Os bancos, o calcanhar de Aquiles das economias…

Os bancos, o calcanhar de Aquiles das economias…
Não há na economia uma relação mais complicada: a que liga consumidores, empresas e bancos. Sejamos honestos: quantas vezes não lhe apetece, por esta ou aquela razão, mandar bugiar o banco com que trabalha? Se o fizesse, isso resolvia alguma coisa? Provavelmente não, para além de aliviar momentaneamente a frustração… 
 

Camilo Lourenço 

Nos últimos anos esta relação de amor-ódio agravou-se, potenciada pela crise financeira e pelo papel que os bancos tiveram nessa crise. Recordo-me de, no auge da crise financeira, receber mails de telespetadores a queixarem-se que os mesmos bancos que lhes ofereciam tudo e mais alguma coisa seis meses antes, viravam-lhes as costas. Um retrato que parecia querer dar vida ao velho aforismo “um banco é uma instituição que lhe empresta um guarda-chuva quando está sol e que o pede de volta quando começa a chover”. 

Mas preconceitos de lado, vale a pena analisar com algum detalhe o papel dos bancos nas economias. Os últimos sete anos mostraram que nenhum Governo arrisca deixar cair um banco (tirando aquelas banquetas que não têm impacto sistémico), exceto nas situações em que não havia volta a dar. O BPN, por exemplo... 

Faz sentido? Antes de optarmos por uma resposta vale a pena determo-nos um pouco sobre a natureza dos bancos. São instituições que captam poupanças para as colocar ao serviço da economia. Via empréstimos. E o papel que desempenham é central nas economias abertas: com que frequência ouvimos dizer que o dinheiro é o sangue que faz mover as economias; ora, qual é a instituição central neste processo? Os bancos, sem dúvida. Isso explica porque tantos Governos hesitam em deixar fechar um banco quando ele entra em dificuldades: as contas mostram que os custos de deixar falir um banco (garantindo depósitos) é superior ao custo de o manter em funcionamento mediante ajudas públicas. 

Se a situação fosse excecional, isso não constituiria um problema. Mas não é. Em Portugal, por exemplo, desde 2008 o Estado já teve de ajudar o BPN (que fechou), o BPP, o BCP, o BPI e o Banif. As últimas contas, feitas pelo BCE, mostram que as ajudas públicas aos bancos chegaram aos 19,5 mil milhões de euros… Ora, tudo isto leva a colocar uma questão: vale a pena continuar a apoiar um setor que percebeu que o “crime compensa”? Isto é, como os bancos perceberam que, salvo raras exceções, o poder político não tem coragem para fechar as suas portas, qual é o limite para a utilização do dinheiro do contribuinte para estabilizar o sistema financeiro? 

Dado o impacto que um banco sistémico pode ter na economia, não é fácil defender o seu encerramento (veja-se o BES…). O que leva a colocar a questão noutro plano: se não queremos que os bancos fechem as portas, como garantir que os gestores (e até os acionistas) não embarcam num comportamento perigoso, por saberem que o Estado estará sempre por detrás dos acionistas? A resposta só pode estar numa supervisão eficaz: se ninguém quer deixar falir bancos (e há boas razões para não o fazer), o melhor é apertar eficazmente os critérios de fiscalização dos bancos. Caso contrário daqui por cinco anos estaremos a ser confrontados com outros casos… 

P.S – Lembra-se do artigo sobre a “ditadura dos trimestres” (referente à publicação trimestral dos resultados das empresas cotadas)? Pois bem, a CMVM decidiu desobrigar as empresas cotadas em Portugal da obrigatoriedade dessa divulgação. Vamos ver qual a influência desta decisão na gestão das empresas...

18-09-2015


Camilo-Lourenço-FotoNovaCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Comentador de assuntos económicos e financeiros em vários canais de televisão generalista, é também docente universitário. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.