Farrokh Bulsara, esse génio da Liderança – Nuno Rodrigues

Farrokh Bulsara, esse génio da Liderança – Nuno Rodrigues

Sim, duvido que muitos saibam quem foi Farrokh Bulsara, o homem que em tempos disse “eu sempre soube que era uma estrela e agora parece que o resto do Mundo concorda comigo!”. Talvez pelo seu nome artístico de Freddie Mercury (sim, escreve-se com “ie” e não “y”) seja mais fácil associar, mas também suscita a questão evidente… o que tem Farrokh ou Freddie de génio em termos de liderança? Tudo, digo eu.

Não há dúvidas quanto ao percurso meteórico que Freddie Mercury conheceu ao longo da sua carreira, passando de jovem aspirante a estrela, até ser reconhecido como um dos maiores entertainers que o Mundo alguma vez viu. A sua música, carisma, talento e vida são exemplos intemporais que inspiram gerações e movem multidões, passados que estão quase vinte e cinco anos da sua morte. Continua, porém, por explicar porque era Farrokh um génio da liderança e percursor da gestão moderna…

Para responder cabalmente a esta questão, é preciso, de algum modo, analisar as entrelinhas do que ao longo das décadas foi cantado publicamente pelos Queen. Algumas das melhores mensagens de gestão são subliminares e não estão expressas de forma evidente nas letras compostas. Elas mesmas encerram em si mistérios ou segundos sentidos que podem, porém, ser aproveitados pelos líderes modernos.

Em primeiro lugar, é evidente que a um líder exige-se visão. Estamos a falar de alguém que, claramente, terá de reconhecer e incorporar a ideia de “one man, one goal, one vision”, potenciando a estrutura que lidera sob o conceito de “you’ve yet to have your finest hour”. 

Um líder deve ser por natureza ambicioso e não conformista, deve assumir para si que “I’ve got to break free”, procurando incutir na sua equipa um espírito de “we are the champions” permanente. Na prática, assumir a liderança para manter o status quo e o possível sucesso atual de uma empresa (veja-se o exemplo positivo de Tim Cook na Apple) é o primeiro passo para o seu fracasso. É indispensável incutir na organização um sentimento de criação de mais-valia, de “here we are, born to be kings”, e até, por vezes, não aceitar compromissos, mas impor que “I want it all”, desafiando permanentemente os limites da sua equipa.

Por outro lado, assumir a liderança significa igualmente conhecer a organização ou empresa de forma profunda. Questionar se “is this the real life? Is this just fantasy?” que aparece nos inúmeros relatórios e folhas de Excel ou se há algo mais que por debaixo desse véu que nos é dado a conhecer quando assumimos o cargo. É saber fazer as perguntas certas de forma precisa, sem antagonizar os colaboradores e garantir que os mesmos “don’t take offence at my innuendo”, reconhecendo desde logo a necessidade de sólidos apoios internos, ainda que tal exija indagar se “Can anybody find me somebody to love?”.

Entrar numa estrutura como líder é, muitas vezes, reconhecer também que alguns elementos poderão não ter lugar na mesma. Veja-se o que fez José Mourinho nos diferentes clubes em que passou, assumindo conflitos frontais e aplicando o “somebody better put you back into your place” ou até mesmo indo ao extremo do “another one bites the dust”, com os quais conseguiu ganhar os balneários e direções sucessivas de modo a garantir o sucesso. 

É assumir que é necessário enfrentar os desafios futuros com resiliência e dedicação, porque as “bicycle races are coming your way”, sendo um permanente exemplo para todos os colaboradores, pois somos colocados “under pressure that burns a building down” diariamente.

Um líder é igualmente a quem dá a cara pela organização e deve fazê-lo sempre de forma profissional e cativante para o mercado. Sabe-se que “inside my heart is breaking, my make-up may be flaking but my smile still stays on”, porque, ao fim do dia, “the show must go on”!

Outra das preocupações indispensáveis para um líder moderno passa por garantir que é percecionado como alguém justo e equidistante, que sabe pesar e atingir um equilíbrio entre razão e emoção (Sandra Correia, CEO da Pelcor dixit) pois “too much love will kill you”, mas o inverso também é verdade e pode isolar definitivamente a liderança dos liderados.

Assegurando estas premissas, estão reunidas algumas condições básicas para uma liderança de sucesso, cujo passo seguinte é, naturalmente, preparar a sucessão, preocupação que deve estar presente em qualquer momento da tarefa de um líder. Cada líder tem noção da sua finitude temporal e da máxima de “who wants to live forever?”, pelo que escolher alguém da organização para o suceder garante não só uma continuidade, mas também alguma uniformidade na ação da organização que saberá reconhecer uma vida para lá de quem a lidera.

É por estas e muitas outras razões que Freddie Mercury estava à frente do seu tempo, enquanto guru da gestão. Saiu em grande, depois de viver em grande e deixou para sempre uma lenda a si associada. Como? Bem, “it’s a kind of magic”….

 


Nuno-Madeira-Rodrigues-HBD-Colunista-artigosNuno Madeira Rodrigues é CEO do HBD Group desde 2011, fundado pelo multimilionário sul-africano Mark Shuttleworth, lidera o Omali Lodge em São Tomé, o Bom Bom Resort e a Sundy no Príncipe. Presidente da Direção da Associação Empresarial de São Tomé e Príncipe, é Vice-Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários, Presidente do Conselho Fiscal da Associação Lusófona de Energias Renováveis e Membro do Conselho Consultivo da Plataforma Sustentar. Foi advogado sénior da Cuatrecasas em Portugal e Espanha, advogado da Miranda Law Firm em Portugal, Moçambique e Angola, gestor do Grupo Vasco da Gama em Portugal e no Reino Unido para a Europa e África e consultor legal da Deloitte. Licenciado em Direito na Universidade Católica Portuguesa, tem um LLM na Universidade Católica Portuguesa e é Pós-Graduado em Direito Comercial na Universidade Católica Portuguesa. Especializado em Fiscalidade pelo INDEG/ISCTE, é orador em conferências e eventos diversos.