José Mujica, lições de liderança de um político pobre – João Vieira da Cunha

José Mujica, lições de liderança de um político pobre – João Vieira da Cunha

Uma das personagens políticas mais populares entre as pessoas do Facebook é o presidente do Uruguai, José Mujica, que terminou este mês o seu mandato. O presidente do Uruguai é popular porque é pobre e vive com humildade. Também é popular porque está na política para servir os outros.

Um político que está na política para servir os outros é uma coisa muito, mas mesmo muito rara. Embora o presidente do Uruguai tenha muito para ensinar aos políticos, também penso que o tem aos líderes das empresas.

Não acho que os líderes das empresas tenham que ser pobres ou que ganhar pouco. Liderar uma empresa é um trabalho difícil. É um trabalho com muita responsabilidade e, por isso, um bom líder é capaz de merecer alguns dos salários fantásticos que eu também gostava de ganhar, muito obrigado.

Acho é que os líderes têm que liderar de dentro para fora, em vez de liderarem de fora para dentro. 

O presidente do Uruguai segue três princípios para fazer política de dentro para fora, que os líderes das empresas também podem aplicar.

O primeiro princípio é que os líderes ganham se conhecerem diretamente a realidade das suas empresas. Mujica vive nas mesmas condições que a maior parte dos cidadãos do seu país. Vivia em condições muito humildes antes de ser presidente e continuou a viver da mesma forma durante o seu mandato.

Há algumas empresas onde os gestores começam por baixo. Em Portugal, há uma grande empresa na área do grande consumo que põe as pessoas que vão trabalhar para o marketing a venderem mercearias no interior do País durante 6 meses. Não é praxe. É a oportunidade de conhecerem de perto o negócio da empresa. Assim, quando estas pessoas olharem para os estudos de mercado, quando estiverem a decidir como aumentar a quota de mercado, já viram a realidade que se esconde atrás de uma folha de cálculo daquelas mesmo, mesmo bonitas.

Mas quantas empresas é que fazem coisas destas? Não são muitas. Nas outras, das duas uma. Ou há líderes excecionais que conhecem o dia-a-dia do negócio e, por isso, são respeitados e admirados pelos colaboradores. Ou há os líderes habituais, que tecem estratégias sem nenhuma ideia da realidade para além da excelente ficção que leem nas folhas de cálculo que recebem todos os meses. 

O segundo princípio da governação de Mujica que os líderes das empresas também podem aplicar, é o de que os líderes devem criar (e defender) uma ideia junto dos seus colaboradores com tanto cuidado como quando criam uma ideia para o mercado. 

As empresas beneficiam de um líder que consiga imaginar, ter visão e uma missão que entusiasme as pessoas que lá trabalham. Mas o exemplo do presidente do Uruguai sugere que as empresas podem ganhar ainda mais se tiverem um líder que consiga viver um conjunto de valores que inspirem as pessoas a serem melhores no seu dia-a-dia.

Acho que todos lemos notícias suficientes para sabermos que o presidente do Uruguai é uma exceção. Comporta-se de acordo com os valores que defende para as pessoas do seu país. E, mais do que isso, defende valores muito mais humanos do que os valores que pregam os presidentes e primeiros-ministros de outros países. 

O presidente do Uruguai não usa gravata. Não é para parecer moderno, porque, além de não usar gravata, também usa sandálias iguais às que o meu avô usava quando vinha para casa, depois de passar o dia a tratar do campo. O presidente do Uruguai diz que não usa gravata e usa sandálias para dar o exemplo na luta contra o consumismo que faz tanta gente infeliz. Muito infeliz. Por não ter dinheiro para comprar coisas de que não precisa, é que não sabe bem porque é que não lhe fazem falta. A luta contra o consumismo faz parte da ideia que o Presidente do Uruguai tem para o país dele. E vive essa ideia não só pela maneira como se veste, mas também pela maneira extremamente humilde e humana como vive.

