugal, na agência Brand New. Viria a integrar o negócio familiar (Grupo Nabeiro-Delta Cafés) cerca de dois anos mais tarde. Dentro do Grupo Nabeiro começou por integrar o departamento de marketing da Delta Cafés, mas a aposta do Grupo Nabeiro na área dos vinhos levou-a até à direção de marketing da Adega Mayor, onde se destacam projetos como as edições especiais e as Wine Talks. Em 2012 assumiu a direção geral da Adega Mayor, posição que ainda hoje mantém.