Quadrados e bolas disformes

Quadrados e bolas disformes

Para simbolizar cada função da hierarquia desenhamos quadrados. É aqui que começa o erro. Porque as funções são desempenhadas por pessoas, e as pessoas não são quadrados, são bolas disformes.

Pedro Afonso

“Super homens” e “super mulheres” é coisa antiga. Hoje, são as “super equipas” que fazem coisas diferentes. Com impacto.

Primeiro, escolhemos os melhores e desafiamo-los a aderir a uma causa. Depois, fazemos com que confiem uns nos outros, que acreditem na mesma pauta de objetivos, na mesma pauta de valores.

Aqui impõe-se uma questão: será que temos hoje uma crise de valor ou uma crise de valores? A verdade é que o que nos chega todos os dias pelos media são as diversas crises de valor. Mas então, onde ficam os valores?

A nossa sociedade copiou o modelo da mais antiga organização do mundo, a Igreja Católica, que se organiza de forma hierárquica. É assim numa família, numa empresa ou até numa entidade estatal. Enquanto hierárquica, desenhamo-la em linhas direitas e, para simbolizar cada função dessa hierarquia, desenhamos… quadrados! E é aqui que começa o erro. Porque as funções são desempenhadas por pessoas, e as pessoas não são quadrados, são bolas disformes. E não há uma bola disforme igual à outra, tal como não há duas pessoas iguais. São [somos] todos diferentes.

Portanto, o que acontece quando aplicamos quadrados em cima de bolas disformes? Ora, a parte disforme, aquela que nos torna únicos e que nos faz contribuir nas nossas comunidades, famílias ou empresas, para as tornarmos mais ricas e únicas, perde-se… os quadrados abafam tudo.

Então e se começarmos a colocar os quadrados por fora das bolas? Talvez assim consigamos manter a diversidade que cada um de nós traz à sociedade. Os processos, as métricas, as ferramentas, os incentivos, a estratégia, são alguns dos elementos aos quais os gestores dão maior atenção. Mas o Manuel, a Marta, a Magda, o João, o Pedro, o Paulo, são a dimensão mais importante e diferenciadora de uma equipa, de uma empresa, de uma família. De toda a sociedade.

Tal como disse Paul Kearns, britânico especialista em Recursos Humanos, “para gerirmos pessoas, temos de gostar de pessoas”. E, para isto, precisamos de líderes. E, depois, há o velhinho “exemplo”, ainda hoje, o mais eficaz de todos os valores de liderança. Porque dar o primeiro passo requer coragem. Requer determinação. Requer sentir que estamos ao serviço do todo, e não o todo a servir-nos. Mas, para chegarmos a este nível de consciência, temos de nos aventurar numa viagem às nossas próprias entranhas.

Estudam-se hoje as novas gerações. A geração X. A geração Y. A geração Z. As suas aspirações. Os novos padrões de comportamento. Acredito que existe um aspeto comum a todas estas gerações, que valorizaremos sempre, e que é agnóstico à idade e à geração: a vontade! A vontade de ser. A vontade de contribuir para um todo maior que nós, e onde nos revemos nos seus valores.

Sinto que esta é a fórmula. É gostando de pessoas e com coragem que, pelo exemplo, juntamos várias gerações com vontade e construímos super equipas. É gostando de pessoas que ultrapassamos os quadrados que nos impõem e acabamos a fazer coisas maiores que nós, com base em valores que sentimos como nossos.

E agora? Já podemos começar a colocar os quadrados por fora das bolas? 

10-10-2016


PedroAfonsoNovabase

Pedro Afonso, managing director da Novabase Infrastructures & Managed Services desde 2013, tem vasta experiência na criação e transformação de negócios e empresas.
Anteriormente liderou a divisão de digital TV da Novabase, função em que combinou o desenvolvimento e criação de novos negócios com a experiência na transformação de empresas com vista a obter sinergias e implementar novos modelos de negócio, quer em Portugal quer a nível internacional. Liderou e concretizou o processo de fusão e aquisição desta área. Foi ainda administrador de várias empresas do grupo relacionadas com a Novabase Capital, braço de capital de risco do grupo Novabase.
Há 17 anos a trabalhar em Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), ingressou na Novabase há cerca de 15, após a aquisição por esta da start up onde trabalhava. Ali evoluiu como gestor, tendo sido nas telecomunicações que desenvolveu o conhecimento pelo setor empresarial em geral.
Antigo aluno do Colégio Militar, Pedro Afonso é licenciado em Engenharia Informática e de Computadores, com especialização em Sistemas Computacionais pelo Instituto Superior Técnico, tendo também um Advanced Management Program pela Universidade Católica Portuguesa.