A Liderança do contexto e o contexto da Liderança – Nuno Olim Marote

A Liderança do contexto e o contexto da Liderança – Nuno Olim Marote

Liderar na diversidade, em diferentes contextos e cenários, constitui, sem dúvida, no meu entender, a maior inspiração mas também o maior desafio – combinado com alguns “obstáculos” que determinam sempre oportunidades incríveis – das ONG’s a nível global, enquanto projetos – ideia e como projetos – plataforma.

Perceber o contexto da liderança, do ambiente onde vamos e podemos atuar, criando valor, pressupõe sempre que se desenvolva uma estratégia inteligente e partilhada e se procure trabalhar com eficácia e a priori os apoios institucionais e os altos patrocínios necessários. Isto porque, se o objetivo é o sucesso, esse sucesso só vai existir se houver o alinhamento – essencialmente político e institucional – adequado. 

Acerca desta aproximação e da minha determinação, Joaquim Chissano, ex-presidente de Moçambique, um dos líderes mais carismáticos e esclarecidos de África – e que muito tem inspirado a minha atuação – afirmou que “as boas ONGs são aquelas que vêm e que a sua atividade está em harmonia com as políticas dos países onde atuam”.

Liderar e empreender global implica um foco e um desafio que passa sempre por aceitarmos que cada individuo é único, e que cada país, cada bloco regional, cada comunidade linguística gera, intrinsecamente, um conjunto tão identitário de valores e conceitos que percebê-los é, per si, tarefa complexa, embora tudo passe pelo respeito mútuo e por uma lógica equivalente de reciprocidade. 

Registe-se também que existem “estilos” de liderança muito dominantes e diversificados. Tão diversificados e dominantes quanto as áreas geográficas ou comunidades a que nos referimos, tão diversificados como a relação com o tema que propomos abordar nesse contexto, nessa liderança. Diria mesmo que, em bom rigor, esse contexto pode determinar tudo.

O Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2015, “Visão Geral – Mente, Sociedade e Comportamento”, desenvolvido pelo Banco Mundial, é um drive fantástico, no sentido de “percebermos” os mecanismos que determinam o comportamento humano na esfera económica, política, social e cultural, na sua individualidade e na sua relação com o todo. Falo deste relatório porque considero que liderar é, acima de tudo, influenciar, captar seguidores. E, para isso, há que perceber alguns grandes detalhes do comportamento humano.

O Projeto Sustentar, enquanto projeto – plataforma de que fui mentor e lidero e, no seu desafio mais recente de explorar o conceito contemporâneo e global de Paz, de tudo relacionar com Paz, enquanto projeto – ideia, tem experienciado de forma desafiante o cuidado e o respeito que é necessário determinar na aproximação aos vários países. Isto porque atuar global, liderar global tem procedimentos e entendimentos muito diferentes do atuar e liderar dentro das nossas “fronteiras”. A soberania de cada país é sempre assunto sensível e complexo.

Entenda-se que, por exemplo, falar de Paz (ou de Felicidade) com um líder – ao nível politico ou empresarial – russo, ou moçambicano, ou brasileiro, ou emiratense, ou angolano, ou norueguês é possível, é prioritário, mas não esperemos que cada um desses líderes tenha o mesmo entendimento e a mesma definição sobre esse mesmo tema / conceito. Confesso que é essa perspectiva solipsista que nos tem determinado e me interessa explorar enquanto projeto – ideia e nos ilumina enquanto projeto – plataforma. 

Portanto, é consensual que o contexto determina a liderança, da mesma forma que a liderança determina o contexto, ou seja, são conceitos dependentes. 

Essa dependência tende a ser esquecida ou ignorada, quando nos dedicamos a explorar valores universais, valores em que as ONGs desenvolvem, normalmente, a sua atividade. Faço notar que os valores e os conceitos ditos universais, como é o caso dos direitos humanos, são observados muitas vezes de forma descuidada, isto porque, por exemplo, os valores ditos ocidentais – sob os quais escrevo este texto e assumo estar contaminado por alguns desses valores – não são iguais aos valores de outras geografias ditas “não ocidentais”. É que, muitas vezes, embora se esteja a comparar o mesmo objeto ou conceito, não se está de todo a falar da mesma coisa.

Acredito que a dimensão universal e imaterial dos conceitos é o maior desafio que teremos de aprender a compreender, a consciencializar à escala mundial, de acordo com os fluxos do Globalismo. Em rigor, temos que começar por assumir que não somos todos iguais, mesmo, e que não temos todos os mesmos valores, mesmo. E que, acima de tudo, a história, enquanto herança, não tem que determinar um futuro, enquanto desafio. 

Por convicção, concluo que atuar nos vários países, liderar um projeto à escala mundial é, acima de tudo, uma dádiva, uma paixão, um extraordinário processo de aprendizagem, de interpretação de contextos e de lideranças.

 


Nuno-Olim-MaroteNuno Olim Marote é fundador e Presidente do Projeto Sustentar – Plataforma Multidimensional e Inclusiva para o Desenvolvimento, projeto desenvolvido e ancorado ao PhD em Estudos de Desenvolvimento do ISEG e com o Alto Patrocínio da Presidência da República de Portugal e Cabo Verde, apoio institucional da CPLP e da UNESCO. Foi auditor da KPMG Portugal e consultor da Capgemini Ernst Young. É Licenciado em Gestão de Empresas pelo ISG.