E, já agora, o presidente do Uruguai tem uma visão poderosa para o Mundo. Se eu fosse chefe de algum governo, inspirava-me. O presidente do Uruguai defende que não há guerras boas. Que todas as guerras são más. Que nenhuma guerra é justificável.

Há alguns líderes que são assim. E há algumas empresas que são assim. Mas hoje em dia há uma obsessão com o mercado e com uma fantasia daquilo que os clientes querem, que parece que dispensa os líderes de terem uma ideia do que querem para a sua empresa. 

O terceiro princípio é que os líderes devem defender princípios e valores, mesmo quando não são populares entre os clientes e até entre os acionistas. Às vezes, penso que vivemos numa ditadura imposta por um consumidor invisível, possuído por uma ira que se incendeia com muita facilidade e que se espalha rapidamente à velocidade do Facebook e do Twitter. Essa ditadura tem tornado as empresas extremamente cuidadosas e até tímidas, mesmo que o poder dos clientes nas redes sociais, às vezes, só exista na imaginação destas.

Na política, também há um conjunto de organizações internacionais sem cara que parecem ser inquestionáveis, apesar de parecer que há muita vontade de as questionar, como mostrou o entusiasmo com que o Varoufakis tem enfrentado a União Europeia.

O presidente do Uruguai enfrentou várias organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas. Uma das decisões políticas mais importantes, mas também mais controversas, do governo de Mujica foi legalizar as drogas leves. As Nações Unidas criticaram a decisão. Acusaram o Uruguai de violar um acordo internacional de combate contra a droga. Mujica manteve a lei que, apesar de não ter sido ainda aplicada na sua totalidade, levou a uma discussão internacional que parece ter contribuído para abrir novas oportunidades para travar os efeitos negativos que o tráfego e o consumo de drogas têm nos países e nas pessoas.

Não acho justo exigir às empresas que substituam os políticos em causas sociais. O que me agrada é a ideia de criar um futuro diferente, em vez de fazer o que se acha que os clientes querem e em vez de seguir as regras da indústria. Um dos casos clássicos é o da revolução que a Lotus trouxe ao desenho dos automóveis entre 1950 e 1970, quebrando várias regras, incluindo a que diz que é preciso um motor mais potente para que um carro ande mais rápido. Um exemplo mais recente tem sido os dispositivos que a Apple tem eliminado dos seus computadores pessoais, mesmo perante os protestos dos clientes.

Estes casos ainda são exceções. Os clientes ainda são os diretores de inovação de muitas empresas, mesmo quando essa função é ocupada por uma pessoa que é capaz de ter excelentes ideias para novos produtos, mas que é refém dos desejos de um mercado sem cara.

E, já agora, aproveito para realçar o efeito positivo que podem ter as posições políticas dos líderes das empresas. O Tim Cook, que lidera a Apple, usou a defesa dos direitos dos homossexuais como oportunidade para reforçar a cultura de abertura da Apple. 

Há mais um princípio, além destes três, que o presidente do Uruguai nos pode ensinar. É um princípio que se aplica não só aos líderes das empresas, mas a todos nós. Que tal se, para além de fazermos ‘likes’ e ‘shares’ nas redes sociais, começássemos a exigir a nós próprios o mesmo comportamento que têm estas pessoas que parecemos admirar tanto?

 


Joao-Vieira-Cunha-colunistaJoão Vieira da Cunha é Diretor do Instituto de Investigação e Escola Doutoral da Universidade Europeia de Lisboa e professor visitante na Universidade de Ashrus, na Dinamarca. É doutorado em Gestão pela Sloan School of Management do MIT e Mestre em Comportamento Organizacional pelo ISPA. A sua investigação procura descobrir como é que as empresas podem tirar partido da desobediência dos gestores e dos colaboradores. Tem sido publicado nas principais revistas científicas internacionais na área da gestão e colabora regularmente na imprensa. A sua investigação tem ganho vários prémios internacionais de organizações, como a Academy of Management e a System Dynamics Society. Os seus clientes de consultadoria e formação de executivos incluem o Banco de Portugal, o Ministério da Saúde, a Novabase e o Barclays Bank.