É tempo de resgatarmos os nossos superpoderes

É tempo de resgatarmos os nossos superpoderes

Numa nova era de incerteza, complexidade e de frequente disrupção, atributos essenciais tão valorizados no passado pelas empresas (e ainda pelas escolas), como a autodisciplina, a consciência, a capacidade em seguir o sistema e de nos conformarmos com as regras, já não serão suficientes para garantir o sucesso.

Miguel Leocádio

É tempo de valorizar os nossos superpoderes, aqueles que às vezes traduzem simultaneamente as nossas fraquezas, mas que, no contexto certo, são o nosso “motor” de superação. 

O primeiro passo implica fazermos uma reflexão séria sobre o nosso autoconhecimento, sabermos reconhecer quem somos (para lá de como fazemos). E somos aquilo que acreditamos ser, o que nem sempre é evidente sem uma reflexão mais profunda. Terá cada um de nós uma resposta fácil para esta questão? E conseguimos reconhecer, a partir daí, qual o nosso superpoder? Acreditem que todos temos pelo menos um, e que este pode ser tão diverso como conseguir ler um livro todos os dias, ter uma super memória, ter forte empatia, ser minucioso e obstinadamente analítico, ser um “doer” como se não houvesse amanhã, ou mesmo ter uma claríssima consciência de si. 

O segundo passo é confrontarmos este autoconhecimento com o contexto em que estamos inseridos – até que ponto o nosso propósito e as nossas características distintas estão a servir as nossas práticas e desafios. Recorrendo à metáfora do autor do livro “Barking Up the Wrong Tree”, Eric Barker: “estarei eu a nadar no lago certo, ou estarei a nadar no lago errado?”. Este parece-me o ponto central, pois o nosso desenvolvimento ocorre a partir daí. E porquê? Porque é a identificação do que somos com o que fazemos que nos permite alcançar um mindset de crescimento, níveis elevados de perseverança e paixão, e forte predisposição para dar, fatores-chave de sucesso nesta era de disrupção. 

O terceiro passo será atuar. E enganam-se aqueles que pensam que isso representa fazer mais. É que, na verdade, muitas vezes o que necessitamos é precisamente o contrário: fazer menos (ou, eventualmente, fazer diferente). Menos distrações, menos objetivos, menos tarefas sem real valor. E é um grande desafio escolher dizer não ou abandonar algumas delas. Tão grande como o impacto que daí resulta. Necessitamos de menos para nos focarmos nas nossas prioridades e aí aplicarmos os nossos superpoderes com perseverança, coragem e mindset de crescimento. Experimente elaborar listas “not to-do”, característica comum nos líderes de maior sucesso. 

Estou certo de que os desafios de liderança são cada vez mais conciliar e auxiliar o "desenvolvimento de diferentes “super-heróis”, tirando partido dos seus superpoderes, sem os aniquilar, mas sim expondo-os, suportando o seu crescimento. É um processo que necessita de uma cultura de desenvolvimento, onde o conflito e oposição de ideias devem ser valorizados e não simplesmente geridos para os eliminar. Onde as “I statements” são o novo normal, e um mindset de crescimento deve imperar. É um caminho longo mas inadiável para quem quer liderar na nova economia da disrupção.

23-02-2018


Portal da Liderança


Miguel LeocádioSmall

Miguel Leocádio é executivo na Novabase, onde se encontra desde 2010. Licenciado em Engenharia e Gestão Industrial e mestre em Engenharia e Gestão de Tecnologia pelo Instituto Superior Técnico, tem 20 anos de experiência profissional, na indústria e no setor dos serviços, a maior parte dos quais em consultoria e tecnologia. No passado foi consultor em gestão da produção e otimização de processos com suporte nas TI no setor industrial. Desenvolveu projetos em Portugal, na Grécia e em Moçambique. Posteriormente, esteve na criação de uma nova empresa de consultoria para apoio à formação em Portugal das Cidades e Regiões Digitais, que suportaram as políticas de Governo Eletrónico no período de 2003-2004. Foi ainda chefe de gabinete no Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior no XVII Governo Constitucional, entre 2005-2009.
Entusiasta das práticas de design como alavanca dos processos de inovação, gosta de observar o mundo pela perspetiva de behavioural economics. Reflete e publica regularmente sobre o papel das políticas públicas, em particular nas áreas da educação, ciência e tecnologia e mudança tecnológica.
Baterista nas horas livres, tem na música uma paixão, e acredita que esse seu lado artístico o eleva profissionalmente, motivando-o a dar largas à criatividade e a “pensar fora da caixa”.

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