O ovo ou a galinha?

O ovo ou a galinha?

Qual se deve tratar primeiro? Bem-estar ou propósito? Embora sem certezas, penso que este último deve ser prioritário. Arriscaria até dizer que sem um propósito ficamos quase sem “alma”.

Ricardo Oliveira Nunes

A pergunta universal sobre o que afinal apareceu primeiro resiste ao tempo e continua a apaixonar gerações, mesmo na era das redes sociais. Há argumentação forte de ambos os lados mas ninguém tem certezas, mesmo ao fim de tantos séculos de discussão!

Muito se debate sobre as fórmulas mágicas de conseguir uma organização de sucesso e como ter os colaboradores mais satisfeitos do mercado. Invariavelmente, a discussão recai sobre os modelos de liderança e de trabalho, bem como regalias/benefícios atribuídos.

Há páginas de discussão sobre este assunto, mas interessa-me uma diferente abordagem ao tema. Após alguma investigação e anos de experiência a trabalhar numa das maiores empresas portuguesas, não tenho dúvidas de que o segredo do sucesso de qualquer organização assenta no conceito de purpose/well-being (propósito/bem-estar).

Não estou apenas a falar da boa forma física de cada um, mas, sobretudo, nos compromissos, relacionamentos, sentido do dever cumprido e muitas outras emoções positivas que devem ser estimuladas.

Por isso, quando falamos deste conceito, temos sempre de ter em mente duas perspetivas interligadas: a do indivíduo e a da organização. É esta interação que as novas lideranças não podem ignorar. Têm de perceber, de uma vez por todas, que o nível de well-being de cada colaborador será sempre o fator determinante para todo o well-being organizacional. Os que desprezarem esta realidade estão condenados ao insucesso. Já os que a estimularem vão recolher os lucros.

No entanto, discutir o well-being só faz sentido se incluirmos a ideia de purpose. Ou seja, a nossa motivação objetiva de vida: aquilo que nos faz levantar e caminhar todas as manhãs. Mas este não pode ser um conceito abstrato e metafísico. Antes pelo contrário. Deve ser algo bem real que cada um de nós deve definir para a sua vida individual, bem como para as respetivas organizações. E é aqui que surge o grande dilema deste modelo: devemos começar por tratar do well-being e depois encontrar um purpose ou fazer o inverso?

Embora sem certezas, penso que o purpose, como principal motor da vida de cada um e de todas as organizações, deve ser prioritário. Arriscaria até dizer que sem um purpose ficamos quase sem “alma”.

Por isso, insisto: a primazia de cada um de nós – e das organizações – deve ser a definição de um purpose, como uma espécie de alicerce de tudo o resto. Não é fácil, e sobretudo não é simples, mas talvez por isso mesmo seja um dos nossos maiores desafios. Não devemos, no entanto, passar horas a pensar como o vamos encontrar. Devemos sim começar por definir pequenos objetivos e viver experiências novas. Garanto, e falo por experiência própria, que, quando chegar o momento, quase sem que nos apercebamos, teremos o nosso purpose definido.

Este caminho deve ser uma descoberta natural, não obsessiva, e nunca nos poderemos esquecer de que os nossos purposes não são estáticos. Tal como nós, também eles vão evoluindo ao longo da vida.

Dito isto, servem também as razões apontadas para aplicar este modelo às nossas organizações e lideranças. Nunca deveremos esquecer, no entanto, que o purpose de quem lidera deve estar alinhado com o da própria organização. Só assim poderá existir a identificação e a comunhão necessárias entre duas partes que se complementam.

A felicidade e o sucesso dos nossos colaboradores e das nossas empresas passam por uma definição de um purpose organizacional, seguido de uma luta pela conquista do well-being individual de todos. Seguramente que, com esta conjugação, se alcançará um maior well-being de toda a empresa. E de tal forma acredito neste modelo que tenho como purpose pessoal implementá-lo na empresa onde trabalho há 19 anos.

Sonho com o dia em que todos os nossos colaboradores vêm sempre trabalhar… com um sorriso na cara. E, nesse dia, esta minha missão estará cumprida. 

19-12-2017


Portal da Liderança


RicardoOliveiraNunes Small

Ricardo Oliveira Nunes, executive director na Novabase, é responsável pelas áreas transversais do negócio de financial services na empresa e tem como principais funções a gestão e o acompanhamento das áreas de talento. A sua principal paixão é criar e motivar equipas para os vários projetos. 
Nos últimos 20 anos liderou equipas, desenvolveu e entregou projetos em alguns dos maiores clientes portugueses e internacionais no negócio de serviços financeiros da Novabase. Do seu percurso profissional fazem ainda parte empresas como o BCP e a Eurociber. 
Licenciado em Engenharia Eletrotécnica e Computadores pelo Instituto Superior Técnico, tem um mestrado em Engenharia Eletrotécnica e Computadores. 
Amante de Legos (em especial de toda a saga Star Wars), adora História, viagens e bons restaurantes, sempre rodeado dos amigos.