Mudou tudo e nada mudou

Mudou tudo e nada mudou

Acredito que a história não é circular, mas ondular, pois nunca voltamos verdadeiramente ao mesmo sítio onde já estivemos, quanto mais não seja porque nós próprios mudamos.

Tiago Forjaz

É dessas ondas que assistimos às grandes mudanças no mundo e foi nelas que pensei para responder ao simpático convite do Torben Rankine para partilhar perceções sobre a minha mais recente viagem a São Francisco. 

Tive de ir buscar o meu guia(zinho) da Wallpaper para recuperar a data da minha primeira visita a São Francisco. Afinal passaram-se sete anos e, curiosamente, esta foi a sétima vez que a cidade me recebeu, contudo passaram-se quatro anos desde a minha última visita (quando participei na maior incubadora de Silicon Valley – o Plug and Play Tech Center, com a Leadership Business Consulting), por isso achei que podia aceitar o convite para refletir sobre as mudanças que observei, e aqui estão elas: 

Mudaram-se “as Pontes” 

Encontrei inspiração na entretanto inaugurada ponte nova para pensar o quão incrível me pareceu a ambição, rapidez e eficiência com que se fez tal proeza. Fui ler e apercebi-me que o investimento superior a 6 mil milhões de dólares, e o tempo que decorreu desde que começou a obra, afinal ilustrava que a grandiosidade dessa gente reside antes na determinação e na razão pela qual se construiu a nova ponte (a necessidade de segurança). Fiz, na minha mente, uma comparação com o que mudou nas nossas pontes com Silicon Valley. Talvez nada, talvez tudo. 

Talvez nada, porque muitas das pessoas que (re)encontrei agora já lá estavam em 2008. O Torben, o Pedro Vieira, a Pati, a Sara O’Hara, o Luís Vilela, e muitos outros que agora me dispenso de enumerar (mas sem desconsideração). Talvez tudo, porque faltava o Hugo Bernardo e outros quantos que também não vou contar. Mas mesmo entre os que estão notei consistências e mudanças. 

Reparei na insistência de ajudar quem chega, de opinar, de ajudar, de dar feedback e de aproveitar a oportunidade para falar um bocadinho de bom português. Mas confesso que também reparei no efeito do tempo e na trivialidade com que hoje se encara a possibilidade de juntar uns quantos portugueses para provar umas garrafas de vinho de Portugal. Explico melhor: lembrei-me que seria uma boa ideia levar vinho e queijo para convidar os portugueses a aparecerem em nossa casa para conviverem com esse pretexto e estabelecerem mais umas linhas de afeto. Estava convicto de que tal oportunidade não seria desperdiçada, sobretudo porque, passados quatro anos sobre a criação do grupo “Portuguese Friends in San Francisco” no Facebook, hoje haveria pelo menos 300 pessoas na lista de convidados. Mas, na realidade esse apelo não teve eco nem sucesso, bebemos nós os três (o Duarte Lourenço, o João Santos e eu) as garrafas de Conde de Ervideira Reserva. Ainda hoje não sei tirar todas as conclusões dessa história. 

Mudaram-se “os Heróis” 

Reparei também como Silicon Valley substituiu os seus heróis, pois há quatro anos ainda se falava de Steve como “o líder”. Hoje é um emigrante da África do Sul – o Elon Musk – quem reclamou esse protagonismo. É ele que cativa os nossos sonhos e guarda as nossas esperanças. Para os menos entusiastas, tem menos a sua fiel atenção. 

Mudaram-se “as Conversas” 

Recordo-me de há quatro anos ajudar um casal a comprar o bilhete para o Bart, e a realizarem que nem tudo em São Francisco faz sentido – “mete mais dinheiro e depois subtrai até chegares ao preço do teu bilhete”, foram as primeiras palavras que lhes oferecei. Hoje são eles que oferecem as conversas através do serviço de call centers virtuais. E é a Talkdesk (a única empresa de origem portuguesa) que encontramos na 101. 

Mudou-se “a Conversa” 
Reparei também que se mudou a conversa. Em 2008 falava-se do frio que a sombra da cidade traz e do quão inadvertido é sair de casa sem um hoodie, hoje instalou-se a conversa sobre a sombra da bolha, o preço do imobiliário e o rush das pessoas. Mas foi o meu taxista (um homem de Brooklyn) que, na viagem de regresso ao aeroporto, disse tudo: “It used to be funkier to live in San Francisco”.


 
Mudou-se “a Mission Street”
Saímos à noite e fomos para a Mission Street, de novo, não foi a primeira vez, mas desta vez foi memorável, inédito. Das cidades todas por onde passei, nunca vi semelhante mescla e furor de celebração e veuforia. A Mission Street está melhor. J

 
Mudámos “Nós”
Esta viagem fez-me lembrar que, em 2011, quando estive em Silicon Valley com os meus dois sócios co-fundadores da MighT, éramos uma startup e andávamos fundamentalmente de comboio e de autocarro; desta vez fomos como sócios de uma empresa, representando uma equipa de oito pessoas que vivem de business model firme e sustentável, e andámos de Uber e de Camaro, e em vez de visitar só Palo Alto, visitámos Carmel-by-the-Sea. 

Só não mudaram os amigos e esta frase... 

Como não podemos voltar ao mesmo ponto na história, nem ao mesmo lugar da mesma maneira, pensei que o que podemos sempre fazer é aproveitar os mesmos ventos e as mesmas aspirações para reviver o espírito empreendedor que nos move.

Só não mudaram os amigos, aqueles que arrumaram espaço para estar connosco, para saber como vemos o mundo, mas sobretudo aqueles(as) que decidiram sair e divertir-se connosco. Obrigado por serem os anfitriões do mundo! 

Se puder deixar uma frase, apenas uma frase – para os meus amigos em São Francisco – (é uma frase que aprendi com um CEO que é meu cliente e amigo) – “Tiremos mais tempo para celebrar o ócio e entenderemos melhor o negócio”.  


14-09-2015

 


TiagoForjazTiago Forjaz,  chief dream officer MighTworld (empresa de gestão de talento), fundou a The Star Tracker (a primeira rede social global de talentos portugueses). É frequentemente convidado para dar palestras sobre gestão de talento, empreendedorismo, liderança, o poder do networking e das redes sociais.