Laços de Sangue - A Liderança na sucessão - Camilo Lourenço

Laços de Sangue - A Liderança na sucessão - Camilo Lourenço

Ao longo dos últimos três anos, tenho passado muito tempo a lidar de perto com a realidade empresarial portuguesa. Nesses três anos constatei sobretudo duas coisas, uma boa e outra má. A boa é que há um grande número de empresas que percebeu os desafios da economia e está a reagir a eles. A aposta no mercado externo é uma delas.

A segunda, a má, é que continua a haver um grave défice de liderança no tecido empresarial. Isso nota-se particularmente nas pequenas e médias empresas. Hoje vou falar de um aspecto particular deste problema: a Liderança na sucessão.

Os casos que tenho visto, com raras excepções, não são muito inspiradores. Na maioria deles, os fundadores insistem em olhar para os filhos como alguém que, inevitavelmente, lhes vai suceder. E colocam todas as “fichas” neles. Uns levando-os cedo para as empresas, para garantir que desde novos tomam contacto com o negócio. Em alguns casos sujeitando-os a passar por tudo aquilo que um funcionário normal passa. É o “começar de baixo”, como lhe chamam. Outros adoptam uma atitude mais sofisticada: procuram dar aos filhos a melhor Educação. Chegam a mandá-los para as melhores Escolas, em Portugal e no estrangeiro, para adquirirem uma visão científica da Gestão.

Nenhuma destas opções está errada: o contacto com todos os níveis de uma organização é importante: não há nada que substitua o “floor” de uma empresa (a humildade, um dos aspectos mais referenciados nos MBA modernos, ganha-se assim); assim como o estudo científico da Gestão. Mas nenhuma destas apostas dá garantias de, no final de processo, ter-se um Gestor… e sobretudo um Líder.

O problema é que alguns progenitores não conseguem perceber isso. E insistem em entregar as empresas (normalmente tarde e a más horas) a pessoas que, não obstante o binónio experiência/estudos, nunca vão conseguir fazer o lugar. O resultado é, na maior parte dos casos, desastroso.

A experiência dos últimos três anos permitiu-me conhecer muitos casos destes. Situações em que se percebe que excelentes empresas vão, mais tarde ou mais cedo, deixar de ser excelentes porque são mal dirigidas. Nos casos em que consegui perguntar aos fundadores por que não optaram por outra solução, a resposta nunca foi convincente. Uns respondem que os filhos “se vão fazer”; outros estão tão alienados que não vêem o óbvio, a pessoa não tem jeito para o lugar; outros ainda respondem que, se for preciso, trarão alguém de fora (o que devia ter sido a primeira opção).

A modernização do tecido empresarial português passa muito por aqui: levar os fundadores de empresas a perceberem que a Gestão deve ser separada dos laços de sangue. E que é possível trazer um gestor profissional (um Líder) de fora para fazer aquilo que os filhos não têm jeito para fazer. Afinal, o mais importante não é olhar para a empresa como a extensão do património; é garantir que daqui a 50 ou 100 anos, a empresa continua a existir. E a criar riqueza e postos de trabalho.

 


Camilo-Lourenco-CronicasCamilo Lourenço é licenciado em Direito Económico pela Universidade de Lisboa. Passou ainda pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque e University of Michigan, onde fez uma especialização em jornalismo financeiro. Passou também pela Universidade Católica Portuguesa. Entre a sua experiência profissional encontramos redator principal do “Semanário Económico” (desde 1988); coordenador da secção Nacional do “Diário Económico” (de que foi um dos fundadores) desde 1990. Diretor adjunto da revista “Valor”, que ajudou a fundar (1992). Diretor da mesma revista (1993), onde se manteve até 1995. Editor de Economia da Rádio Comercial, de 1992 a 1997. Diretor editorial das revistas masculinas da Editora Abril/Controjornal: “Exame” (revista que também dirigiu); “Executive Digest”, entre outras. Comentador de assuntos económicos da Rádio Capital, de 2000 a 2005. Diretor da revista “Maisvalia” (de 2003 a 2005). Comentador da RTP e RTP Informação, onde passou também a apresentar o programa “A Cor do Dinheiro” (desde 2007). Colunista do “Jornal de Negócios (desde 2007); comentador de assuntos económicos da Media Capital Rádios (desde 2010). Numa das rádios do grupo, a M80, apresenta dois programas: “Moneybox” e “A Cor do Dinheiro”. Comentador de assuntos económicos da televisão generalista TVI, onde apresenta “Contas na TV”. A par destas funções, Camilo Lourenço é docente universitário. Lecionou na Universidade de Lisboa, na Universidade Lusíada e no Instituto Superior de Comunicação Empresarial. Por outro lado leciona pós-graduações e MBA. Em 2010, por solicitação de várias entidades (portuguesas e multinacionais), começou a fazer palestras de formação, dirigidas aos quadros médios e superiores, em áreas como Liderança, Marketing e Gestão. Em 2007 estreou-se na escrita, sendo o seu livro mais recente “Saiam da Frente!”, sobre os protagonistas das três bancarrotas sofridas por Portugal que continuam no poder.