A “Ndrangheta” como modelo de Liderança - Camilo Lourenço

A “Ndrangheta” como modelo de Liderança - Camilo Lourenço

Máfia. A palavra assusta. E pode ser difícil entender porque a trago para um artigo sobre Liderança. Mas a escolha é simples: a Máfia encerra algumas lições sobre a gestão de organizações. Com destaque para a Liderança.

Confesso que o tema sempre me fascinou: como é que uma organização secreta, cuja estrutura é conhecida apenas por poucos, funciona e atinge os seus objectivos? Resposta: porque tem um código de valores. Que embora não seja público, é perfeitamente conhecido por quem para ela “trabalha”. E apesar de o Líder não ser conhecido por todas as estruturas da organização. 

Bem, não é verdade que o Líder não é conhecido; a falta de conhecimento é apenas “formal”. Em termos substanciais, todos (até as forças da Lei) têm uma noção de quem está na cúpula da pirâmide. Nos anos 70, por exemplo, toda a gente sabia o papel do clã Gambino no crime organizado, que dominava Nova Iorque e parte da costa Leste dos Estados Unidos.

O que faz, então, uma organização com uma estrutura “directiva” difusa funcionar? Os processos. Criados e implementados por um Líder cuja cara não é pública, mas muito eficaz a implementar, embora de forma pouco ortodoxa, esses processos.

O que é mais interessante na Máfia é que se revelou uma organização com características adaptativas. Em cinco décadas soube ajustar o modelo de negócio aos desafios do tempo: primeiro a extorsão, depois o negócio do álcool, depois o negócio do jogo e finalmente a droga. Só que essa adaptação não se limitou ao objecto do negócio; chegou também à própria estrutura da organização e respectiva Gestão. 

A prova mais evidente de que assim é surgiu há pouco mais de três anos em Itália, quando os tribunais começaram a julgar um processo que envolvia a “Ndrangheta”. Num primeiro momento as autoridades ficaram convencidas de que um dos acusados, Pasquale Condello, era o chefe máximo da Nadrangheta ("Il Supremo"). Mas quando começaram a relacionar elementos da investigação com provas de processos anteriores, ficaram ainda mais intrigados. Por exemplo, uma escuta a um sindicalista, entretanto preso, permitiu perceber que a liderança da organização estava dividida entre uma parte “visível” e outra “invisível” (que ninguém, verdadeiramente, parecia conhecer).

Estas revelações punham em causa tudo o que se sabia sobre o crime organizado em Itália (com ramificações pelo resto do mundo), que gere um volume de negócios calculado em 50 mil milhões de euros. Até aí pensava-se que a "Ndrangheta” era controlada pela “Provincia”, órgão de cúpula, assessorada pelo “Crimine”, órgão de consulta. Por causa disso, os investigadores começaram a rever casos anteriores de detenções de elementos da Mafia, na tentativa de perceber se a divisão entre “visível” e “invisível” era real.

As conclusões não são peremptórias. Mas há elementos que parecem sugerir que o novo modelo é real. Nos últimos anos, as autoridades italianas infligiram duros golpes à “Nadrangheta”. Mas, curiosamente, os negócios do crime organizado (medidos pelos números) não cairam. Moral da história: existe mesmo um lado “invisível” desta organização. 

É este modelo de organização que merece ser estudado no que à Liderança diz respeito: como é que uma organização cuja estrutura parece mais frágil e mais difusa do que há duas décadas, continua a ser tão eficaz a produzir resultados? 

 


Camilo-Lourenco-CronicasCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Entre a sua experiência profissional encontramos redator principal do “Semanário Económico” (desde 1988); coordenador da secção Nacional do “Diário Económico” (de que foi um dos fundadores) desde 1990. Diretor adjunto da revista “Valor”, que ajudou a fundar (1992). Diretor da mesma revista (1993), onde se manteve até 1995. Editor de Economia da Rádio Comercial, de 1992 a 1997. Diretor editorial das revistas masculinas da Editora Abril/Controjornal: “Exame” (revista que também dirigiu); “Executive Digest”, entre outras. Comentador de assuntos económicos da Rádio Capital, de 2000 a 2005. Diretor da revista “Maisvalia” (de 2003 a 2005). Comentador da RTP e RTP Informação, onde passou também a apresentar o programa “A Cor do Dinheiro” (desde 2007). Colunista do “Jornal de Negócios (desde 2007); comentador de assuntos económicos da Media Capital Rádios (desde 2010). Numa das rádios do grupo, a M80, apresenta dois programas: “Moneybox” e “A Cor do Dinheiro”. Comentador de assuntos económicos da televisão generalista TVI, onde apresenta “Contas na TV”. A par destas funções, Camilo Lourenço é docente universitário. Lecionou na Universidade de Lisboa, na Universidade Lusíada e no Instituto Superior de Comunicação Empresarial. Por outro lado leciona pós-graduações e MBA. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.