Máscaras e fadas

Máscaras e fadas

Na idade adulta aprender requer sermos capazes de arriscar, de mostrar vulnerabilidade, de pedir ajuda. Abdicar do apego ao controlo, da necessidade de aprovação dos outros, do medo de falhar.

Eva Reis
 

O tema é complexo, e a lente que vou usar é simples e pessoal. Nos últimos anos a aprendizagem tornou-se um tema quente quando falamos de evolução cultural, social e económica. É um denominador comum nos inúmeros programas de liderança, de formação, de mentoring, de coaching e tantos outros em que as organizações investem, com o propósito de criar líderes ágeis, culturas colaborativas e férteis, capazes de atrair e promover talento.

Organizações que aprendem vivem de pessoas que aprendem. Aprender é natural na infância. Mas, e ser adulto, significa exatamente o quê? O que acontece depois de as crianças e dos seus espíritos criativos (e sim, incómodos e rebeldes) se transformarem em adultos informados, experientes e difíceis de encantar?

Vamos imaginar uma sala de formação, um grupo de pessoas que se prepara para assumir um papel de liderança, com enorme potencial e expetativa. Nesse espaço, relativamente seguro e experimental, assisto, devagar, a uma presença genuína, à disponibilidade para partilhar experiências. Assisto ao interesse em aprender, à coragem para assumir riscos, ficar sem jeito e aceitar a exposição. Nesse cenário, vejo nascer energia e vontade de transformação, crença numa versão melhor de si mesmo, confiança na capacidade de ajudar outros a crescer e a criar algo de extraordinário.

Este grupo de pessoas regressa depois às dinâmicas estabelecidas e, aqueles que conseguem manter o nível de energia e imaginação acima da espuma dos dias, ensaiam pequenos passos, experimentam uma ideia divergente, desafiam, criam pontes, reconhecem outros. Estarão as equipas, os líderes, as organizações, preparados para esta transformação?

Aprender requer mais que um processo cognitivo de aquisição de informação, de assimilação. Aprender requer querer, mobilizar energia mental para o que estamos a aprender. Requer disciplina e repetição. Requer compromisso.

Bastará sermos capazes, aos 40 anos, de querer experimentar uma versão melhor de nós próprios, de fazer um upgrade ao nosso próprio sistema operativo. Deixar cair as máscaras do cinismo, da falsa segurança, do sarcasmo, da inércia, da subserviência – quaisquer que sejam as que usamos. Abdicar do apego ao controlo, da necessidade de aprovação dos outros, do medo de falhar. Aprender requer sermos capazes de arriscar, de mostrar vulnerabilidade, de pedir ajuda.

Para criarmos organizações que aprendem e se transformam, precisamos de nos preparar para a disrupção e para o incómodo. Para construirmos equipas de elevado desempenho, precisamos de estar disponíveis para construir espaços suficientemente seguros para que as pessoas aceitem assumir riscos e crescer.

Mais do que soluções rápidas e programas intensivos, os líderes precisam de ampliar a consciência e de começar a sua própria viagem, começando por si mesmos. As pessoas só fazem o que querem. De forma extraordinária, pelo menos.

Quando o meu filho era pequeno, acreditava em fadas. Aos seis anos, depois da primeira semana de escola, “descobriu” que estava enganado. Se criarmos sistemas educativos e organizações que alimentem a criatividade, a experimentação e a autenticidade, talvez possamos reaprender a crescer, e assim, deixar cair as máscaras.

03-12-2018


EvaReis SmallEva Reis, responsável pelas áreas de desenvolvimento de talento e liderança da Novabase, dedicou a última década da sua atividade em consultoria ao desenho e implementação de programas de desenvolvimento de líderes em diferentes negócios, entre os quais serviços financeiros, retalho, indústria, telecomunicações e empresas tecnológicas.
Formada em Psicologia Social das Organizações pelo ISCTE, tem uma pós-graduação em Gestão Empresarial pelo INDEG-ISCTE. 
Mãe apaixonada de dois filhos, contribuir para o desenvolvimento de outros é o que lhe traz energia.