Vale a pena festejar o dia internacional da mulher? – João Vieira da Cunha

Vale a pena festejar o dia internacional da mulher? – João Vieira da Cunha

Este domingo festejou-se o dia internacional da mulher. No Facebook, no Twitter e até na televisão, é um dia em que se veem flores, corações e ursinhos — coisas associadas a uma imagem romântica e fofinha. Mas o que se festeja no dia internacional da mulher não tem nada a ver com coisas românticas e fofinhas. Antes pelo contrário.

No dia internacional da mulher, festejam-se algumas das conquistas que as mulheres conseguiram nos últimos 100 anos, como o direito ao voto. Também se festejam lutas que ainda não foram vencidas, como o salário igual para trabalho igual. No dia da mulher, festeja-se a luta de um grupo de pessoas que ainda não beneficia de todos os direitos humanos com que os seus países se comprometeram. 

No dia da mulher, sinto-me orgulhoso com o progresso que já se fez. Mas também me sinto triste com tanto que ainda está por fazer. 

Ainda estamos muito longe. Demasiado longe. E estamos a ir muito, muito, mas mesmo muito devagar. 

Há pouco tempo, um grupo de pessoas teve uma ideia para acelerar o passo. É uma iniciativa chamada HeForShe que quer trazer os homens para a luta pelos direitos das mulheres. 

Eu tenho outra ideia: fazer com que as empresas se juntem à luta.

Não vou fazer o discursozinho da ética nas empresas. Ninguém ainda conseguiu provar que as empresas ganham por se portarem bem. Quem tenta fazer isso pode estar a ajudar a tornar a economia mundial um sítio mais fofinho, sem reparar que acaba por defender que o bem só deve ser feito se der dinheiro. 

O que eu vou fazer é dar duas boas razões para as empresas ajudarem as mulheres na sua luta pela igualdade.

Primeiro, as empresas devem ajudar as mulheres na sua luta pela igualdade, porque assim as empresas têm acesso a mais talento. 

Um estudo publicado recentemente pela OCDE mostra que as raparigas com 15 anos são melhores alunas e gostam mais de ler do que os rapazes com a mesma idade. Também há uma série de estudos na gestão que falam sobre as vantagens que as mulheres têm enquanto líderes. Um dos mais famosos é o livro da Sally Helgesen que mostra que as empresas que são lideradas por mulheres atingem melhores resultados, porque são redes de inclusão, em vez de hierarquias de autoridade. 

Mesmo que o talento esteja igualmente distribuído entre homens e mulheres, as empresas já ganharam muito com as vitórias que permitiram às mulheres entrar no mercado de trabalho. Ganharam acesso a um grupo de pessoas que, apesar de poderem ter muito mais talento do que os homens que trabalhavam nas empresas, eram sistematicamente excluídas das equipas, nas empresas que podiam beneficiar das suas competências. 

Se calhar, as empresas até ganharão um bocadinho mais do que as mulheres quando estas conseguirem começar a contribuir tanto como os homens para o progresso e para o desenvolvimento. É que as empresas beneficiaram do trabalho das mulheres, mas muitas mulheres não viram (e ainda não veem) o seu trabalho a ser reconhecido. Às vezes, quem beneficia do trabalho das mulheres são os homens com quem trabalham. Um dos casos mais famosos foi o da Rosalind Franklin, que fez uma descoberta crucial para o modelo do ADN. Essa descoberta foi apropriada pelos dois homens que ganharam o prémio Nobel por esta descoberta, que, na altura, esconderam o importante contributo de Rosalind Franklin.

Segundo, as empresas devem ajudar as mulheres na sua luta pela igualdade, porque estas lideram uma série de processos invisíveis que são cruciais para o desempenho das equipas. Joyce Fletcher mostrou que as equipas precisam de pessoas com muita inteligência emocional e que saibam aplicá-la. Fletcher mostrou que são as mulheres que tipicamente usam a sua inteligência emocional para ajudar as equipas a ultrapassar todos os pequenos conflitos, descoordenações e disfunções que podem fazer com que um grupo de pessoas cheias de talento e conhecimento tomem decisões estúpidas, como a de lançar uma nave espacial que sabem que vai explodir. No entanto, o estudo de Fletcher mostra que estes processos de coordenação e de desenvolvimento das equipas, que são tão importantes para as empresas, são responsáveis pelas dificuldades que as mulheres têm em percorrer o caminho até à liderança das empresas onde trabalham.

Fletcher descobriu que o problema é que os comportamentos centrados na harmonia e partilha vão contra a imagem de assertividade que é associada aos líderes e contra o foco nos resultados que é associado ao sucesso das empresas. Mais uma vez, as empresas parecem ganhar mais do que as mulheres com as vitórias que lhes permitiram entrar no mundo do trabalho. As empresas ganham um conjunto de pessoas que têm a inteligência emocional necessária para melhorar o funcionamento das equipas. Mas este trabalho não é reconhecido, não é premiado e, às vezes, é castigado. Por isso é que o livro em que a Joyce Fletcher apresenta os resultados do seu estudo se chama ‘Disappearing Acts’: atos que desaparecem, porque, apesar de serem cruciais, são sistematicamente desvalorizados; mas também atos que fazem desaparecer, porque escondem sistematicamente o papel que as mulheres têm nas equipas de trabalho.

As empresas têm muito boas razões para festejar o dia da mulher. E não são só as empresas que vendem chocolates, flores e ursinhos fofinhos. São todas as empresas. Porque, se as mulheres tiveram algumas vitórias importantes nos últimos 100 anos, foram as empresas quem beneficiou mais com a entrada das mulheres na força de trabalho. 

As empresas ganharam acesso a um filão de talento que antes era desperdiçado e que podem aproveitar sem terem que premiar ou até reconhecer o contributo das mulheres. Em vez disso, permitem que outras pessoas fiquem com os louros dos sucessos das mulheres. As empresas também passaram a beneficiar de um conjunto de processos cruciais para o desempenho das suas equipas, podendo dar-se ao luxo de envergonhar as mulheres que tomam para si a responsabilidade destes processos. Acusam-nas de darem demasiada importância às emoções e de valorizarem mais as pessoas do que os resultados.

As mulheres ainda só ganharam um punhado de direitos humanos fundamentais pelos quais nunca ninguém deveria ter de lutar.

 


Joao-Vieira-Cunha-colunistaJoão Vieira da Cunha é Diretor do Instituto de Investigação e Escola Doutoral da Universidade Europeia de Lisboa e professor visitante na Universidade de Ashrus, na Dinamarca. É doutorado em Gestão pela Sloan School of Management do MIT e Mestre em Comportamento Organizacional pelo ISPA. A sua investigação procura descobrir como é que as empresas podem tirar partido da desobediência dos gestores e dos colaboradores. Tem sido publicado nas principais revistas científicas internacionais na área da gestão e colabora regularmente na imprensa. A sua investigação tem ganho vários prémios internacionais de organizações, como a Academy of Management e a System Dynamics Society. Os seus clientes de consultadoria e formação de executivos incluem o Banco de Portugal, o Ministério da Saúde, a Novabase e o Barclays Bank.