A solução do Joe

A solução do Joe

Esta é a primeira das minhas crónicas no Portal da Liderança, sendo que gostava de vos contar histórias de liderança no retalho.

Sandra Brito Pereira

Este setor, em que todos nos sentimos de alguma forma vendedores e merceeiros, traz consigo perfis de liderança muito característicos, intensos na intuição e na razão, complexos na assertividade e na empatia, mas todos empolgantes e apaixonantes para uma cientista social com etiqueta de gestora. Trata-se deliberadamente de uma generalização que pecará sempre por privilegiar um perfil médio e, mais que enfatizar os pontos fortes ou as vulnerabilidades destes perfis, gostava de aproveitar esta experiência, tão enriquecedora nesta indústria, para vos contar histórias reais de homens e mulheres que têm este negócio colado ao corpo e cuja alma já se rendeu, há muito, à voracidade das vendas!

Vou contar-vos uma história verídica que me foi contada na primeira pessoa: um clube de golf elitista e afamado nos EUA deparou com um problema grave na sua operação. Convocou-se uma reunião do conselho consultivo e foi solicitada a presença especial de um consultor estratégico para ajudar na resolução do grave problema. E do que se tratava? As amenities dos balneários dos clientes importantíssimos que frequentavam o clube desapareciam misteriosamente. Eram pura e simplesmente “subtraídas” pelos clientes, mas o assunto não podia ser abordado com esta frontalidade. Era uma questão deveras delicada. Daí a presença do consultor estratégico na reunião convocada de urgência.

Um dos membros do conselho consultivo era um homem do retalho e distribuição alimentar. Uma vida inteira nas várias operações do negócio, conhecedor de toda a cadeia de valor, das compras, passando pela logística e a experiência de loja. Um homem sagaz, experiente e, como é apanágio desta indústria, muito pragmático e focado nos resultados, sempre em jeito de “deixem-se de tretas”. Do alto dos seus 80 anos, lançou uma pergunta à mesa oval, longa e distante do seu conselho consultivo: “Alguém falou com o Joe?” Os presentes, aparentemente surpreendidos, viraram-se uns para os outros questionando, “quem é o Joe?”. A que respondeu, pausadamente: “O Joe é o homem que trabalha nos balneários há mais de 20 anos”. “Hum”, ouviu-se em uníssono, som seguido de uma displicência generalizada à prosaica sugestão do homem do retalho. Mas a resiliência é também característica destes perfis e ele não desatou. Rematou mesmo com “porque não chamamos o Joe cá acima e lhe expomos o que se passa, pode ser que ele tenha alguma sugestão”. O consultor estratégico já regozijava na expectativa de fees suplementares depois do flop desta sugestão do merceeiro.

E o Joe subiu. E o homem do retalho atalhou: “Olha lá, Joe, esses finórios andam a roubar gel e champô dos balneários?”. E o homem sorriu timidamente e confirmou: “Pois andam, já tenho notado”, e um esgar sarcástico cresceu nos seus olhos e concluiu: “Parece uma competição para ver quem leva mais”. Tudo siderado, tudo calado, o ambiente emudeceu. E vai o homem do retalho, sem dar tempo a mais ninguém de intervir: “Olha lá, Joe, e o que é que tu achas que se podia fazer para evitar as brincadeiras desses senhores?”. O Joe resplandeceu e desafiou: “Eu tenho uma solução!”. “Ahhhhhhhh”, ouviu-se de todos, e um dos conselheiros desatou: “E para quando essa solução? Quanto tempo para a sua implementação? É muito cara?”. E o Joe, do alto da sua serenidade mandou: “Daqui a 15 minutos venham ter comigo aos balneários que eu explico-vos a solução!”.

E assim foi, sete conselheiros e um consultor estratégico dirigiram-se ao balneário e foram ter com o Joe. Este disse-lhes: “Observem bem à vossa volta e vejam a solução que encontrei”. À primeira vista, ninguém conseguiu vislumbrar qualquer alteração. Até que o nosso homem do retalho, de vista fina e apurada, desatou numa gargalhada, deu um abraço ao Joe, combinou ir pescar com ele nesse fim de semana e, já a despedir-se de todos os outros, lançou: “Vejam, o Joe tirou as tampas às amenities!”. E ria desbragadamente. É assim a liderança no retalho.

25-01-2016

 

SandraBritoPereiraOPSandra Brito Pereira, head of global learning no grupo Jerónimo Martins, é licenciada em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, tem um MBA na Universidade Nova de Lisboa, é mestre em Gestão pela Universidade Nova de Lisboa e doutorada em Psicologia Organizacional pelo ISPA. Tem experiência na docência em matérias de direito e gestão em várias licenciaturas e mestrados, bem como de advogada e consultora nas áreas de direito societário, imobiliário, turístico/hoteleiro e laboral. Foi chefe de gabinete do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Tesouro e Finanças e do Ministro da Presidência. Ocupou o cargo de administradora executiva na Invesfer (empresa participada da Refer na área de rentabilização de ativos imobiliários), e exerceu a função de diretora na Carris (património imobiliário, recursos humanos, desenvolvimento organizacional e relações internacionais). Nos recursos humanos, trabalhou sempre primordialmente nas áreas de desenvolvimento organizacional, mudança organizacional, comunicação interna, gestão de talento, programas de liderança.