Vale a pena ler artigos científicos de gestão? – João Vieira da Cunha

Vale a pena ler artigos científicos de gestão? – João Vieira da Cunha

Passo mais ou menos 15 horas por semana a escrever artigos científicos sobre gestão. Será que para você era melhor ler um desses artigos do que ler o que escrevo aqui no Portal da Liderança?

Vamos lá ver. Escrevi um artigo que resumi assim:

O objetivo deste trabalho é desenvolver um modelo distribuído de estruturação de TI nas organizações, para complementar o modelo coletivo que domina a aplicação da teoria da estruturação aos fenómenos organizacionais. Este artigo baseia-se em dados qualitativos secundários, para especificar como as diferenças entre práticas das pessoas com e em torno das TI determinam o efeito das TI nas organizações. O artigo apresenta o papel da variação nas práticas das pessoas na investigação sobre a estruturação de TI nas organizações. Esta pesquisa, que é uma das abordagens dominantes no efeito das TI nas organizações, assume que as pessoas partilham as mesmas práticas com e em torno das TI e é insuficiente para explicar as consequências da variação entre o uso de TI das pessoas no trabalho.

Não se percebe nada. 

A quem é que interessa ler sobre "um modelo distribuído de estruturação de TI nas organizações"?

A você? 

Acho que não. 

A não ser que você também seja um cientista (ou tenha dificuldade em adormecer à noite).

Os artigos científicos são escritos para mostrar aos outros cientistas que cada um de nós é muito inteligente e sabe montanhas de coisas científicas. É só para isso que servem os artigos científicos. E isso é um problema. E é um problema que não é só um problema na gestão. É também um problema em áreas que aleijam mais, como a medicina por exemplo.

Há um movimento um nadinha aterrorizador na medicina chamado "medicina com base na evidência”. Esse movimento é aterrorizador porque tal só faz sentido se a medicina se basear no conhecimento científico que é produzido todos os anos sobre como curar (ou pelo menos tratar) muitas doenças. As pessoas que lutam pela medicina com base em evidências dizem que a situação é muito grave. Dizem que há doenças que só são tratadas com menos de metade do conhecimento científico disponível. E não são doenças esquisitas. São doenças como dores de cabeça, fraturas da anca e infeções urinárias.

Na gestão também há um movimento parecido. É a gestão com base na evidência, que tem sido defendida por Jeffrey Pfeffer e Robert Sutton, professores da Universidade de Stanford. O problema é o mesmo. Há muito conhecimento científico sobre gestão, mas esse conhecimento não é usado pelas empresas. 

Mas isto da gestão não é uma ciência pois não?

Não sei.

Sei é que muitos médicos também diriam que a medicina não é uma ciência, mas se não for muito incómodo, preferia de ser tratado com base no conhecimento científico da medicina e não com base numa intuição qualquer. 

Também sei que o conhecimento científico sobre gestão não é escrito para gestores, é escrito para académicos. É por isso que iniciativas como o Portal da Liderança são tão importantes. Porque traduzem esta investigação em conselhos práticos. 

O meu artigo sobre “a teoria da estruturação” foi a base para a coluna que aqui escrevi sobre “As lições de liderança da Portugal Telecom”, em que expliquei como é que as empresas podem criar regras que facilitem a inovação e a mudança e ajudem os empregados a aproveitar as oportunidades que quem manda na empresa não consegue ver. 

É uma conclusão muito pouco intuitiva e que é difícil de desenvolver com a experiência, porque a experiência diz que as regras são o inimigo da inovação. 

É uma conclusão que é mais fácil de tirar através da recolha e análise de dados com base em métodos de investigação sistemáticos, do que com base na intuição e na reflexão individual. 

É que a política de divulgação científica do nosso bonito país trata as ciências sociais como ciências de segunda. A física, a química e a biologia são divulgadas no Pavilhão do Conhecimento. A psicologia é mais nas páginas das revistas cor-de-rosa. 

Têm que ser os gestores a procurarem oportunidades para descobrirem o conhecimento científico mais recente sobre liderança, marketing e gestão de recursos humanos. Oportunidades como o Portal da Liderança. Senão vamos continuar a ter empresas geridas como os alguns médicos que tratam os seus doentes com base na intuição, ou seja, na experiência de um ano repetido 15 vezes e em mezinhas que aprenderam com a última moda da gestão.

 


Joao-Vieira-Cunha-colunistaJoão Vieira da Cunha é Diretor do Instituto de Investigação e Escola Doutoral da Universidade Europeia de Lisboa e professor visitante na Universidade de Ashrus, na Dinamarca. É doutorado em Gestão pela Sloan School of Management do MIT e Mestre em Comportamento Organizacional pelo ISPA. A sua investigação procura descobrir como é que as empresas podem tirar partido da desobediência dos gestores e dos colaboradores. Tem sido publicado nas principais revistas científicas internacionais na área da gestão e colabora regularmente na imprensa. A sua investigação tem ganho vários prémios internacionais de organizações, como a Academy of Management e a System Dynamics Society. Os seus clientes de consultadoria e formação de executivos incluem o Banco de Portugal, o Ministério da Saúde, a Novabase e o Barclays Bank.