It’s not all about the money

It’s not all about the money

A pergunta de 1 milhão de dólares: o que nos leva a fazer algo pro-bono, investindo o nosso tempo, por vezes o nosso próprio dinheiro, perder horas de sono e deixarmos de fazer outras coisas que nos dão prazer?

Nuno Oliveira

Sou voluntário numa instituição internacional sem fins lucrativos que tem como missão melhorar as competências de comunicação e liderança dos seus membros. Nos últimos anos esta instituição decidiu implementar um novo sistema educativo, totalmente inovador, que exigiu uma profunda transformação em toda a sua estrutura. E ficou a questão: como conseguir que os (apenas) 150 colaboradores da organização conseguissem divulgar as alterações em 141 países? 

Há cerca de dois anos, numa conferência em Madrid, tive o privilégio de discutir este tema com o presidente da instituição. Quando lhe perguntei se iriam contratar mais pessoas para implementar a alteração, respondeu-me: “Os nossos colaboradores são excelentes, mas vamos antes apoiar-nos em voluntários. Porque quando queremos algo bem feito recorremos sempre a voluntários”. 

Na altura confesso que pensei que ele estaria a desconversar. Como pode uma pessoa que não recebe nenhuma compensação financeira por um serviço executá-lo melhor que outra cuja obrigação e função é precisamente cumpri-lo? O resultado foi surpreendente: a organização conseguiu juntar 3.000 “formiguinhas voluntárias” para a tarefa. Já agora, eu fui uma delas… 

Quando estou do “outro lado da barricada”, a organizar eventos, formações, conferências, a verdade é que consigo sempre apoio de um número considerável de voluntários. Um dia perguntei a mim mesmo como é que isto se conseguia, que técnicas de persuasão se usam para levar outros a participarem voluntariamente neste tipo de iniciativas. Cheguei a três razões principais:

Reconhecimento. Sabemos que, regra geral, quando fazemos algo apenas pelo ordenado não esperamos muito mais em troca. Cumprimos o que era suposto, no final do mês levamos para casa o salário. Mas, quando fazemos apenas pelo simples gosto de o fazer (paixão!), basta-nos um pagamento emocional. Abraham Maslow, psicólogo americano, na sua teoria “A Pirâmide da Hierarquia de Necessidades”, defende que, quando cumpridas as necessidades fisiológicas (ar, comida, descanso, etc.), de segurança (abrigo) e sociais (ser amado/inclusão), procuramos as do ego: autoestima, poder e… reconhecimento. 

Autossatisfação. Um dia alguém comentou comigo que passar uma noite na rua a distribuir alimentos aos mais carenciados era quase um ato egoísta, tal era a satisfação com que o fazia e que tirava daquele momento. Comecei por achar um disparate, mas a verdade é que até consegui entender o raciocínio: o ato de ajudar o outro é algo que nos dá uma enorme satisfação pessoal. E isso apenas se consegue com um nível elevado de altruísmo. 

Contribuição. Contribuir para algo maior que nós próprios. Cada um de nós encontra dentro de si um sentido muito pessoal de contribuição social. Sabemos que, enquanto seres humanos, somos mais fortes se nos unirmos. A união faz a força, certo? E sabemos que, para obtermos esse resultado final temos de dar, todos nós. Não emprestar ou vender. Dar. 

Por isso, a próxima vez que precisarem da colaboração voluntária de alguém, ofereçam-lhe o “pagamento” de contribuir para algo alinhado com os seus valores. E, no fim, não se esqueçam do merecido reconhecimento

Tenho isto presente todos os dias. Como líder… e como formiguinha voluntária.

10-04-2018


Portal da Liderança


Nuno Oliveira Novabase Small

Nuno Oliveira é consultor de negócio da Novabase. Licenciado em Engenharia Informática pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, passou por empresas como a Portugal Telecom, a Exictos ou a Accenture. 
É formador em comunicação, tendo participado em concursos europeus de discursos. Foi ainda orador num Ignite, onde falou de glossofobia (medo de falar em público). Acredita que cada pessoa tem qualidades escondidas que muitas vezes estão por explorar, e que pode fazer a diferença ajudando a descobrir e a potenciar essas qualidades.