Não me trate por Sr. Dr.

Não me trate por Sr. Dr.

Em qualquer organização – seja pública ou privada, fundação sem fins lucrativos, equipa desportiva… – todos os elementos trazem valor ao sucesso da mesma. Caso contrário, estão lá a mais.

Miguel Ávila

Estava na faculdade quando tive a oportunidade de trabalhar um verão numa multinacional com sede em Silicon Valley. Com 19 anos, no meu primeiro dia como temporário foi-me mostrado o campus da empresa e, por curiosidade, perguntei onde ficava o gabinete do general manager desta divisão com 3.000 funcionários. Foi-me mostrado um cubículo — embora um pouco maior que os outros, não deixava de ser um cubículo; perguntei se seria da assistente dele. “Não! É mesmo do general manager”, disse-me a responsável de Recursos Humanos.

Poucos dias mais tarde conheci o tal senhor, trajando um avental durante um piquenique nos jardins da empresa. Estava a servir comida aos trabalhadores e a agradecer-lhes pela contribuição para o sucesso da empresa. Fiquei deveras impressionado com o seu estilo de liderança. Embora licenciado e com vários mestrados, era conhecido apenas pelo seu primeiro nome. 

Passados alguns anos, eu já licenciado e com emprego efetivo noutra multinacional, deparei-me com o presidente da empresa que visitava os laboratórios onde eu trabalhava. Apresentou-se pelo primeiro nome e eu respondi da mesma forma. A partir daí sempre que me encontrava cumprimentava-me pelo meu nome. E assinava todas as comunicações aos empregados tratando-nos por colegas, assinando apenas o nome próprio.

Embora em certas ocasiões possa ser necessário ser apresentado pelos títulos académicos, quando se trata de empresas, hoje não se deve tratar por Sr./a. Dr./a. Tratar pelos títulos académicos distancia o relacionamento entre colegas – mesmo em diferentes escalões da empresa. Em qualquer organização – seja pública ou privada, fundação sem fins lucrativos, equipa desportiva… – todos os elementos trazem valor ao sucesso da mesma. Caso contrário, estão lá a mais.

Um técnico de limpeza, um guarda ou segurança, um operador da linha de produção, um vice-presidente ou uma presidente da empresa – todos têm um papel importante no seu sucesso. Desde cedo na minha carreira profissional segui este exemplo, conhecendo bem colegas a todos os níveis da empresa.

Há poucos anos, a minha chefe e presidente da companhia chegou a uma das fábricas para assistir a umas reuniões, e o guarda fê-la esperar 20 minutos até conferir com alguém se deveria autorizar a sua entrada. Acontece que, momentos antes, eu próprio passei pelo guarda, cumprimentei-o, apresentei-me, disse-lhe quem iria visitar e em menos de um minuto entrei na fábrica.

Não são apenas os licenciados, mestres ou doutorados que merecem o nosso respeito e apreço. Com uma população equivalente à da zona metropolitana de Lisboa, Silicon Valley conta com pessoas altamente qualificadas, onde 26% são licenciados e outros 20% possuem mestrados ou doutoramentos. E onde mesmo os doutorados são tratados pelos nomes próprios.

Assim, por favor, não me tratem por Sr. Dr. 

17-01-2016

 

MiguelAvilaOPMiguel Ávila, vice-presidente de Qualidade e Conformidade Regulatória na Cordis (ex-Johnson & Johnson) empresa do grupo Cardinal Health que desenvolve e fabrica tecnologia vascular intervencional, é um líder na comunidade luso-americana na Califórnia.
Cofundador, ex-presidente e conselheiro da Aristides de Sousa Mendes Foundation, é cofundador e diretor da editora Portuguese Heritage Publications of California, e ex-presidente do conselho consultivo do Programa de Estudos Lusófonos da San José State University. Autor de várias publicações, foi, durante 16 anos, diretor-adjunto do jornal Tribuna Portuguesa, do qual é diretor desde outubro de 2015.
Natural de Angra do Heroísmo, nos Açores, é licenciado em Ciências Biológicas e mestre em Administração Pública pela San José State University. Iniciou a carreira profissional como químico na BioTrack (produtos de monitorização de fármacos terapêuticos da Ciba-Corning). Seguiram-se 21 anos na Johnson & Johnson (J&J), onde mais recentemente foi diretor executivo de Qualidade e Conformidade Regulatória na Cordis. Entre março de 2011 e julho de 2015 ocupou o cargo de diretor executivo de Qualidade e foi membro do conselho de administração da Mentor Worldwide LLC, do grupo J&J, empresa em que ingressou como diretor de Engenharia da Qualidade, responsável pela introdução de novos produtos; ainda na Mentor, assumiu responsabilidades acrescidas em Qualidade e Conformidade Regulatória, assim como Qualidade e Assuntos Regulatórios na sucursal Pérouse Plastie, em França. Antes da Mentor, dirigiu um programa do setor de dispositivos médicos na J&J. Também ocupou o cargo de diretor de Qualidade e Pesquisa na Conor Medsystems, na Califórnia; e foi diretor mundial de Sistemas de Qualidade na Cordis Corporation em Miami Lakes, Flórida. Ocupou ainda cargos de gestão por mais de dez anos em Operações de Qualidade, Laboratórios, Engenharia da Qualidade, Desenvolvimento de Novos Produtos e Sistemas de Qualidade na LifeScan.