Irá a inteligência artificial “roubar” emprego?

Irá a inteligência artificial “roubar” emprego?

A generalização da IA e a sua aplicação em vários domínios veio criar uma nova vaga de oportunidades de emprego, altamente especializado, onde a procura de profissionais supera largamente a oferta.

Bruno Antunes

A inteligência artificial (IA) está cada vez mais presente nas nossas vidas. Desde o assistente pessoal no seu telemóvel às recomendações de produtos que recebe na sua loja online preferida, é provável que tenha contacto com algum tipo de IA várias vezes ao dia sem sequer se aperceber.

Depois do computador, do smartphone e da internet, a IA é a grande revolução tecnológica. Estamos apenas no início mas alguns setores assumem-se já como líderes na adoção de tecnologias baseadas em IA, como é o caso das telecomunicações, dos serviços financeiros ou dos transportes. São setores tradicionalmente mais abertos à adoção tecnológica e onde a automação traz ganhos operacionais significativos.

Uma das preocupações que se tem levantado nos últimos tempos é a de que, com a generalização da IA e a automação que ela implica, muitos empregos vão desaparecer e o desemprego irá aumentar. Mas a História mostra exatamente o contrário. A evolução tecnológica, que tem sido constante ao longo das últimas décadas, trouxe consigo a criação de mais emprego e não a diminuição efetiva do mesmo.

Um dos exemplos mais citados é a da introdução das máquinas ATM, na década de 1960, que gerou uma grande preocupação, por se acreditar que ia acabar com os empregos dos funcionários das instituições bancárias que lidavam diretamente com os clientes. O que aconteceu, na verdade, foi os funcionários terem sido direcionados para outro tipo de funções, mais focadas na criação de uma relação com o cliente, aconselhamento financeiro e venda de produtos mais complexos. Por outro lado, a redução dos custos operacionais permitiu aos bancos a abertura de mais agências, o que levou, por sua vez, à criação de mais emprego.

Nesta questão específica do emprego, na minha opinião, a IA possibilita a automatização de um conjunto de tarefas monótonas e repetitivas, tipicamente potenciadoras de stress e fadiga, permitindo direcionar as pessoas para tarefas mais desafiantes e também mais compensadoras, nomeadamente que envolvam criatividade, resolução de problemas ou tomada de decisão. A verdade é que a IA deve ser vista como complementar à atividade humana, libertando-nos para as tarefas em que somos realmente bons e insubstituíveis, e ajudando-nos a fazer o nosso trabalho de forma mais eficaz e eficiente.

Por outro lado, a generalização da IA e a sua aplicação em variados domínios veio criar uma nova vaga de oportunidades de emprego, altamente especializado, onde a procura de profissionais supera largamente a oferta. Esta nova realidade está a obrigar as empresas a criar novas posições nos seus quadros, ou mesmo equipas inteiras dedicadas exclusivamente às áreas de aplicação da IA.

A revolução tecnológica proporcionada pela IA colocará certamente desafios à nossa sociedade, como colocaram as outras antes de si, e o mais provável é assistirmos a uma transformação do emprego. Afinal de contas, se cada nova revolução traz muitas dúvidas, estou certo de que trará mais oportunidades do que riscos e que irá resultar positivamente, no sentido de criação de mais (e novos) postos de trabalho, como sempre tem acontecido.

17-01-2018


Portal da Liderança


Bruno Antunes Small

Bruno Antunes, head of cognitive computing no negócio de financial services da Novabase, é doutorado em Tecnologias e Ciências da Informação pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, onde fez todo o seu percurso académico. Colaborou em vários projetos de investigação ligados à área de inteligência artificial (IA) desenvolvidos no Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra, primeiro como assistente e mais tarde como investigador. Em 2009 foi cofundador da Wizdee, uma start-up dedicada ao desenvolvimento de um produto disruptivo que utilizava diferentes tecnologias de IA para tornar a inteligência do negócio tão fácil como fazer uma pergunta em linguagem natural, onde se manteve como chief technology officer até 2017. Foi neste ano que se juntou à Novabase, onde lidera uma unidade dedicada à aplicação das últimas tecnologias cognitivas para resolver os problemas mais complexos.