Socorro, vou gravar uma entrevista em vídeo! Olho para onde?

Socorro, vou gravar uma entrevista em vídeo! Olho para onde?

Vai gravar um vídeo/entrevista e quer descobrir como ler e olhar para a câmara? E de preferência que os outros não notem (muito) que está a ler? Muito bem, vou revelar-lhe para onde deve olhar um líder digital (inspirada na conferência “O Futuro da Energia”*).

Sara Batalha

Tudo começa com esta grande questão filosófica: “Olho para onde?”.
Se isto já lhe aconteceu ou pode muito bem vir a acontecer, coloque em prática esta regra de ouro: escolha um foco visual. Um apenas.

Quando é gravado em vídeo tem três opções de “para onde olhar”. Escolha uma:
A) Olhar diretamente para a câmara de filmar, e apenas para ela.
B) Olhar diretamente para a lente.
C) Olhar diretamente para o jornalista ou alguém que faça esse papel.

A) Olhar diretamente para a câmara, e apenas para ela.
Objetivo: Mostrar que está preparado e que sabe o que quer dizer.
Recomendação: Pense na câmara como se fosse uma pessoa. Não fala com alguém a olhar para os pés, certo? Ou para os ombros? Pois aqui aplica-se o mesmo princípio. Manter um contacto visual mais aberto, no “rosto” da câmara, permitirá que o seu olhar tenha movimento e ajuda a transmitir emoção no discurso. Portanto, olhar para as suas notas vai denunciar insegurança e vai dar a ideia de que não está a ouvir a audiência. Por isso, olhe diretamente para a câmara e converse com ela. Pode até colocar uma foto de alguém que goste muito ao lado da lente, e fazer de conta que esta a conversar com a pessoa – alguns dos nossos clientes fazem isso, porque não experimentar?

B) Olhar diretamente para a lente.
Objetivo: Passar a imagem de estar a falar diretamente com a audiência, ao vivo, como se estivesse no local.
Recomendação: Para trazer naturalidade ao discurso, pense na lente como se fosse os olhos de alguém. Ora, se não quer parecer o Francisco Louçã, a olhar fixamente, sem pestanejar, talvez seja boa ideia pestanejar, mexer as sobrancelhas e mexer alguns músculos do rosto. Duvida? Veja-se lá ao espelho, com um olhar fixo, sem pestanejar… medo! Caso seja esta a emoção que quer passar, continue. Caso deseje passar, por exemplo, confiança, mantenha o olhar centrado na lente, e vá mais longe, surpreenda a audiência. Como? Imagine a sua última boa conversa num jantar de amigos. Uns falam, outros ouvem. Tal como desvia o olhar, à procura de informação, e os outros o observam, também num vídeo/entrevista, é importante que a audiência sinta espaço para o poder observar. E lembre-se: quando estamos verdadeiramente descontraídos o nosso olhar dança, mexe-se, permite que o outro nos olhe também. Olhe nos olhos, e seja visto como um orador confiante.

C) Olhar diretamente para o jornalista ou alguém que faça esse papel.
Objetivo: Fazer de conta que está muito bem preparado e que apenas está a responder a um famoso jornalista, que por acaso é muito simpático e seu amigo. Mas, na verdade, está a olhar para as tais notas.
Recomendação: Tal como na opção B), o olhar também aqui deve ter algum movimento. Por isso, pode colocar alguns “emoticons” para se lembrar de expressar as emoções adequadas. Até porque a televisão é um meio frio, e, como tal, desvanece as emoções. Por isso, transmitir um pouco mais de emoção do que o “seu” normal, é positivo, para si e para a sua audiência. Para além disto, é importante que os seus pés, o seu umbigo e o seu rosto fiquem de frente para o tal “jornalista faz de conta”. Assim irá mostrar que é uma pessoa interessada e que sabe ouvir. E por último, as notas devem ser apenas isso mesmo – notas muito curtas, tão curtas que se resumem a palavras-chave, esquema ou três mensagens-chave. Se cair em tentação e decidir escrever e ler frases completas, volta tudo ao início – um aborrecimento.

Ah, e se ainda está a pensar no teleponto. Esqueça. Deixe isso para profissionais. O último CEO que me lembro de querer treinar tal coisa não sobreviveu. O teleponto, claro.

E por hoje chega. Quando gravar um vídeo/entrevista, lembre-se de cometer outros erros, mas não estes, sim? A audiência agradece e não adormece.

*Artigo inspirado no vídeo/entrevista a Lazlo Varro, chief economist da International Energy Agency, @Conferência O Futuro da Energia | Expresso | EDP - 30/06/2016

01-07-2016

 

SaraBatalha2Sara Batalha (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.), CEO da MTW Portugal (que integra a Media Training Worldwide Global, empresa de origem americana especializada em media training, public speaking e presentation training skills), recebeu formação em Nova Iorque pelo presidente da MTW Global, TJ Walker. Autora do método “desconstrução do discurso” (com o qual treina a comunicação de políticos, CEO, empresários e profissionais que querem influenciar através da sua comunicação), é certificada em coaching pela International Coaching Community, em DiSC 2.0 pela Inscape, e em micro expressões pelo Paul Ekman Group, aplicando esse conhecimento na especialização em communication behaviour profile analyst.
Acumula cerca de 20 anos de experiência em comunicação, tendo sido jornalista e coordenadora de redação por mais de uma década (“Expresso”, RTP1 e RTP2). Foi consultora de comunicação para agências e empresas, lecionou no CENJOR - Centro de Formação Avançada para Jornalistas, e é docente convidada em universidades do país. É ainda oradora frequente em conferências nacionais e internacionais, marcando presença nos media com análise política em linguagem não-verbal.